Xicuembo (versão 3.0)

memórias & resmungos do Carlos Gil

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quinta-feira, dezembro 15, 2005

O capacete dourado


Quando me despedi do serviço foi sem ter comprado o bilhete de avião ou pensado o que fazer à tralha, ou seja: sem uma data concreta para dar a cambalhota com aterragem na Europa. Que me lembre durou à vontade mês e meio. O meu pai morrera há pouco tempo e eu utilizava a sua Daihatsu 1000 Station Wagon com o encanto de quem tem carro novo nas unhas, algumas notas no bolso e uma vida para despedir pois já à espera está uma nova que era olhada como uma enorme aventura, uma revolução pessoal profunda. Foi nesse tempo sem horários e com temor ao calendário que aconteceu o que ainda hoje recordo como o ‘fim-de-semana alucinante’. Simbolicamente foi a minha festa de despedida de Moçambique. Poucos dias antes de rumar a Mavalane sem regresso, tive um jantar no hotel Cardoso com colegas e amigos (a foto) mas foi outra festa, outro tipo de grupos em que me integrava. A despedida freak foi no Bilene, naquele fim-de-semana que foi alucinante e termina com capacete dourado.

Como sabe quem se recorda, a juventude laurentina aglutinava-se por grupos, sendo o local de encontro o nome por que eram todos conhecidos. A malta da Casa das Beiras, os gajos da Moçambicana ou do Hotel Universo, os da Teresinha e os do ATCM, da Princesa ou os que ‘paravam’ aqui e ali, era assim que os grupos eram conhecidos. E era normal um ou outro personagem dum grupo fazer um longo estágio noutro, para além das normais incursões diplomáticas para ver que marca por lá se fumava. Considerem como uma imensa nuvem de fumo inter-activa. Foi dum desses grupos - e já não me lembro nem quem nem de onde, que apareceu lá no grupo um puto, assim porreiro como nós mas doutra zona e classe social. Recordo-me que no nosso grupo todos tínhamos motorizadas ou, os poucos que as tinham, motos grandes em segunda ou terceira mão; a ele conheci-o com uma Honda CB 360 ainda a luzir, que pouco depois trocou por uma igual, 360 ‘G’, nova a sair de stand, só porque era o novo modelo daquele ano. Conhecia os sabores das massas no bolso melhor que qualquer um de nós. Tiro a extracção com rigor, e o seu argumento é tão só que os seus pais tinham uma moradia no Bilene, uma casa de praia, que se hoje ainda não é vulgar imagine-se naquela altura... Parecia um conto de fadas quando soubemos que os pais tinham vindo para Portugal e ele ficara com as chaves. E até havia um barco, descobriu-se mal lá se chegou.

A ideia nasceu e tratamos de fazer o avio, as permutas e novas compras, cada um tentando ser original ou apresentar uma raridade ou um prato de fazer extasiar os convivas e deixar o ‘representante’ inchado de orgulho. Cada um levava as drogas todas que arranjasse, lá chegados juntava-se tudo numa mesa, como que para um fim-de-semana gastronómico em que a mesa está sempre posta com iguarias mil. As surumas eram fortemente maioritárias mas a sua variedade de qualidades tornou as tardes e as noites coisa de gourmet. As speedadas eram o constante pois dos Lipo Perdur e coisas parecidas havia sempre umas caixitas desviadas em elaboradas artimanhas, uns drunfos para quem gostasse, acho que houve ácido mas esse nem ali nem em lado nenhum aparecia em quantidades de ‘desbundas’. Com excepção de quando a Anita teve a melhor ideia do mundo, mas essa já é velha e pertence à história undergrund do fim da cidade colonial de Lourenço Marques.

Lembro-me de que fomos em dois carros, eu com a Daihatsu. Na altura tinha a BSA 250 que fora do Luís Kurika, velhinha e embirrenta mas com um look irresistível. A velha companheira Honda já tinha sido vendida, desta vez definitivamente. Antes, houve uma altura em que a vendi mas rapidamente a recuperei. Partilhava com o Luís um apartamento mesmo em frente ao escritório onde trabalhávamos, e na garagem cada um acumulava um carro, ainda a minha Honda 50 SS e o Luís a Suzuki 350 verde que fora do Dominique. Acontece que vendi-a a outro colega, que vinha nela para o trabalho e deixava-a estacionada em cima do passeio para aproveitar a sombra da acácia. A tortura era tão excessiva que baqueei e fiz-lhe uma oferta irrecusável. Bem, se éramos dois carros não fomos para o Bilene menos duns sete ou oito. E, nisto, também se sabe como é. Não vivemos isolados e as noticias sabem-se. Se nas manhãs o dia nascia em suaves ressacas em que se ouvia música melancólica e tentava-se que as próprias moscas estivessem quietas, havia alturas em que a porta não parava. Também com uma mesa aviada daquela forma...

Desse fim de semana alucinante recordo o estranho que era olhar à volta e saber que aqueles dois estão a tripar, eu no bringdown do speed, e aqueles ali no canto nem sei bem o quê mas estão também com um saudável ar de janados: está tudo a fumar jardas de apurado gosto e exótico efeito. Uma orgia sensorial e psíquica. A única restrição que havia era a de que para o barco ninguém podia ir a tripar.

O capacete dourado entra na história no regresso, e dá o nome ao texto porque foi dele que me recordei quando se motivou este escrever de memórias. Era o meu, e na cidade raramente o utilizava a não ser que fosse noite a puxar para o fresco, ou em viagem. Coisa bonita, dourado e de aspecto racing, foi carote. A mota era a menina dos meus olhos e em reparações e extras consumia-me fortemente o ordenado. Ora bem, ou o capacete andava na carrinha ou levei-o para o Bilene sei lá porquê. Na viagem para cá trouxe-o posto naquelas longas rectas que vão até à Macia, mas tirei-o antes de lá entrar. Gozaram comigo à brava, foram uns quilómetros interessantes. Ele merece largamente ser título deste post.

A 21 de Janeiro (1976) tinha entregue a casa ao dono, meu senhorio, o espólio de lp’s e livros distribuído e a mota e o carro entregues. Foi a primeira e única viagem de avião da minha vida. E também nunca mais tive outro fim-de-semana alucinante, nem terei: já não tenho o capacete dourado.

3 Comments:

Blogger th said...

Este é o web, está de volta!
que maravilha para desenjoar da política, ou politiquice...
Só faltou a foto a que te referes no texto e de que eu me lembro bem, toca a colocar, não seja preguiçoso! beijo, th

quinta-feira, dezembro 15, 2005 2:05:00 da manhã  
Blogger th said...

LINDO MENINO!...lol assim, sim!

quinta-feira, dezembro 15, 2005 2:22:00 da manhã  
Anonymous Tareca said...

prefiro tb este menino, a foto está demais e o texto , porreta, áaaaa meus 17 anos!

Jinhos Web

sábado, dezembro 17, 2005 12:15:00 da manhã  

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