Xicuembo (versão 3.0)

memórias & resmungos do Carlos Gil

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segunda-feira, agosto 29, 2005

Doce

Como anunciei em post recente, no último sábado tive a apresentação do Xicuembo-livro em Almeirim. Claro que foi especial. Porque cá vivo e é aqui que em todas as esquinas me conhecem, mas sem esta 'roupagem' de escrevinhador. Também porque foi aqui que ele foi escrito.
Mas o momento foi especial porque tive a visita de Amigos Grandes, daqueles construídos via internet e que desses laços virtuais se caminhou sem hesitações para a ligação que não prescinde dos abraços reais que os amigos entre si trocam, do convívio que a amizade reclama. Um deles, no caso uma linda 'uma', foi a Clara a quem entreguei missão dura: a apresentação do livro e do autor. Dura porque sei que a obrigou a trabalho que não é fácil, até pelo pouco tempo que teve para isso. Dura também porque falar da obra dum amigo mantendo uma distância que a amizade não favorece, também não o deverá ser. E tão dura foi esta última inibição, que a Clara cedeu aos favores da amizade e excedeu-se nas palavras. Reconhecido e envergonhado, transcrevo-as pela sua qualidade académica e literária, rogando-vos que deixem um sorriso às suas extensões que a amizade induziu.
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Porque acompanhaste a génese do livro Xicuembo, porque conheces a realidade nele descrita e porque confio no teu sentido crítico, foram as razões apresentadas pelo Carlos Gil, ao honrar-me com o pedido de que fizesse a apresentação do mesmo. Por todos esses motivos, eis-me aqui, com orgulho, de mãos dadas com ele, num momento de suma importância na sua prometedora carreira como escritor.

Começo, portanto, por falar um pouco sobre a forma como o Xicuembo se veio a corporizar:
A semente que deu vida a este livro foi lançada no terreno propiciado pela comunicação via internet, que prodigiosamente gerou encontros, reencontros e restabeleceu hábitos de escrita caídos em desuso, seja em comunidades com interesses comuns, seja em blogues particulares. O Carlos Gil criou um blog que se chama, precisamente, Xicuembo. Passou a ser um local de visita obrigatória para muita gente que navega por esse novo universo comunicacional, pela variedade de textos originais que oferece: sérios, como crítica social e política ou de um humor subtil e refinado que muitas vezes me fez gargalhar.
Foi, portanto, no encontro virtual de pessoas com memórias similares, que o Gil sentiu o à vontade para reconstituir por escrito as suas recordações, revelando uma necessidade premente de lançar um grito contido durante 28 anos como assinala nas palavras finais do livro: Há páginas que só se viram, relendo-as. Desde logo, e à medida que os seus dedos deslizavam no teclado, compondo as ideias que ia expondo regular e publicamente, descobrimos que estávamos na presença de alguém com um particular dom para o manejo da palavra escrita.
As críticas funcionaram como a mola indispensável para que o Carlos se lançasse na vertiginosa aventura da criação literária. Algum Xicuembo o terá abençoado, lançando sortilégios de fascinação pelo recém-descoberto mundo mágico e inesgotável da prosa e da poesia. Renascido, foi com paixão que os seus dedos retomaram a caneta e o inseparável caderninho, ou compuseram sinfonias de palavras enquanto percorriam ligeiros as teclas do computador, descobrindo, assim, um novo sentido para a sua vida.

Porquê este título Xicuembo? Muitos dos presentes desconhecem o significado da expressão. Posso dizer que esta palavra aglutina a multiplicidade de razões, de sentimentos e emoções que levaram à criação deste livro.
Originalmente, tem a ver com o culto dos antepassados entre a maioria da população africana. Cada ser que morre, desprende a sua alma ou parte imaterial, e transforma-se em xicuembo, que tem o poder de interferir junto dos seres viventes de forma benigna ou maligna. Daí, o intenso respeito pelos xicuembo na medida em que produzem encantamentos, magias ou feitiços que afectam os vivos. É esta base, aliada ao respeito pelo saber adquirido com a idade, que origina a veneração aos mais velhos, (algo que, lamentavelmente, se perdeu nas sociedades do chamado mundo desenvolvido de modelo ocidental) pois que mais perto de soltarem o seu espírito para o campo ignoto do transcendente. A expressão foi sendo absorvida e banalizada por todos aqueles que faziam a sua vida em terras moçambicanas e passou a designar tudo o que era insólito ou inexplicável, a feitiçaria ou a magia.
O Carlos Gil, quanto a mim, recebeu um dom: apoderou-se do mais sublime dos segredos de magia, o de, com maestria, compor as palavras.
Por tão bem que o explicou, não posso deixar de citar aqui Guilherme de Melo:

