Xicuembo (versão 3.0)

memórias & resmungos do Carlos Gil

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quinta-feira, agosto 18, 2005

a vidinha na esquina que morreu

Estou no café, um net-café que tem montras que dão para uma esquina entre uma travessa onde tudo o que é vivo morre com o último rodar de chaves dum comércio que já era defunto antes de mim e dos chineses cá chegarem, a outra rua hesita entre o lá vai um e o lá vai nada que resta quando o dia morre e as televisões incendeiam a vidinha, lá vai um e é dos grandes, ai Jesus coitados dos bombeiros, Deus queira que nenhum se magoe antes da novela. A travessa e a rua, o café e a cidade, se calhar também a net, estão todos a jantar, estão nas novelas, nos telejornais, no ritual do lá vai mais um dia e eu no meu de mais um café, sozinho, eu e o dono do café.

Ele lê o jornal, eu escrevo. Damo-nos bem. Ele sabe que eu escrevo, venho cá muitas vezes e sempre em fuga da solidão que a minha esquina da vidinha me dá, nesta travessa e nesta rua, neste café, não há televisão e assim eu quebro a minha solidão. Ele sabe que eu escrevo pois trago sempre o caderninho comigo. Ao lado dele, da mesa dele, uma estante pejada de livros, lombadas alinhadas e muitas cores, tanta letra - digo eu que ainda não enchi o meu caderninho, mesmo que a esta hora não esteja ninguém nem no café nem na rua nem na minha vidinha, escrevo, olho para os livros e ouço a música suave, lá fora sobre o casario fina-se o dia, ninguém na travessa idem na rua, estão todos a jantar e a saberem as notícias, o pormenor, lá vai um lá vão dois, deixa estar que a seguir vem a novela e - já sabemos! irá acabar tudo bem.

Atrás de mim, lá na privacidade envergonhada do fundo dos cafés onde antes se punham as máquinas de flipper's, há duas mesas com computadores, complemento do net-café, onde daqui a pouco me sentarei e escreverei tudinho, isto tudo, ele já sabe que eu escrevo e não se vai zangar. O que vi e o que imaginei, tudo se mistura, lá fora lá vai um, deve estar atrasado para se sentar à mesa, ou saiu para ir à farmácia, ou simplesmente só saiu ou ainda não chegou. Isto tudo eu conto, se não sei a certeza então imagino, que interessa, o que realmente interessa é este lento lá vai um de escrever, o que vi e o silêncio desta hora em que a minha caneta faz serviços mínimos e cumpre o seu ritual, este escrever no café.

Há música ambiente. Suave, os instrumentos descem até mim e são acariciadores, enlevam-me, ajudam-me a escrever, eu, que de música sou em norma abstémio, quase como se de urticária fosse a afronta e me afectasse a vidinha, até a de escrever, faço-o mais suavemente. Ambiente. Bom ambiente pois não há televisão o que é jóia rara em café, ainda mais nesta esquina em que a vida morreu quase antes de o sol morrer. E não sei das desgraças, nem sequer uns carros aqui passam, parece que o dia escolheu esta esquina de solidão para morrer, pelas largas montras vejo-lhe os últimos fios, luz parca, tão pouca para tanto falecimento, tanta má notícia antes da telenovela, dias que morrem assim no conforto de saber-se que, nas novelas, há-de sempre advir um fim feliz que é o que todos desejamos, é a vidinha. Se não fosse assim quem as veria depois de fogos e assassinatos, mentiras, misérias e luxos, àquelas tememos e estes nunca alcançamos, sabemo-lo, é a vidinha.

Estou só no café. Lá, ao lado da mesa dele, o dono, estão os livros, também sós, alinhados, linhas e linhas que - quem sabe? também terão sido escritas em mesas de café, por certo as mais felizes são antes do dia morrer quando o telejornal e a novela acordam, pré tanto do imediato que empurra as desgraças para os finais felizes que esta esquina, morta, ignora. A vidinha, nós, mesmo antes de mim e dos chineses cá chegarem já tinham morrido um a um, lá vai um rumo a casa e ao jantar, às notícias e ao seu xanax, a novela.

A música embalou-me, soou suavemente e nesta aridez do lá vai um sou um príncipe de escrita ao ter esta solidão, esta esquina, este silêncio para escrever.

Na rua, na vidinha, ninguém. Morreram, um dia di-lo-á no telejornal e os que não moram na esquina do silêncio olharão enquanto jantam, a seguir vem a novela.

4 Comments:

Blogger th said...

Recriei a esquina do café...e sem o saberes eu fiz-te companhia! agora vou embora, também eu vou escrever, já não vejo telenovelas e já jantei...só vim para usufruir deste silêncio combinado!
e deixo um beijo, claro...

quinta-feira, agosto 18, 2005 10:29:00 da tarde  
Anonymous Tareca said...

Que uses qualquer PC, qualquer lugar , mas não nos deixes sem pintar a tua arte .Um beijinho grande

sexta-feira, agosto 19, 2005 2:09:00 da manhã  
Anonymous Anónimo said...

Ele lê o jornal, eu escrevo. Damo-nos bem. Ele sabe que eu escrevo(...) - parabéns!, muf'

sexta-feira, agosto 19, 2005 3:01:00 da tarde  
Blogger baixa-shiatsu said...

li este texto (por acaso) no mesmo café onde foi escrito.

abraço,
miguel manso

sexta-feira, agosto 19, 2005 10:17:00 da tarde  

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