Xicuembo (versão 3.0)

memórias & resmungos do Carlos Gil

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quarta-feira, setembro 21, 2005

O colonialismo português

"... Passámos séculos a fugirmos da míngua daqui para enriquecermos lá. Parámos os africanos, reduzindo-os ao nível da brutalidade máxima. Andámos com eles metidos nos porões negreiros a vendê-los para fazer a Europa e as Américas. Espetámos nas suas terras paus com a nossa bandeira. Fornicámos que nos fartámos, espalhando mestiços. Gozámos privilégios de brancos de que guardamos as saudades das praias, dos liceus, dos clubes brancos, dos cinemas para brancos, dos passeios para brancos, das pastelarias para brancos, das avenidas largas e compridas, do calor húmido que esquenta o sangue, dos bailes com corpos colados, do pôr-do-sol, das zebras, dos rinocerontes, dos imbondeiros, das acácias, dos jacarandás, da bolanha, das bajudas, dos régulos e cipaios patuscos, do artesanato, dos jacarés, das ostras e camarões, esquecendo sempre os pretos na terra dos pretos ou olhando-os de dentro de quartéis ou de cima para baixo num encontro de rua ou na contratação de criadagem. Nas poucas escolas, obrigámos a que eles decorassem os nomes dos rios portugueses, das nossas montanhas e dos nossos caminhos-de-ferro mas nunca deixámos que eles dominassem a língua dos seus avós. Respondemos com metralha quando eles nos gritaram que todo o domínio tem prazo. Fomos sádicos, matando-os sob pretexto que eles eram portugueses do Portugal do Minho a Timor. Em vez de arados e livros, oferecemos crucifixos, balas de G3 e “aldeias reordenadas” para melhor os termos debaixo de olho. Deixámo-los, enfim, constituírem-se em autónomos com países feitos em merda, sem quadros, elites ou classes médias. Continuamos a chorar os bens “espoliados”, os “crimes da descolonização”, a abastança perdida, os quartéis abandonados, as estradas esburacadas, a bandeira arreada, mais o preço que pagámos para se amealhar um punhado de “cruzes de guerra” e de “torres e espada” através de tantos corpos e almas de brancos fardados que foram para o galheiro..."
Obrigado João. Nunca é demais repeti-lo, e tu faze-lo sem papas na língua ou na caneta.

9 Comments:

Blogger th said...

Esqueceste:
Mas não conseguimos apagar os olhos das crianças que nos acusam através de risos.
A que está atenta, mas nada sabe, sabendo, e que mais sábia se sente mais triste...th

quarta-feira, setembro 21, 2005 10:51:00 da tarde  
Blogger Carlos Gil said...

Eu preciso responder a este comentário, aproveitá-lo para contar. Theo, João, acreditem-me. Estou a usar palavras fortes quando digo que a frase esteve lá e suprimi-a. Houve algo que me fez suprimi-la, dividi, pelo que senti: isolei por defesa, de tanto, tantos e de mim. Ser-se um gajo porreiro mas fazer parte do sistema, aos meus olhos hoje desagrada-me, não me chega e acho curto se não se fizer algo efectivo para mudar, e aí eu começo a censurar o que acho de comportamento público insuficiente, reprovo e pouco o disfarço; e, na altura... sei lá eu de mim. Sei o que era: um gajo’ normal’ – à época, circunstância, etc –mais um que vivia na multidão... Não sei se nela me refugiava, pois nunca me senti ameaçado; eu gostei de’lá’, e ‘então’. Aqui neste então é que está o problema, e como primeira defesa vem logo o primeiro argumento de que o meu viver era igual ao do vizinho do lado, cada um com as suas manias, e acrescem as parvoeiras típicas à idade. Mas não lido bem com uma situação de ‘ter sido e não ter sido’, e eu fui colono e também retornado. Ora, há atitudes naturais de grupo, - e sabe-se que se puxa mais para os vícios que para as qualidades, atmbém aliço, - e estatisticamente faz-se parte dum grupo com este nome ou aquele, a quem, percentualmente, se dá características disto e daquilo, rotula e diz se somos dos maus e dos bons, in extremis. É matrícula e interrogo-me sobre se está solta ou aparafusada. Como grupo, claro. Mas foi em grupo, comportamento de grupo, que o colonialismo se implantou de tal forma que, hoje e trinta anos depois, ainda raspa os desejos que se farta, mesmo àquels que nunca o conheceram mas encantam-se com a sua versão tropicalmente cor-de-rosa, assim a puxar para a putice de estar a espreitar maneira de ver outros a pagar a puta da crise que arranjamos.
Mas voltando ao ‘lá’ e ao ‘então’, a segunda defesa foi a barreira moral que sabia que dificilmente alguma vez ultrapassara – isto agora já é o ‘pessoal’, dos ‘grupos’ e meu valor estatístico já falamos. Posso ter sido um cabrão como os outros, há quadros a mais onde ‘eu’ contribuí para gráficos, se olhar bem verei as partes onde estou com a matrícula colada aos gráficos. Fodi-as e paguei mal, em afecto e em dinheiro, quando deste se tratava que era quase sempre – ó pra mim, putanheiro militante..., e quando chegava a altura dos insultos muito provavelmente o primeiro não era ‘filho-da-puta’ mas sim ‘preto do caralho’. Fui colono e fui retornado, duas matrículas pois de de dois grupos, e pequenos e grandes comportamento de grupo é inevitável que terão havido, e por isso separei as crianças
E lá me arrisco a dizer que sei porquê: está escrito, foi agora escrito. Fui colono e fui retornado, naessas estatísticas eu não estou de lado, muito menos de fora. Foi aí que algo me ‘bateu’, e separei instintivamente as crianças do ‘mea culpa’ que me calhou ao ler o texto do João. Mesmo que no relativo de ‘grupo’, há sempre tanta interrogação sobre a verdadeira extensão da passividade para se ganhar má fama, e justificadíssima.

quinta-feira, setembro 22, 2005 1:36:00 da manhã  
Blogger th said...