“Xicuembo”, é uma daquelas palavras africanas sem tradução possível no linguarejar europeu. Porque sendo Deus, é feitiço; porque sendo o omnipotente é também mistério que aterra, o segredo que envolve, a praga que se abate, o sonho que embala. O sortilégio que marca.Que outro nome poderia ter este livro, senão este mesmo?

Como leitora assídua penso ter, ou dever ter, a capacidade de avaliar do interesse literário de uma obra, quer no que diz respeito ao seu aspecto formal, quer ao seu conteúdo. Ou se gosta ou não. Neste caso, eu gostei.
Pela minha formação académica, prestei uma particular atenção à base documental que o livro veicula e às reflexões críticas feitas em torno do processo histórico de que o Gil foi testemunha e interveniente, como muitas pessoas que integram as sociedades portuguesa, moçambicana ou que se espalharam pelos quatro cantos do mundo. Mas nem só sobre o passado, o Carlos reflecte aqui. O presente também é objecto de análise quando procura perceber os caminhos trilhados por Moçambique e as razões das dificuldades que atravessa actualmente.

Em termos literários, posso dizer que o Gil tem a arte de saber expressar, através da escrita, as ideias de uma forma fluida e bela, em que as palavras se harmonizam com frescura numa composição de textos deliciosos. As pequenas histórias são narradas com vivacidade e emoção acompanhadas por um cardápio de cores, sabores e cheiros que quem viveu naquele país à beira do Índico reconhece bem. As acácias rubras e os jacarandás são repetidamente recordadas como símbolo de todas as indeléveis marcas que aquela cidade debruada pelo belo Índico fixaram na sua memória, como se foram de fogo. Cito:
...para além das torres e avenidas, das praças e dos jardins, havia aquelas acácias vermelhas, aquele espectáculo de cor que enchia os passeios de florzinhas pequeninas coloridas, tapete de luxo para quem passava – p. 63

Relativamente ao conteúdo, o Carlos Gil, no Xicuembo, revela-nos um mosaico de tempos que vão da sua percepção infantil do mundo ao momento em que envolvido na diáspora lusa, se lança na aventura de sobrevivência em Portugal. É, pois, predominantemente um relato autobiográfico, um baú de memórias, cujo interesse deriva, também, do manancial de informação que contém e que interessa a todos por caracterizar a sociedade num determinado espaço e tempo histórico.
Nos primeiros capítulos emergem histórias engraçadas, bem contadas, que nos levam a recordar as nossas próprias traquinices infantis e adolescentes, os sonhos, a evasão para os misteriosos mundos conseguidos pela imaginação de quem não sentiu ainda a crueza da vida. Lá, como em qualquer parte do mundo, embora a variante das componentes paisagística, climática e social. O Carlos salienta as vantagens proporcionadas pelo meio em que viveu, entre as quais a valorização da comunicação interpessoal que faz estreitar laços de amizade e cito: “porque abençoadamente não havia televisão, essa praga individualizadora que gera autómatos de comportamento e inibe a convivência” (p. 22) Isto funcionou, sem dúvida, como estímulo da criatividade para ocupação de tempos livres como tão bem humoradamente o livro traduz.
São retalhos, nacos de uma vida, acontecidos no contexto de uma realidade colonial, narrados com humor e leveza, que o Carlos Gil entretece com reflexões sérias sobre a verdadeira face desse passado, denunciando as injustiças de um tempo. Descreve as suas vivências no limiar da cidades branca e de caniço, zona em que se entrecruzavam culturas diversas, alertando o leitor para as desigualdades que percepcionava mas que ainda não sabia pôr em causa. Cito: Vivia na Av de Angola, limite do arco-íris do bairro do Alto Maé e já dentro da amálgama encantadoramente desalinhada do bairro da Mafalala. (p.25)
Como ele refere na obra, tal como a maioria das pessoas, ao tempo, olhava de soslaio tais injustiças, embalado pela vertigem das descobertas privadas ou meramente adormecido pela mentalidade da época. Daí, a necessidade deste livro. Por um lado serviu como um processo de catarse, como que uma explosão de relatos e emoções respeitantes a um passado contido e não resolvido. Precisava de sair de vez desse mundo de recordações que lhe nublavam o presente. Por outro lado, 28 anos volvidos, o distanciamento e a preocupação em reflectir sobre o processo que o obrigou a desvincular-se fisicamente das paragens em que foi feliz, deu-lhe o sentido crítico necessário para fazer o seu julgamento, que fez questão de registar nas páginas deste livro.
O Carlos Gil reflecte pois, ao longo do livro, sobre si e sobre uma época, desfiando emoções temperadas com a razão.

