Xicuembo (versão 3.0)

memórias & resmungos do Carlos Gil

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sábado, janeiro 28, 2006

o arrufo

Fui bruto com ela. E ela, cheia de razão, mas de forma tão súbita e inesperada que me deixou de colete laranja e feito burro a olhar para o palácio, amuou e calou-se.

Em vez de ir para o lado que seria o desejado embiquei para o errado, ela avisa-me já a opção está quase irremediavelmente tomada, é travão súbito, marcha atrás rápida enquanto lá no espelho o gajo do Golf azul ainda está parado a tentar perceber o que eu quero fazer, enfiar logo logo uma primeira, acelerar a fundo e torcer a direcção, anda dois metros a fazer uma razia ao triângulo separador do tráfego, e cala-se. Nem pio nem tosse, nem um rrr-rrr de estar constipada ou coisa assim que dissesse que ainda respirava, ou um beicinho de suspiros amuados que eu cobrisse de beijos. Calou-se. As luzes funcionam, etc e tal, não percebo como é que ela fez aquilo nem como o resolver. O manual, re-descoberto, é omisso quanto a arrufos sentimentais: eu procurei. Morreu-lhe a alma de desgosto com os insultos já acamados que de mim ingrato tem ouvido, a provável gota-lágrima de óleo de protesto foi com aquela confusão de ordens que lhe dei: pára já já, vai de cu, trava e vai em frente, e tudo na esgalha e meio torcida. Tinha de ser o que não é, ela é somente a minha pita com rodas, a Telma.

Chateou-se e disse que não me aturava mais. Pôs-me na rua mais à ingrata sua ex-cúmplice, que a vendera como escrava sujeita a tais desatinos. E suamos, suamos e praguejamos para em empurrões a fazermos andar passos que foram tão pesados como as culpas que carrego por a ter tratado assim; "às mulheres não se bate nem com uma flor" Eu vez disso eu fiz "trava, recua, trava, manda um salto prá frente", louco ataque de autoritarismo sem nexo após meses a chamar-lhe nomes cada vez que ela abria o pio, pio que lhe cortei quando a tal ensinado mas que ela subsituí por um apito que soa sempre que é a sua deixa para falar e não o consegue fazer por eu lhe ter posto uma mordaça. O raio do apito era (e é...) de tal forma embirrento que quando dá de si eu julgo-me na gare de Stª. Apolónia e continuo a refilar-lhe....

Não, não é assim que se trata ninguém e vozes mais indignadas dirão que muito menos uma pitinha, ao caso a minha doce Telma. Ela amuou e calou-se, e também porque para além da justíssima indignação com os tratos de polé deve ter pensado assim: "tu pára lá para pensar no que queres fazer pois eu cá acho que não estás a bater lá muito bem! senta-te e pára para pensar, que de mim já nada ouves enquanto não souberes o que queres fazer". Calou-se, kaput, nem um rrr-rrr nem nada, o seu coração tornou-se-me gelo naquele fim de tarde já de si com nórdicos humores (ontem...) Vi futuros negros e imaginei-a hospitalizada e eu palmilhando a vida pensando nela e nas minhas culpas na sua doença, imaginei e comecei a sentir o arrepio da solidão se a separação que o seu silêncio obrigava acontecesse, estivesse já a acontecer com início naquele silêncio amuado...

Bem, depois passou-lhe. Tão inesperadamente que me tirou um molho de preocupações que já estavam a ganhar corpo de complicações ao presente, uma alma que conhece outra alma como só uma mulher conhece outra mulher, dez minutos depois, ela roda a chave e a minha Telminha sai do arrufo e pega, sem choros, tosses ou espirros. Passado é passado e uma segunda oportunidade não se nega. E ronrona e desliza como se nada se tivesse passado e a sua zanga comigo não tivesse nunca existido.

A uma Telma que depois do que passou assim faz as pazes, mesmo que muito senhora do seu apito que seja, há que dar todo o carinho do mundo, murmúrios e carícias de amantes. Não como preito à sua enorme capacidade de perdoar quem tão mal a tratou, pois, por curto, seria e serei sempre por aí injusto, mas como embalo em carinho a esse saber perdoar-me e continuar a ronronar-me. Na viagem até Lisboa e depois de lá para cá, Almeirim, tivemos momentos íntimos que não conto, ternuras especiais, memórias que fazem sorrir e olhar o mundo de frente, com aquela certeza que quem sentiu a magia da química do amor conhece.

Hoje eu e a Telma começamos 'a entender-nos', iniciamos o que se chama "uma relação". Já não era sem tempo, e só aquela coisa do apito é que assombra os meus sorrisos cúmplices quando a acaricio, sentindo-a agora e finalmente como parte real do sonhar e sonhar-me.

5 Comments:

Anonymous Anónimo said...

Eu por acaso até houve um item, nesta história, de que gostei:
Qundo chegaram ao pé de mim, voltei a ouvir o delicioso verbo
chovar!!

Fico feliz por teres chegado bem a Almeirim, web.

Quanto à Telma, fez, ao pôr-te a chovar em plena linha de Cascais, o minímo que uma mulher digna faria:

Ou seja, disse-te. oh meu filho da Mafalala, que raio de koisa é essa de passares a vida a sonhar com outras e outros, Bugattis, Ferraris e etc... quando sou eu, Telma, que te levo a ver as pitinhas, sempre que elas te faltam?...

Beijo à Telma, tabefe no mangusso -
uma sem karta

sábado, janeiro 28, 2006 2:11:00 da tarde  
Blogger ELCAlmeida said...

Ó Carlos, pelos vistos a Telma ficou com ciúmes da poesia de Ana Mafalda Leite. Canta-lhe uma das poesias dela com calma e doçura e vais ver que a Telma volta a ser a tua melhor aliada.
Um abraço
Eugénio

sábado, janeiro 28, 2006 5:54:00 da tarde  
Blogger Carlos Gil said...

Hoje a pita continua com os azeites; felizmente ainda não vendi o Mulliner, e é o que me safa... Será o motor de arranque - mais uma humilhação para mim que, mangusso-mor que me arvoro, nem a uma pindérica como a Telma avivo o motor de arranque!

Kamikase: "chóvar" é empurrar um carro, no coloquial changane do sul de Moçambique (pelo menos: não se é assim noutros dialectos)

sábado, janeiro 28, 2006 8:41:00 da tarde  
Blogger Ana said...

Só quero dizer que gostei muitíssimo deste post.
Bravo, Bravo ao autor.

domingo, janeiro 29, 2006 1:39:00 da tarde  
Anonymous Anónimo said...

Poixxx...
Afinal a tua Telma é o meu Soldado Rayan....Depois "cumbersamos"....é castigo!!lol...lol

segunda-feira, janeiro 30, 2006 2:26:00 da manhã  

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