Xicuembo (versão 3.0)

memórias & resmungos do Carlos Gil

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sexta-feira, janeiro 20, 2006

Brilhava

Os dedos percorreram as rugas da face como se elas fossem suaves linhas de mel, não marcas de pretéritos difíceis mas prendas para um futuro guloso colher. Nos olhos lia-se uma ternura triste, que escorria e compunha os lábios num brilho intenso, ávidos dum espelho que não os via.

Saiu para a rua e procurou sinais nos rostos que se cruzavam, o espelho, o brilho, fez os quarteirões do silêncio e atravessou as ruas do nada com as mãos nos bolsos do sobretudo, alforge de dedos lambuzados de vazio. Crispados em punhos que se cerravam, arbítrio que não se lia nem adivinhava nas rugas que poderiam ter sido rios de mel e agora eram vales de solidão, tanta.

Dos que viram o salto ninguém falou das rugas ou do brilho, de mel ou de ternura. Nem de nada em especial pois até o sobretudo era banal. Também eles não viram sinais. Quando os bombeiros encontraram o corpo tinha as mãos nos bolsos, manequim de vida vergado, caído sem que um espelho o tivesse reflectido. Brilhava.

2 Comments:

Blogger Anamargens said...

Que bela peça literária.
Mas que temática tão...
Aqui faltam-me as palavras. Este tema faz doer. Doer solidão e desencanto. Sabor só de amargura.

sexta-feira, janeiro 20, 2006 10:23:00 da tarde  
Blogger Kamikaze said...

Ó Vizinho ,


Passagem em ritmo acelerado, para deixar o comentário da ordem, tipo copy/paste, apenas para te desejar um óptimo fim-de-semana.


P.S. – E que, no domingo, os deuses da política nos bafejem com o menos mau dos candidatos
presidenciais. No teu caso, que o Alegre te dê uma Alegria das grandes!

Um abraço!

sábado, janeiro 21, 2006 2:21:00 da manhã  

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