Xicuembo (versão 3.0)

memórias & resmungos do Carlos Gil

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sexta-feira, novembro 04, 2005

Crónica adiada

Os compromissos editoriais são o que são e eu não sou ninguém. Esta introdução para dizer que no número que saiu hoje à rua do 'O Almeirinense', o texto que preparara para a minha coluna Letras do Índico teve de ser adiado para o próximo, pois o papel é caro e o espaço é curto, e há mais letras que justamente também reclamam por serem lidas.
Como aqui no blogue não existe esse problema (pelo contrário... quem me dera ter diariamente novidades para publicar...), aqui fica o texto, sendo certo a 99,99% que esta 'antecipação' em nada prejudicará as vendas da próxima edição do jornal cá da terrinha.
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O que o rio traz à margem

A cultura africana sempre enfeitiçou quem dela quis sentir o afago do seu abraço, seja nos traços vincados da sua escultura, no concerto de cores e formas dos seus pintores, na música que soa em ritmo inigualável, no cantar da vida e do seu luar ou no estremecer involuntário que nos percorre quando lemos a força dos seus poetas. África é brutal, até quando nos beija e essa carícia perdura para além do travo misterioso que os seus lábios deixam na memória. Alguma da melhor poesia que conheço tem lá o seu registo de nascimento ou de adopção por amor. São palavras-poema com cheiros que nos envolvem entranhando-se na pele, sabores com exotismos que perturbam como uma paixão. Há um prato cheio de emoções que nos é servido para degustar no sorver de África pelas mãos, pela voz e pelo olhar dos seus artistas.

África tem visitado Almeirim, terra onde se fundem o Norte e o Sul à ribeirinha das margens dum rio que, mesmo hoje em que empalidece minguante, exibe a secular beleza dos seus poderosos antanhos, água-mãe de tantos viveres. Almeirim bebeu dessa força e nele musculou o crescer, nesse rio de tradições e valores pescou um olhar que se alça mais longe, mais além dos salgueiros que o contornam. Tão longe foi o seu abraço que nele acolheu outros viveres, outras pessoas, de Norte a Sul encontrou à beira-rio a diversidade que rejuvenesce e revigora a identidade. Há trinta anos atrás vindos da África que dizia-se ser nossa mas que a razão expropriou, hoje doutras gerações e doutros lugares. Mas sempre África no seu sentir e viver, na simplicidade da sua alegria. Foi também assim, de braço dado com filhos d’África, ao lado do rio que lava e varre e irriga as margens, que Almeirim cresceu.

A seguir ao encontro de poetas africanos num net-café que em boa lembrança também vende olhares escritos e encadernados do mundo e de nós mesmos, sucede-se esta coluna onde o mar do Índico já beijou gulosamente uma maliciosa capulana, e já se sonha com mais… No cair-nos do Inverno como saberá bem refugiarmo-nos dos seus maus humores numa mostra de escultura e pintura moçambicana, encontrando nas suas formas e bailado de cores o húmus tropical que os rigores invernais fazem almejar… Sonhar é bom, mas o êxtase da sua realização só se consuma no prazer partilhado, ora pela boa cheia de África que transbordou do rio inundando almas e amores, mesmo àquelas que dela nunca sentiram antes o seu bafo, quente, sensual. Assim vos conto do meu sonho, um que diz que talvez em breve haja mais novidades em mostras de cultura africana.

Da minha janela olho os dias que esfriam neste Outono que renasce nevoeiros e assoma rigores, e os meus olhos sobem às nuvens ou às estrelas e evado-me ao Norte, em memória e em sonho regresso ao Sul, ao colo da mãe África. Quando as palavras-fascínio soam, as narinas abrem-se e inalo o seu cheiro quando um poeta me dá letras com o calor ritmado dum batuque, pintadas nas cores de fogo do seu pôr-do-sol. Não sublimo nem desvalorizo os encantos da lezíria. Nas rotinas que do rio conhecem mouchões e tradições leio pinceladas que afagam, pois décadas de enraizamento geram um frémito em mim quando ouço o linguarejar típico, o seu calão, os seus dizeres e cantares, e o remanso da minha idade olha com ternura este viver para lá da minha janela.

Mas por ela, janela, vem-me o cheiro sonhado da terra húmida, a memória alaga-se em recordações e vejo as crianças. As crianças africanas que vivem num viver esfarrapado de tanto, que no vazio desse tanto restou um imenso lugar ao seu sorrir, e sorriem como mais nenhumas crianças do mundo conseguem sorrir. África beija-nos a existência com estes exemplos de ternura, ora doce na inocência cristalina dum sorriso, ora no abraço cultural prenhe duma força revigorante, explosivo no traço e exuberante no seu olhar a cor.

Felizmente que o acréscimo de África a estas páginas e ao nosso quotidiano não se atina às comuns das televisões e jornais generalistas, onde as boas notícias alternam com um excesso das más. Hoje, neste século em que se acede ao turismo espacial mas que viver em África é ónus superior ao bónus natural que a natureza concede a quem a pisa, neste tempo de extremos África dói-nos. Nascer e viver nas faldas duma floresta tropical ou numa cidade africana, ou sê-lo e vivê-lo olhando o nosso rio percorrendo as vinhas e as hortas, as esquinas das nossas vilas e cidades, é a diferença que está para além da sorte da vil vida ou seu profundo azar. África dói-nos, chora-nos, por vezes há lágrimas que rolam quando o olhar se evade do conforto do umbigo-janela, e voando turisticamente na demanda de imagens belas e cheiros especiais regressa vergado, apoiado nessa prótese da realidade chamada esperança.

E nesta margem do rio que tudo lava e traz, olhando o cair da folha e as águas para além da minha janela, abro um livro e leio um poeta, africano e moçambicano e também europeu e português, tal como eu que não sou poeta mas tenho uma janela por onde vejo as nuvens e sonho o rio, por onde afago a terra que me acolhe. Mas há um músculo que bate mais forte quando leio assim:

NATURALIDADE
....................
Europeu, me dizem.
Eivam-me de literaturas e doutrina
europeias
e europeu me chamam.
.....
Não sei se o que escrevo tem a raíz de algum
pensamento europeu.
É provável... Não, é certo,
mas africano sou.
Pulsa-me o coração ao ritmo dolente
desta luz e deste quebranto.
Trago no sangue uma amplidão
de coordenadas geográficas e mar Índico.
Rosas não me dizem nada,
caso-me mais à agrura das micaias
e ao silêncio longo e roxo das tardes
com gritos de aves estranhas.
.....
Chamais-me europeu? Pronto, calo-me.
Mas dentro de mim há savanas de aridez
e planuras sem fim
com rios langues e sinuosos
uma fita de fumo vertical,
um negro e uma viola estalando.
...................
Rui Knopfli

3 Comments:

Blogger Nkhululeko said...

Um abraço, com o calor do Índico.

sexta-feira, novembro 04, 2005 1:10:00 da tarde  
Anonymous IO said...

Porra, que este gajo escreve BEM!! - muf', arrepiada.

sexta-feira, novembro 04, 2005 4:12:00 da tarde  
Blogger Helena said...

"África dói-nos"
Pronto. Lá fiquei eu com a lágrimazinha no olho... Dói..

*

sexta-feira, novembro 04, 2005 7:28:00 da tarde  

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