Xicuembo (versão 3.0)

memórias & resmungos do Carlos Gil

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segunda-feira, setembro 05, 2005

Infusões com letras

Sejam da China ou de Ceilão, aromatizados por frutos ou com extractos de canela e cravinho, neles bóiam farripas de letras e sorvem-se sempre devagar.

Os chás estão na moda e os cardápios de infusões já não são a curiosidade exótica que, alguns, poucos, cafés e pastelarias apresentavam há meros anos atrás. Assim como os fiéis, sendo hoje mais ou filhos e as filhas das ditas que elas in self, as mães e as tias de outrora que se juntavam à mesa e a pretexto do bule fumegante, prato de duchesses e de pastéis de nata ao lado. Nalguns casos em que conheço ambas as gerações, não concedo especial hesitação em atribuir o rótulo de aficionada das infusões à mais nova, evadida aos tradicionais ‘preto’ ou ‘cidreira’ mas seduzida e alargando pesquisas e gostos por variantes ‘menta verde’, ‘maçã e canela’ ou ‘cereja japonesa’.

Fazendo agulha ao título, às folhas e flores boiantes vou juntar as letras. Porque o chá além de palavroso – a herança genética das ‘tias’ e do ‘chá das cinco’ – trás para a mesa o seu ritual próprio bem diverso dum café que só se adoça e sorve, banalidade gestual que entra em hábito com a visita aos primeiros cafés ainda em criança, “anda ali para o pai tomar uma bica”. Ele apela à palavra, seja ela lida ou contada, às vezes e para quem dela gosta também a escrita. No chá, seja ele “earl grey” aromatizado com óleo de bergamota, flores de jasmim e uma qualquer variedade de citrinos, ou um enigmático “sencha japonês kkh-5” (néctar límpido e aberto com o típico e delicado sabor japonês – ipsis verbis), vem para a mesa a parafernália adequada, o bule com o penduricalho da variedade a degustar em laço à asa, o açucareiro e a chávena larga. E assim se inicia o culto do chá, sempre vagaroso e sempre com direito a uma repetição pois não é dose cafeínada que em dois goles se lhe veja fundo e fim. Nas infusões das ervas há o lento gole que se prolonga fazendo render e apaladando as conversas, aromatizando-as com laranja e canela, estranhos rooibos verdes, flores de cacto e de centáurea azul, prometedoras folhas de morangueiro que arrolam recordações de infância, antes do tempo que só os vê em caixas de supermercado, etiquetados e sem as folhas, nus de tanto do seu sabor.

E as letras? Nascem assim, ao lado do bule e da chávena fumegantes, chá preto do Ceilão com aroma de cacau e menta africana, laranja-cenoura, flores de hibuscus, bagas de sabugueiro e muitas, muitas, raspas de letras que da chávena pingam na folha, assim.
Tchim-tchim.

1 Comments:

Blogger th said...

Gosto dele bem à inglesa e delas em bom português...lol

segunda-feira, setembro 05, 2005 1:09:00 da manhã  

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