Como eu gostaria que os Homens de amanhã, de quem hoje são os olhos das crianças, vissem o quão sangrou o teu coração ao escrever as palavras da tua como que confissão, que não é tardia porque se está sempre a tempo de se ser justo, até porque "ao" tempo e "lá" era difícil, senão impossível fazer "futurologias", principalmente na idade em que é obrigatório viver o presente.
Só espero que o teu "desabafo" tenha sido depurador e possas um dia olhar os olhos das crianças, daquelas crianças, e sorrir em Paz...um beijo de quem agora vê porque razão e sem saber porquê é tua Amiga, theodora

quinta-feira, setembro 22, 2005 3:21:00 da manhã  
Anonymous Anónimo said...

Bons tempos, isso sim. Bons tempos...
Que saiba, todos Vocês são brancos e todos falam com muito saudosismo da Vossa África e dos Vossos pretos.
Ou muito me engano ou parece que Vocês também foram colonialistas.

quinta-feira, setembro 22, 2005 1:34:00 da tarde  
Anonymous João Pedro Lima said...

Esse Tunes e o C. Gil estao em Moçambique? Plo estilo parecem daqueles que peidam num sítio e fogem para outro. Povinho mais pobre de espirito.

JPLima

quinta-feira, setembro 22, 2005 4:08:00 da tarde  
Blogger Carlos Gil said...

Ainda estive para responder 'à letra'. Mas sou bruto, eu conheço-me. Assim faço-o em privado para os que, identificados, tiverem dúvidas de interpretação ao que disse, e também àquilo que agora me travei de escrever. Para: carlos_gil@infolara.com

quinta-feira, setembro 22, 2005 9:22:00 da tarde  
Anonymous Anónimo said...

Calma, Carlos. Olha, eu às ratazanas de sarjeta quando aparecem sem mostrar o focinho, apago-as. E nem lhes dou o direito a que me irritem. Adiante. Quanto ao teu "esclarecimento", digo-te que se te "fez bem o desabafo", o meu post, só por isso, valeu a pena. Mas, sabes, sobre isso tenho uma posição muito clara - desde que não se tenham as mãos sujas com sangue (e há quem as tenha - ex-pides, torcionários, agressores, etc), a vida foi história e circunstâncias. Só não há é que virar a história de patas para o ar. E conheço-te o suficiente para saber que só foste "colono" na medida em que foste "puto". E que tens uma dignidade comprovada na forma como teces os teus laços com essas duas pátrias em que a vida te meteu em vai-e-vem. E por isso mesmo é que não aceito que não metas a frase em que falo das crianças. Tu és daqueles a quem esses risos não ofendem nem provocam. Que mais não fosse, o teu Xicuembo bem merece esses risos. Abraço.

quinta-feira, setembro 22, 2005 10:18:00 da tarde  
Anonymous Anónimo said...

Também eu fui colono, lá nascido, e retornado a terra nunca vista.
Passado estes anos me pergunto quando será que os de lá e os de cá, (pois parece que há herança psicológica)se deixarão de fazer e desculpar no libelo de vitimas e tomam o seu destino na mão e assumem as suas responsabilidades e culpas? O mundo tem muitas realidades. Tantas quantos os seres humanos que nela habitam.

quarta-feira, setembro 28, 2005 2:49:00 da tarde  
Anonymous Anónimo said...

Pois e,esta na moda passarmos o tempo a pedir desculpa do que, na maior parte do tempo nem sequer somos culpados,direi mesmo que nao eramos conscientes,poque nao fomos educados ou simplesmente porque era o que se fazia naquela epoca.
Que teria sido a historia se rebobinasemos o filme e nao tivessem os nossos antepassados,fasse ao mar decidido
partir a descoberta?Nao sei se a sorte desses africanos teria sido mais digna,era o que se fazia nessa epoca e nao nos devemos sentir culpados da mentalidade que
outrora havia.Porque outras barbaridades se faziam e nao por os mais idiotas,por exemplo :A inquisicao,vos parece justa?Hoje falar na pena de morte parece um sacrilegio e era noutros tempos bem natural e alias ainda o e em certas partes du mundo.As barbaridades de uma epoca nao tem o mesmo sentido numa epoca diferente mesmo se as consequencias para as vitimas essa efectivamente e a mesma.
Para concluir direi nao sou culpado do mau colonialismo nem da maneira como certos povos foram tratados,porque simplesmente daqui a alguns seculos alguem podera dizer que certos actos que fazemos hoge seijam considerados barbaridade e nos no dia de hoje nao somos conscientes.

Cumps

terça-feira, dezembro 26, 2006 5:16:00 da tarde  

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