Xicuembo (versão 3.0)

memórias & resmungos do Carlos Gil

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quarta-feira, outubro 05, 2005

Contornos Acidentais

Tanta vez que se fala nas esquinas da vida, nas esquinas disto e daquilo mas nas nossas, nas reais nossas, as que nos conduzem a casa e dela nos tiram, há que reconhecer que pouco delas se fala. Talvez por serem de todas as mais familiares, mera paisagem entre dois pontos e que de tanto se contemplar carece de reboco novo, gato morto no passeio ou tragédia semelhante para prender a nossa atenção. Os passos contornam-nas, perdidos nos caminhos que vão e vêem.

É sem esforço de memória que agora ‘leio’ a minha, a favorita por aquela que mais uso pois é a que me conduz ao café, ao tabaco e ao jornal. É banal, sem nada de especial, olá vizinha, um banco de jardim abandonado no passeio, o mesmo anúncio de ‘vende-se ou trespassa-se’ que amarelece na porta desde que o consultório médico com exames de raio-x fechou, talvez já há mais de um ano. Antes era um corrupio de velhotes que aí madrugavam, o banco no passeio sempre ocupado, os táxis estacionados com os motoristas a lerem jornais de futebol e a dormitarem enquanto os clientes fazem o seu rx às dores, olá vizinha então isso vai melhor ou não. As maleitas adivinhavam-se nas conversas que se ouviam quando se contornava a esquina, eles naquele seu lazer conversado de doente que partilha dores e doenças, troca de cromos de dores velhas, sempre na dúvida de se não se será o mais enfermo da freguesia: ‘tenho uma hérnia discal, e você? ‘

Hoje passam lá os sãos, somos todos sãos desde que o raios-x fechou. Esta semana morreu o Anselmo mas ele não era cliente do raios-x; virava a esquina, a nossa esquina, e nunca se deteve nela a caminho do café e do jornal, foi noutra esquina que se deteve e por lá amansou, lá ficou e ficará no seu eterno azul belenense, no seu gosto pela pesca de rio e pelas intermináveis conversas à volta do cálice de ‘meia de 1920’ que era meia infindável nas lazentas tardes da reforma. No café conversa-se de intriguinhas e dos fait divers que se ouvem nos cafés, vivó Benfica e afins, coisas de vida mas não de doenças, trespassa-se ou arrenda-se, corta-se na casaca de tantos e bate-se no governo, mas as doenças, essas, abalaram e na minha esquina ficou o trespasse, deserto, o número de telefone que ainda não teve o trim que dará nova vida, novas doenças, à minha esquina, esquina do Anselmo também.

E eu contorno-a, pé ligeiro e reza nos lábios pois saudades, saudades, só tenho de gente no banco e dos carros de praça, dos seus rádios que contornavam a esquina com as notícias e os hits, olá vizinha, todos atrás de mim no meu vai e vem. Vou ali e já venho, quem sabe quem encontrarei na minha esquina, talvez veja o Anselmo quem sabe, talvez aceite beber com ele meia de mil nove e vinte, saudades que ficam numa esquina que é tão anónima como eu e o Anselmo o somos para quem dela nada mais conhece que as doenças que já ali não moram. Tanto que se fala nas esquinas da vida, nas esquinas disto e daquilo, que hoje apeteceu-me falar na esquina do raios-x, que o meu vizinho Anselmo já não dobra.

2 Comments:

Blogger C.S.A. said...

Gostei da prosa.

quarta-feira, outubro 05, 2005 7:58:00 da tarde  
Blogger th said...

Foi bom encontrar-te ao virar da esquina...th

quinta-feira, outubro 06, 2005 12:23:00 da manhã  

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