Xicuembo (versão 3.0)

memórias & resmungos do Carlos Gil

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sexta-feira, junho 24, 2005

Cumpri a Promessa

Foi segredada em chope e tsua de Inhambane, em chuabo da Zambézia e nhanja do Niassa, em ronga do Maputo e também em maconde de Cabo Delgado, em macua do Niassa, de Nampula e ainda daquele Cabo Delgado, ndau de Manica e de Sofala, changane de Gaza e em sena dessa Sofala, no chinungue de Tete, até no português das cidades. Foi assim que a Promessa nasceu, sussurrada de avós a filhos e de filhos a netos, narrada sob estrelas nos terreiros das aldeias e no chilrear do silêncio de caniço das ruidosas e estranhas cidades.

Espalhou-se de ouvido em ouvido, o testemunho dela voou de norte a sul e um país nasceu no multilingue sonho de existir. Construiu-se nos avoengos anseios suspirados do adeus ao presente que exala odores maus, de passado, das más memórias em que esse diário é conivente. Assim nasceu a Promessa. De Norte a Sul, do Rovuma ao Maputo como o seu cidadão número Um um dia diria, a Promessa foi-se espalhando, os filhos e os netos incorporam-na, amando-a, ela sendo nhamussoro, mufendi, exorcista de medos e de tantas, tantas privações que a ordem das caravelas impôs e ainda perdura.

A Promessa de ser-se livre. A Promessa de se ter uma pátria sem máscara e bandeira importada do Norte altivo e gélido, pilão implacável que diariamente mói almas e vontades, sem o afago da chirugo ou do mugoti na chicari onde o povo faz a matapa e prepara o nhame. A Promessa de ser um país independente, uno, cantado em macua ou ronga, ndau ou changane.

Aconteceu. Foi-se a bandeira duma unidade que era fictícia do Minho a Timor e ficou a língua una, nhanga de unidade. Que hoje faz anos, faz anos que a Promessa foi cumprida. De orelha em orelha, soando nos tambores das planícies ou nos becos das cidades, nas pausas que a noite africana avoca, a Promessa vinculou-se e foi selada e é cumprida em português. Abençoada herança, que livre de farda colona lê-se unidade.

Junho, vinte e cinco, há trinta anos atrás. Cumpriu-se a Promessa, e Moçambique livre e adulto nasceu.
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Glossário:

Chicari: panela feita em barro;
Chirugo: colher de pau
Chope, tsua, chuabo, nhanja, ronga, maconde, macua, ndau, changane, sena, chinungue: dialectos locais de várias regiões moçambicanas, especificadas no texto;
Matapa: alimento rural tradicional;
Mugoti: pau trabalhado para uso no pilão (duri); também chamado de mussi;
Nhame: carne;
Nhamussoro; mufendi: exorcista de religiões tradicionais africanas;
Nhanga: curandeiro, médico, cientista e adivinho.

5 Comments:

Blogger magude said...

Oh Carlos Gil, se isso ainda era possível execedeste-te! Deixaste-me comovido mangusso!
E viva Moçambique!!!!

sábado, junho 25, 2005 12:33:00 da manhã  
Anonymous IO said...

Maravilhosa Promessa, NOITE FANTÁSTICA, grande escriba!!!, 25 x 30 beijos, muf'

sábado, junho 25, 2005 1:12:00 da manhã  
Anonymous jpt said...

Comemora

sábado, junho 25, 2005 7:50:00 da tarde  
Blogger C.Indico said...

No glossário falta "xicuembo".Em puto passei noites aterradas com medo que ele viesse.
Já agora:como a avidez de alguns destrui,mais uma vez, a possibilidade de uma nova ideia de nacionalidade.

domingo, junho 26, 2005 6:07:00 da tarde  
Blogger marujo said...

lindo maningue o teu texto, companheiro (permite-me que te trate assim...). espero bem que os teus desejos se cumpram de verdade. para os moçambicanos, ainda há muito caminho para andar...

terça-feira, junho 28, 2005 9:50:00 da manhã  

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