Xicuembo (versão 3.0)

memórias & resmungos do Carlos Gil

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sábado, fevereiro 04, 2006

Patine urbana

Se eu fosse um edifício teria beirais de telhado onde se aninhasse um pássaro, paredes com azulejos verde-claro com simétricas flores brancas e uma porta com o número carcomido pelas nuvens que a olharam e nela terão batido; com uma ranhura em metal polido onde estava a esperança assim escrita: “cartas”. Uma varanda fronteira, onde caía o Sol que dava brilho às fissuras, essas rugas de envelhecer olhando a cidade. E tinha um gradeado rendilhado ao seu longo como já não se fabrica, pois já não há tempo para fazer o individual; com arabescos de artesão nas portadas das janelas, a tinta estalada em bonitos desenhos de idade. Se eu fosse um edifício eu gostava de ser um edifício amigável, o cinzento de prata da bonita meia-idade nas paredes que viam a rua viver.

Quem olhasse adivinhava uma cave onde estariam guardadas as plantas da sua criação e as cotas da sua genética, e entrever-se-iam águas-furtadas donde se avistavam montes e se serviam longos pôr-do-sol. E via uma chaminé a precisar de ser pintada, uma telha partida... é impossível abdicar de, se se fosse um edifício, ter uma telha partida que lave com o sol que se ri, e seca a chuva que caiu. Lá dentro adivinhar-se-iam cantos que são recantos, desenhados em mapas de tesouro e contados por avós pacientes com os netos de linhas uniformes, que crescem aqui e ali rua acima rua abaixo.

A história adivinhar-se-ia em azulejos rachados, na ternura da gravação dum coração e uma seta, quatro iniciais, uma data... tanto que há numa parede antiga e tão ilegível que é para quem não olhar, olhando-se olhando. As veias à vista dum edifício são indispensáveis para quem passa em frente, bata ou não bata à porta alta e em madeira, pequenas janelas gradeadas e de vitrais antigos. Por falar em frente: o passeio defronte, estreito e tornando os passantes íntimos com a frontaria, seria de seixos gastos pela idade e que brilhariam ao sóis das tardes. Não seria numa esquina pejada de sinais de trânsito porque o edifício que eu seria, se fosse edifício, não teria no seu telhado o néon assassino da sua existência, ou as linhas vampes de assinatura de época, em postais ilustrados que perturbam o sossego de olhar a rua e o viver. Os azulejos antigos e as cornijas em pedra velha seriam os seus sinais, únicos códigos legíveis e que se aprendem em olhares que sabem mais que só ler, sabem olhar.

Se eu fosse um edifício seria velho e amigável para quem passasse e me olhasse. Sem alarmes ou placas no portão a ameaçar com seres ferozes ou multas. E teria uma fachada ainda mais linda se nela houvesse candeeiros para iluminação do passeio, daqueles antigos e que nas noites de névoa fariam imaginar no meu passado mil e tantos passos à sua frente, épocas que o esmalte dos azulejos reflectiu quando brilhava após lavado pela chuva, esse húmus da rua. Se eu fosse um edifício, queria ser mais velho e mais bonito que o sou, humano, daqueles em que a sua existência na paisagem é tão naturalmente bela que nos sentimos pequeninos, olhando-os. A patine da beleza dumas linhas com vida vivida e uma história antiga e que será eterna: na sua ausência continuam a falar quando percorremos ruas onde o contraste de épocas asfixia as mais antigas, raramente em benefício de passeios onde, também, os seixos resistem com as fachadas ao permanente destruir de paisagem.

4 Comments:

Blogger th said...

Admirável texto! se tu fosses Edifício eu gostaria de ser a árvore em frente que dá sombra a um banco de jardim onde se sentassem os velhos a descansar em tardes de verão...se tu fosses Edifício...

domingo, fevereiro 05, 2006 12:05:00 da tarde  
Blogger Henrique Santos said...

Belo texto literário, a Theo tem razão. "Se eu fosse edifício seria velho e amigável para quem passasse e me olhasse..." A tua composição tantas vezes me colhe de surpresa. Eu tenho te lido mais do que criticado... às vezes fico-me pela passagem e pelo gozo que algumas leituras me dão, e não critico ou deixo msgs porque detesto ser formal, ou melhor gosto mais de dizer o que penso com aquela abertura que já me conheces. E este texto cativou-me e vou passar a comentar, mesmo quando me "bates" na minha qualidade de crente... ahahahah
Um abraço, Ricky

domingo, fevereiro 05, 2006 12:15:00 da tarde  
Blogger Carlos Gil said...

Já fui vaidoso, hoje estou sereno: o que é é, e este texto está bonito embora merece um parágrafo final melhor trabalhado. Como todos os do blogue, são ensaios, de algum saíra uma frase a, um dia, aproveira interligando-oa com outra coisa. Neste há duas: a que o Ricky referiu e outra, a que da varanda onde "... se serviam longos pôr-do-sol". Estas duas estão bonitas, o resto ao seu lado é pechibeque bonitinho. Para mim-autor que sou o primeiro leitor, duro, duro mesmo, as duas frases, mais uns pormenores aqui e ali, é que tornam o texto bonito, ams ele não está uniforme. E com o último parágrafo mal amanhado, mas sou um preguiçoso do caraças e já estava aborrecido com tanto escopro e lima que lhe estava a dar.
A Th é comentadora de poltrona - creio mesmo que é quem mais aguenta a minha confusão com a utilização pelo autor do blogue das caixas de comentários - espero que já pública, e já ninguém pense que...) A verdade é que, elas como espaço de diálogo dos dois lados, ao princípio não me apercebi dessa utilização tão natural e ignorei-a. Depois, criou-se o hábito de que resulta a falta de à vontade com que aqui venho, sempre sem jeito. Como quando vou aos outros, agora vejo que o Ricky também é assim. Mas leio-as todas, e, estas como as vossas duas acima, espero que sintam o quanto as acarinho e assim, sempre, recordarei. Eu, afinal, ando cá para isto.... ser lido. Ler o que vocês escreveram... :-), e não digo mais nada!

domingo, fevereiro 05, 2006 5:16:00 da tarde  
Blogger Bárbara Vale-Frias said...

MARAVILHOSO!

Há textos, como este, que me apetecia muito ter sido eu a escrevê-los! ;)

sexta-feira, abril 14, 2006 2:31:00 da tarde  

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