É importante assinalar uma característica da obra. O Xicuembo está escrito com o linguarejar corrente em Moçambique da época, em que o tal manto branco se destacava altivamente sobre a imensidão do negro, de acordo com o fenómeno de incorporação espontânea de termos dos dialectos locais, na língua portuguesa falada. (sobre isso, recordo que, nos finais dos anos 60 os manuais do ensino primário deixaram de ser únicos, os vigentes na designada metrópole como em qualquer colónia, e haviam-se adequado à realidade da terra, nomeadamente, a nível das expressões que quotidianamente todos usavam) Quem lá viveu, sabe bem que nunca se apanharia um autocarro mas sim o machimbombo e ninguém tinha hortas, mas machambas. A população branca foi-se apropriando dos mais variados termos que são coerentemente utilizados no discurso e explicados em rodapé pelo autor.

Este livro é uma promessa. É a promessa de que numa qualquer rua em Almeirim vive alguém, de nome Carlos Gil, que constitui uma mais valia para a terra, para o país e para o mundo lusófono. Foi aqui que germinou e cresceu o Xicuembo. Será aqui que novas composições irão nascer, inspiradas decerto por outras vivências e por outro envolvimento ambiental, físico ou social. O Carlos é uma pessoa especialmente atenta relativamente a tudo o que o rodeia, para quem os mais ínfimos pormenores contam. Incorporados no seu imaginário e aliados à grande sensibilidade que possui, constituirão decerto ingredientes para novas criações literárias. E se o digo, é porque sei.

Aproveito, também, para dizer, que textos e poemas seus foram editados no nº 2 dos "Cadernos Moçambicanos Manguana", que já foi publicado em jornais daquele país e que vai colaborar regularmente na revista Tempo.

Em jeito de conclusão, apoiada pela velha máxima: Nada, nem ninguém é capaz de dizer mais sobre um texto literário que o próprio texto, aconselho vivamente a leitura desta primeira obra do Carlos Gil.
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Uma mini reportagem fotográfica e alguns comentários humorados, podem ser vistos e lidos aqui.

5 Comments:

Blogger Luisa Hingá said...

Carlos e Clara:
Parabéns!!!
Já linkei o artigo no Blogueios...

terça-feira, agosto 30, 2005 12:55:00 da tarde  
Anonymous Anónimo said...

E eu, também!!, que Qualidade é Qualidade!!, beijo, IO.

terça-feira, agosto 30, 2005 1:47:00 da tarde  
Blogger Leonor said...

onde todas as esquinas me conhecem mas sem a roupagem de escrevinhador.


personificação linda, das esquinas, invenção da palavra nova fantastica, escrevinhador.

abraço da leonor

terça-feira, agosto 30, 2005 9:08:00 da tarde  
Blogger None said...

C & C, vocês prometem! Que dupla!
Clara, que belo texto. Há-de aparecer no FC, tenho é que umaginar como....
Bjo

quarta-feira, agosto 31, 2005 10:25:00 da manhã  
Blogger None said...

imitando Mia Couto, não é? não deve ser uma, mas duasmaginar e além do mais será (i)maginar.

quarta-feira, agosto 31, 2005 10:27:00 da manhã  

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