Xicuembo (versão 3.0)

memórias & resmungos do Carlos Gil

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quarta-feira, abril 27, 2005

Sobre a ironia e o nada, com curva no Alto Maé

Há pouco vinha no carro e escutava a entrevista do Carlos Vaz Magno, TSF, ao Luís Fernando Veríssimo, que eu não sabia também cartonista e músico de jazz, sax. Acabei por ficar mais um pouco à porta de casa e a aprender, coisas ditas que me fizeram sorrisos amarelos, algumas piscadelas de ter aprendido com o recado que quem é pode e sabe deixar. Se para aí calhar um dia, iremos rir juntos, eu e vocês, que eu e ele é mais difícil. Admiro imenso o LFVeríssimo e nunca li o pai. Claro que havia em minha casa o “Olhai os lírios do campo” pois em todas as casas que conhecia existia esse livro, ou da mãe ou da filha, ou da prima – ‘elas’ já então liam mais que ‘eles’, mas, que me lembre, nunca o li. Nessa época, talvez os meus catorze, quinze anos, ainda navegava muito nas histórias de expedições científicas, aventuras, devorava relatos de subidas a montes ou de expedições por selvas ou aos pólos, muita história baseada na segunda guerra mundial, e aprendia os primeiros nomes da ficção científica. De escritores brasileiros, nessa época, não recordo nenhum. Aliás, brasileiro, com essa idade, para além das toneladas de BD que de lá vinham, Recruta Zero, todos os Disney’s, etc, lia sempre a revista “4 Rodas”, que comprava na loja/bazar “monhé” em frente da paragem do machimbombo no largo do Alto Maé, essa mesma onde uma vez tentei ‘gamar’ uma revista de BD e fui apanhado, e estive meses em que a vergonha não me deixou lá voltar.

O que me trouxe à cadeira foi esta frase, sobre a ironia na crónica: “é terrível ter de explicar a piada”. E aqui estou eu, candidato a penitente por tantas inépcias que ora junto esta ao monte, a da ironia falhada. Recentemente tive uma situação dessas e acabei por desistir de explicar a grande ironia de que se vestia um comentário meu a um texto de blogue, e que para meu grande espanto não era compreendida. Por adverso e mau feitio põe-se a hipótese residual de, ele, texto, não tê-la, a dita; mas que soçobra quando o releio e não hesito: está lá, aqui, ali, olha ali, então!... não fui parco de saleiro e menos ainda no pimenteiro, leva laçarote e está mais que mui apresentável, a meu ver e com estes olhos suspeitos até o acho gargalhante… como é possível não ser assim lido, ó céus, ó graça dos ditos? O Luís Fernando Veríssimo conta que passou por alturas em que, precavido com tanta porrada injusta que levava a torto e a direito, em certas crónicas apetecia-lhe pôr um aviso no fim: “isto é ironia”. Eu, mais modesto e mais folgado na porrada que me prometem, encolho o teclado como se de ombros fosse, experimento as letras e encadeio-as, e até lhes dou uma borrifada de 8x4 se for preciso mas não abdico da minha ironia. E não explico a piada, não senhor, quanto mais a leio mais rio, ela está lá, a dita ironia, e sinto-me um injustiçado social por ela assim não ser reconhecida.

Bem, o LFVeríssimo falou de muitas coisas e nalgumas aprendi, como atrás contei. A parte em que mais corei foi quando o Magno lhe perguntou se, com tantos anos de coluna diária no jornal, havia sempre tema ou se por vezes a caneta só escrevia que não há nada para escrever, e a coisa compunha-se nesse nada que é tão grande que tudo permite. Ele riu-se e disse(-me) que esse truque era velho demais, já ninguém o utiliza. Olhei para o lado e assobiei, mais tarde veio a tal da ironia que me fez para aqui vir e, a palavras tantas, lá acabo por contar a parte corada da história. Que não é a da ironia, que, nessa, não cobiço mais que a farta que tenho, e não abdico de dizer a quem talvez um dia leia isto que sim, aquela porra estava e está cheia de ironia, da fina, até lhe colo autocolante comprovativo como ao outro apeteceu fazer, divisas à parte.

3 Comments:

Anonymous Xaxado said...

Grafa-se Verissimo sem o acento. ;D

quinta-feira, abril 28, 2005 7:51:00 da manhã  
Anonymous Anónimo said...

E eu digo que, sobretudo, este post está bem escrito! _ muf'.

quinta-feira, abril 28, 2005 12:13:00 da tarde  
Anonymous Anónimo said...

"Moveste-te"?!!Aproveitaste boleia do movimento terrestre...(ó pra mim tão poética!!!)Não abdiques da tua ironia.Um beijo mui casto...na testa.Elsa.

sexta-feira, abril 29, 2005 5:21:00 da tarde  

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