Xicuembo (versão 3.0)

memórias & resmungos do Carlos Gil

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terça-feira, maio 17, 2005

Trinta anos de prisão

Este é título do estúpido sonho que alimento quando, como agora, deixo-me submergir nas águas da depressão, mancha sem nome que inunda o quotidiano todos os dias um pouco mais além, o viver social que se incompatibiliza por tudo e, pior, com todos. Uma clausura total e definitiva, um mínimo de falas e de convivências, silêncio, doce silêncio, o mundo a girar ‘lá fora’ sem de mim dar conta e pedir participação. É assim que me sinto e das primeiras vítimas ressalta o blogue, exposição pública e voz alta demais para o silêncio e anonimato da cela desejada. Abro a web página e olho-o com rancor, um inimigo que me acusa pela ausência sem perceber que me leio como se de escrita dum estranho fosse, ele não tem sido “o meu canto” onde me sinto bem. Fora dele também pouco tenho escrito, insignificantes rabiscos em cadernos e que por lá ficam e lá morrerão, linhas nascidos com a grave deficiência da demência hereditária do seu escrevinhador. Nos Grupos MSN idem, fora as aspas duma ou outra réplica a mensagem que mais me toque e apele ao bocado ainda não submerso neste mar lodoso que me encheu o horizonte. Puta de depressão. Conheço-a, é cíclica, há anos que sou seu cliente fiel, temo-a pelos estragos que costuma deixar quando me agarra e tudo relativiza, mas é como uma droga cujo sabor e cheiro atraem para além das juras de largar a dependência. Abraço-a, fetal, e até dela extraio este mimo de mito de felicidade plena que é sonhar com clausuras de trinta anos, alimentado administrativamente ao mínimo pois disso de nada mais careço, obsequiado com o isolamento total, a paz que se promete sublime, fortuna mor. (se terminasse já estava tudo dito e até demais, mas continuo) Iniciei posts de despedida ou de explicação de silêncios, com nenhum me satisfiz e reneguei-os por não serem fiéis ao que (de mim) sinto. Alguns amigos relacionam o meu estado de ânimo com uma qualquer fase stressante pré-parto do livro, e se lhes concedo razão ela não é total pois destes sinais íntimos tenha farta experiência, depressivo militante que sou. É “ela”, anda aqui e eu tenho fascínio pelo seu abraço, masturbo-me em cenários trágicos, suicídios (que exagero, esclareço), vocações eremitas ou prisões de longa duração em que as visitas domingueiras se vão espaçando naturalmente conforme o tempo anda, e ele não pára fora deste umbigo enorme cuja carícia onanista me abstrai da realidade, o inegável quotidiano que quero ausentar-me. Sou um parvo, não um depressivo. Parvo é nome e apelido, minto se lhe chamar doente, deprimido, mistificação de refúgio para encobrir a verdade de nada mais desejar que enrolar-me em mim, devagarinho, só a ouvir-me respirar e ausente do resto que me rodeia, a desejar que o tempo passe sem ele ou alguém dar conta de mim. No resto do tempo qual é o verdadeiro eu, o duplo tagarela-escrevente ou o duplo dos silêncios e (destes) posts depressivos? Cada um tem saudades do outro, o doentio (qual é? qual?) gostava de ser dele sempre ausente e eternamente profícuo, o outro (inverte-se o conceito, são é o da pose fetal) tem o sonho dos tais trinta anos de prisão, abstracção mor do mundo e, confesso-o, demissão de responsabilidades. Chego a admitir voltar às consultas de psiquiatria mas logo penso que daí nada de novo virá para melhor definir esta dualidade. Conheço-me e conheço os sintomas, há que aguentar pois o diagnóstico está de há muito feito, aqui mal sintetizado.
Sabem uma coisa? Virei de folha, três páginas. Escrevi mais e coerente do que há algum tempo não fazia. Soube bem, pelo que avanço com pedido de caneta e caderno para a cela, os trinta anos, encorpar o prisioneiro que sonha com o indulto passando a pena a ceder lugar de desejo a mera ficção de quem esbofeteia fantasmas, contando-os, escrevendo-os. “I will back”, é frase de filme.

3 Comments:

Anonymous Anónimo said...

Eu estremeço e doo-me, talvez por pensar que um amigo é alma da nossa alma. Mas não me fico. Armo-me em doutor com divã portátil. Sabes, Carlos, o que acho que te gasta? É Moçambique, a terrinha, o kanimanbo.E dou receita - vira-te. Descentra-te. Mete escrita ao serviço da pintura dos "cromos ribatejanos", virando-te para nós, sentindo-te nós. E eles e nós merecemos essa escrita derivada a passar ao lado do apelo da terra-útero. Depois o livro sairá na Maternidade, voltarás a Mafalala a espalhar o teu livro pelos seus becos, beijarás a areia depois de arrotares uns pirolitos de Índico, voltando por teres saudade do teu canto de Almeirim. E voltarás com o orgulho de saberes que a Carla anda a impingir o Xicuembo entre colegas e professores porque foi obra do pai e escrita aqui. Porque, sem aqui, não havia porra de Xicuembo, andavas a arrotar latitas na Costa do Sol e não escrevias peva. Não te armes em imbondeiro com raízes de patas no ar. Chega-te, homem, chega-te. Abraço (grande, se me dás licença). João Tunes

terça-feira, maio 17, 2005 5:34:00 da tarde  
Blogger th said...

Porra (desculpem), que até para falar de si, nesta fase, é preciso arte e saber...
Sr. Gil, aquele beijo!
Theodora

terça-feira, maio 17, 2005 8:09:00 da tarde  
Blogger Zé Paulo said...

O João disse e eu cobro; nós merecemos, porra! - e não peço desculpas, Theo - poe as letras para fora, viaja e faz-nos viajar.
E afinal de contas não somos assim tão más pessoas, merecemos a tua companhia, ativo, dividindo, fazendo xicuembos juntos. Um beijo na testa, meu Amigo!

quarta-feira, maio 18, 2005 1:30:00 da manhã  

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