Xicuembo (versão 3.0)

memórias & resmungos do Carlos Gil

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segunda-feira, agosto 29, 2005

Está-se bem

É invulgar, e por isso vou relatá-lo. E belo e de gerar esperanças, também.
Estou num net-café que também tem a sua secção de livraria, algo pequena mas bem afreguesada em autores. Referi-o à dias atrás, num post que aqui escrevi em hora de silêncio dentro e fora, sendo que hoje só será comparável o pouco trânsito que esta esquina goza nocturnamente.
As mesas estão quase todas ocupadas, incluindo as dos computadores, e tendo eu à minha frente alguém que clica furiosamente no rato; de soslaio vigio sobre o monitor os olhos e as sobrancelhas que não param quietos, agitados. Que verá? um jogo? uma página que não abre e ele insiste aguardando por uma exaustão da máquina? sei lá, vamos mas é ao inusitado...
Há grupos de jovens em várias mesas, os habituais piercings e trajes de moda juvenil urbana mas a maioria usa a mais discreta e convencional, pólos e camisas fora das calças, eles, elas com os umbigos à mostra mostrando bronzeados e adornos. Noutra, um casal que suponho serem namorados arrulha em volta dum chá que acredito ser de paladar exótico, mas doce. Numa mesa mais afastada um solitário está debruçado sobre o telemóvel, imerso numa interminável SMS para alguém. Ouvi contar uma história de uma moça solitária que tinha dois telemóveis: de um mandava mensagens para o outro, na (sua) leitura amenizava a solidão de tanto meio de comunicação que não a ouvia. Será que este não deveria conhecer um dos números de telemóvel dela? vice-versa? uma agenda telefónica para os possuidores de telemóveis duplos que nunca tocam? sei lá, sei lá, ele continua a escrever, eu também.
Nada de original ainda, dirão, e bem. A solidão é o sumo das multidões (à minha frente ele não descansa, ataca, os cliques redobram e os olhos abrem-se ainda mais. vencerá? venceremos? estou solidário, seja o que for)
Só que noutra mesa próxima está um casal e a filha; sei-o pois conheço-os de vista e até o cumprimento quando nos cruzamos, aquele aceno de quem não é íntimo nem parceiro de hobbys mas que se reconhece sem desagrado. Também eles com um bule em cima da mesa, e mais algo. Este é o algo do inédito, pela sua utilização. É que - e embora no ambiente que referi e que induz ao diferente que está no gigantesco mundo que vai para além da televisão e da leitura de jornais desportivos - sobre a mesa está também um livro, um velho livro de bolso com a capa gasta e com os cantos moídos, ao que vejo também com as páginas amarelecidas e de que já curiosamente espreitei o título (Anna Karenina, de Leão Tosltoi). Ele lê-o, vê-se que em voz calma e só por eles audível, claramente direccionado para a miúda que o ouve sem uma atenção especial mas também sem ar de enfado. Está atenta, mas não seduzida. Mas atenta. Por vezes param a leitura, conversam, bebem o chá, julgo até perceber que há trechos comentados, explicados. Retomam a leitura, à minha frente o louco furioso agora copia algo para uma agenda. Um score? o quê, após aquele furioso clicar? o quê, se o outro ainda olha para o telemóvel, silencioso, se eu escrevo o seu silêncio onde só soa Tolstoi com chá, eu à volta das letras no teclado dos outros - que original!..., sobre todos e no silêncio voga um saxofone, lento, sensual, envolvente, sem perturbar pensamentos e mensagens, leituras, o chá e o silêncio.
Afinal eu também uso pierciengs e não o sabia. Está-se bem, assim.

2 Comments:

Anonymous IO said...

Fico feliz por te saber com um lugar onde te sentes bem - muf'

terça-feira, agosto 30, 2005 12:59:00 da manhã  
Anonymous Anónimo said...

está-se mesmo muito bem a ler este texto tão simples, tão evocativo e tão belo.
miguel 'innersmile'

terça-feira, agosto 30, 2005 6:13:00 da tarde  

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