Xicuembo (versão 3.0)

memórias & resmungos do Carlos Gil

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sexta-feira, julho 01, 2005

A gazela e a póia

No alto capim que aguarda a queimada eleva-se um bando de pássaros, as suas asas em torvelinho soando nas ondas de calor que dominam a savana como um súbito restolhar de vida na paisagem. Algo os agitou, e os olhos atentos da gazela fixaram-se na vegetação, os músculos tensos e o corpo tremendo de ansiedade receosa, pronta a estender as suas elegantes pernas num fugir pela vida. No céu o Sol brilha com intensidade e reflecte-se nas águas paradas da lagoa fazendo desta saírem tons de prata que dão ao quadro uma beleza irreal.

Por momentos nada sucede mas os seus ouvidos, treinados geneticamente no adivinhar de perigos mil sob minúsculos disfarces, detectam um subtil movimento das copas do capim, que se agita levemente lá na zona onde a sua mancha recebe a sombra do cajueiro, sob o qual os leões costumas descansar à canícula, vigiando a lagoa e os seus frequentadores. Os olhos tremem, nervosos, e as suas patas dianteiras agitam-se, preparando tracção e acção evasiva, a louca e eterna corrida pela vida. Será uma leoa, com outra acoitada na pradaria esperando interceptar-lhe a figa, a vida? um leopardo, veloz e matreiro? ou um crocodilo residente nas águas que a elas regressa para buscar na sua frescura amaino à inclemência da tarde africana, sensualmente quente nas ondas que pairam sobre o capim e fazem este agitar-se mais que na realidade, aos seus olhos receosos?

No silêncio que paira, já as aves se elevaram no azul rumo a segredos que só elas conhecem, nasce de repente um ruído que se lhe torna ensurdecedor e a gazela corre, corre desalmadamente na evasão ao perigo eminente e que os seus olhos periféricos tentam lobrigar enquanto em graciosos saltos penetra nas lonjuras opostas. Não há dúvida, um animal de grande porte investe por entre o capim alto, deixando ver o seu trilho estender-se como uivo ameaçador na sua direcção. E o som, como que um ronco de um rinoceronte enfurecido, como que o urro de desespero da fera que corre no encalço da presa - ela! que lhe foge e escapa às suas garras famintas!... corre gazela, corre, salta como nunca e salva o teu dia, salva a tua vida ao destino cruel da selva!

Momentos depois, os olhos incrédulos dum crocodilo que dormita com o corpo mergulhado nas águas verdes vêm o vulto emergir da vegetação, um humano estranhamente vestido e mais estranhamente afogueado, o que chamam de batina erguida pela cintura, as alvas pernas e as nádegas pudentas expostas aos brilhos impiedosos do sol da tarde que corre dengosamente no firmamento, a calva coberta de suores e a cara em traços de pânico, que, num ápice, mergulha nas águas paradas tentando livrar-se do gang de formigas que lhe cobre o rabo, surpreendido que foi na casta execução duma regimental póia por um exército de térmitas esfomeadas que, de carnes tão brancas e nutridas, faziam privado banquete. Aqui, a gazela travou a longa marcha da liberdade e deixou-se cair na sombra da velha árvore, esmagada pelo riso que as quizumbas soltavam à cena, e, ora, ao seu tenro pescoço.

África é cruel, seja para gazelas seja para padres a obrar.

2 Comments:

Blogger th said...

Não consigo evitar...a imagem que vejo e a cores é do Frei, de saias à cabeça, alvas carnes, entrando em águas curativas de térmitas mordidelas...lol

sexta-feira, julho 01, 2005 1:24:00 da manhã  
Anonymous Anónimo said...

Já não se pode obrar em paz...não escrevo mais pq só me lembro de disparates parecido a este: também o que eles fazem é mesmo para obrar.....
mlh

segunda-feira, julho 04, 2005 12:27:00 da tarde  

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