Xicuembo (versão 3.0)

memórias & resmungos do Carlos Gil

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domingo, novembro 06, 2005

Restaurante-bar En'Clave

Daqui a três horas e meia, aqui, vou ler este texto:
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"Quando me disseram que o mote era literatura africana, confesso que hesitei pois muito de sábio haverá a dizer sobre a arte da vírgula à sombra do cajueiro.

Não sou um académico que do tema realize oração grata dando-vos o seu saber, nem nas minhas raízes tenho ancestralidade que me transmitisse a rica tradição do conto oral africano, seu húmus genético.

Da literatura, das diversas literaturas, conheço delas o que me dão e me agrada como leitor, e o conselho e forma que, como aprendiz de escritor, também nelas garimpo para o meu alinhavar de letras, que persigo emocionalmente audaz.

Sou um leitor compulsivo, atento não só ao conteúdo que me recreia intelectualmente, mas também voyeur de formas e estilos que invejo, e que ambiciono para estes meios-quilo de carne própria que são os textos, para o seu criador.

Há algo que me perturba quando se fala nesta ou naquela literatura étnica, seja na sua vertente poética ou na da narrativa.

É o receio de não lhes encontrar cheiros e sons específicos, e as palavras deslizarem para esse grande oceano da literatura chamada ‘universal’, que permite encher páginas de burlescos floreados e sagazes viagens ao íntimo, sem contar do canto do vento que cicia namoros às ramagens, ou do cheiro bom da terra, quando nela cai o pranto dos céus.

Ora, penso que quando se fala duma ‘literatura africana’ tratar-se-á do seu oposto, e, mais que o odor pessoal da tinta do escritor, das frases escorrerá a magia dum continente que é criança sofrida e dengosa mas também amante malicioso e sensual, letras em palete de emoções exclusivas.

Sabores, sons, cheiros; África está prenhe deles e a sua literatura conta-o.

Como já verbalizei, eu, Carlos Gil, sou um mero aprendiz desta feitiçaria das letras encadeadas, esta droga voraz que escraviza fatalmente quem lhe prova o sabor.

Daí que não tenho argumentação que enriqueça o tema, ‘literaturas africanas’, nem possuo em espólio texto exemplar às qualidades específicas sugeridas.

Rebuscando e virando a arca do avesso, do meu livro ‘Xicuembo’ extraio o conto que passo a ler-vos, versão revista, apelando aos vossos indulgentes favores para nele ouvirem o marulhar do mar Índico, quando ele se apaixona"

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A capulana e o mar (versão revista)
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A capulana enrolada quase no rabo, num nó ágil que desnuda segredos que as ondas beijam com lascívia. O vulto dobrado, lenço na cabeça, uma blusa de chita e a capulana, destaca-se no mar agriculturado pela noite, prado de ondas e sabores salgados que rompe, manso, contra a areia quente.

As mãos seguem os olhos, argutos, que procuram búzios, conchas, os tesouros que as ondas dão à areia em fecundação que a faz brilhar ao sol, quando o dia descobre o que a noite e as ondas deixaram na praia para a seduzir.

Em volta dos joelhos a água remoinha e borbulha, os pés enterram-se devagar e vão mudando o apoio ao sabor das mãos que recolhem as jóias do mar, que delas se despoja finda a noite que o veste em prata, para dançar o eterno namoro à areia da praia que o abraça, dele sequiosa mas interesseira às prendas com que ele a seduz.

A capulana recebe o beijo e lá fica a sua marca, roço húmido que lava pernas e panos, o corpo dela e a sua capulana, híbrido adorno que se cola como temeroso da água que a molha beijando-a, sempre mais e mais enquanto as mãos recolhem os búzios e as conchas, cada uma tão diferente...

Por vezes o Sol no alto suspende-se e brilha com mais força, quando o vulto se ergue e a mão eleva um dos tesouros e, à sua luz e brilho, há olhos que riem no prazer da beleza que descobriram, riquezas do mar que a capulana guardará.

As conchas têm matizes radiantes e brilham mais intensamente contra o céu, que mergulha no verde das águas e não esconde a beleza poisada na areia. Fora da sua prisão de água, à luz que cai em ondas de calor, as conchas e os búzios cintilam de forma especial antes de mergulharem no segredo que o nó da capulana esconde.

O nó, lasso, vai cedendo ao peso do pequeno saco que a capulana dobrada forma, e é reposto enquanto as águas, a maré que vai e vem, torneia-lhe as pernas magras mas robustas. Ritual colector, riqueza que a capulana conhece e conserva.

A rapariga comprara a capulana nova faria agora dois meses, quando vendeu para o mercado a sorte dum dia às conchas que trouxeram um cesto de peixe, oferta dum pescador que ali aportara, o bojo da canoa cheio e muita vontade de partilha da sua fortuna com o vulto de capulana arregaçada, seu farol enquanto as ondas o puxavam para a areia e, ao longe, lambiam de leve os panos e a moça que colhia as conchas, como se de lagostas em ouro se tratasse.

Azul e com listas vermelhas, ao centro o mapa de mãe-África que lhe parecia enorme, tão grande como este mar que a molhava deixando-lhe rugas como se traçasse cadeias de montanhas onde aprendera que seriam terras de deserto, ocas de animais, verde, água, ocas desta África que ela conhecia e dava-lhe conchas e búzios.

A capulana gostava de ir ao mar, dobrada em volta dos seus tesouros, molhada pela água excitantemente salgada.

Desejava também a carícia da areia que as ondas alumiavam, as suaves ternuras e cócegas que as mãos dela lhe causavam, os dedos que faziam e refaziam o nó, ou quando a batiam e esfregavam para a limpar da areia.

Já seca ao calor, brilhavam o azul e o vermelho onde o contorno de África ganhava um tom especial sob luz que a aquecia após o beijo do seu amante, dono das conchas e outros tesouros que lhe dava, malicioso e sedutor, para a beijar na sofreguidão das ondas que se erguiam, roçando as nádegas e molhando a capulana. Os seus restos viviam na capulana, brilhante de molhada, enrugada no excesso de meiguice do abraço de paixão que recebera.

Romance que se repetia sempre que o vulto, dobrado, lenço na cabeça e blusa de chita, a capulana azul com listas vermelhas dobrada quase até às nádegas, recebia os beijos do mar, e as ondas gritavam o seu prazer quando a acariciavam e ela brilhava, as cores mais intensas que nunca o foram.

Consta na praia que, um dia, na areia quente, o pescador afortunado e a moça dos búzios e das conchas deram um beijo, mas dele não teve ciúmes o mar pois ele amava era a capulana.

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