Xicuembo (versão 3.0)

memórias & resmungos do Carlos Gil

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segunda-feira, setembro 19, 2005

Umbigo migratório

Há momentos que quase valem uma vida. Acrescento o quase por respeito aos cinquenta anos em que vivi no limbo onde o fútil é rei, soberano asfixiador de muitas das melhores razões porque vale a pena viver.
Está esquisito o discurso? Adjectivado sem modéstias e prenhe de exagero, do início ao final? Fiquem para ler o resto, por favor.
Primeiro, senti-me útil; segundo, acompanhado; terceiro, realizado e, quarto e final, li nos olhos da minha família mais próxima coisas que não conto mas que vocês adivinharão. Vou tentar…

Fora convidado pelo Jorge Viegas a participar num colóquio num incerto ‘centro comunitário’ da Qtª do Conde, em que o tema a debate seria “Migrações”... ‘- O quê? e em que é que eu posso, com esse tema, dizer algo que valha a pena? nem penses! – Fala de ti, Gil. É o suficiente, fala da tua experiência”.

E pronto, passado o tempo dos resmungos abandonei-os e dei-me ao trabalho, e escrevi sobre a minha visão pessoal dessa palavra tão grande e simultaneamente tão pequena como é a ‘migrações’, quando se a conhece na primeira pessoa. A final do post deixo o teor integral dessa intervenção, alinhavado com valiosa ajuda desta pitinha aqui.

Os órgãos de comunicação social gostam de citar os políticos quando eles falam em ‘temas fracturantes na sociedade’, o debate sobre o aborto, o dos direitos de algumas minorias, etc, e até me lembro de certo verão em que, por mais bimbo que hoje o pareça, a discussão sobre a utilização do preservativo no sexo 'one night stand' alcançou o tal patamar dos tropeções éticos e engasgos de vozes públicas, o de ‘tema fracturante da sociedade’.
Neste hoje, em que nos afogamos com arrastões e outro peixe miúdo que mais não arrastam que sentimentos xenófobos e racistas para a crosta da sociedade, as migrações são um dos tais, dos fracturantes. Pois se até o Vice-rei Bobo, D. Jardim, sobre ele se debruça e cospe os seus perdigotos...
É-o porque a integração dos imigrados é uma miragem e negar os problemas que existem, pela sua ausência nascidos, é pôr a tal peneira a tapar uma luz que ninguém pode ousar dizer que está tão baça que não a vê. Terá acontecido o mesmo com os ‘nossos’ tios e seus filhos, na França dos anos 60’s e seguintes? Eles ou seus filhos, representaram um problema social de integração nas sociedades de acolhimento, foram ‘fracturantes’? actualmente, já muito para além do hexágono, também numa Suiça, Alemanha, Grã-Bretanha, outro país qualquer pois continuamos fervorosos da (nossa) emigração proporcionalmente à aversão que demonstramos à imigração (dos outros)?
Até na ex-África colonial lusa, onde, pelo que ouço, a maioria dos nossos emigrantes - lá imigrantes de luxo se comparados com os que cá temos, vivem entre si em condomínio fechado, soberbamente à margem das sociedades e cultura locais, e sem procurarem uma integração que vá mais além do recriar e reviver do velho fausto colonial, modernizadamente encoberto, protegido das novas elites pois é fonte de negócios e negociatas e ponte para com a ex-metrópole que ora exerce fascínios consumistas mil? Migração é mesmo tema fracturante, seja ele visto de que ângulo for...

Recentrando-me no tema e atenta a abordagem proposta, entendi dele falar numa leitura positiva, e felizmente os meus colegas de intervenção pouco oscilaram na mesma opção. Se o mote de falar de mim e das minhas migrações era entendido como viável e até útil, o não ser estrondoso exemplo de sucesso pessoal também não afasta a verdade de não o ser de insucesso ou de problema de integração. E com essa bússola apontando a rumos positivos redigi a minha intervenção, afinal foi assim que todos traçamos passos e redigimos as nossas intervenções.

Antes, houvera o convívio com tantos amigos que já não via há largos meses. O Viegas e a mulher, Arnalda, o Delmar Maia Gonçalves e a mulher, a artista plástica Filipa Gonçalves, o Renato Graça e o Manuel Matsinhe, a Elsa de Noronha e a Paula Ferraz, e um amigo muito especial que leio diariamente mas que muito raramente tenho tido oportunidade para gozar o seu convívio: este, que não perde vez nem meia linha para, exagerando, dar-me mimos que me sabem bem, guloso crónico que sou. E aproveitar para conhecer outros, como a doce Olga Santos que a final do meu ‘discurso’ brindou-me com as suas lágrimas e um beijo, dando-me as palavras mais bonitas de todas ao dizer que encontrara um irmão. Como é possível que eu, campino sem cavalo e saco de saudades eternamente por saciar, não me sinta içado a pedestal de homem válido, de ideias e palavras úteis, se outros que admiro por obra e fama dizem-mo, com lágrimas bonitas em sorrisos que nunca poderei esquecer?

E houve ‘Nora Villar’. Houve a minha irmã, a minha Milly, a outra parte de mim que há meio século luta por libertar de dentro duma ‘vidinha’ o tanto, a tanta ternura, a artista que em si vive quase sempre amordaçada. Soltou-se, como que aproveitando a deixa das migrações falou da sua, expôs a intimidade de tantos anos de silêncio. Foi comovente, especialmente para mim que tanto dela espero e há tanto tempo. Foi-o também para todos pois as palmas não se regatearam, especialmente da moderadora do colóquio, a vereadora da cultura da câmara de Sesimbra e também escritora, Felícia Costa.

Negativo e frustrante foi não ter havido oportunidade para debate com a assistência, pois os oradores foram muitos e o relógio castigou-nos. Ficou portanto um travo de falta, de pouco para o tanto que o tema trás para debate. Outra oportunidade? com certeza, até porque ficou prometido pela edilidade promotora. Eu não faltarei.

Deixo agora o texto integral da minha intervenção. Vale o que vale, vale sinceridade e emoção, únicas armas que tinha e não fiz pejo em usar face às minhas carências em trazer outra valia ao debate.

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“Primeiro devo dizer-vos que de migrações pouco sei além das minhas, algumas foram, e delas passo a contar.

Andava na antiga primeira classe, na Covilhã, quando os meus pais decidiram migrar em perseguição do sonho africano, crendo que a assunção do mito do império nos daria uma vida mais distante da modéstia do dia-a-dia sempre curto. Era a esperança noutro viver.

Há erros que vêm por bem, e por via desta ilusória rota das caravelas eu e minha irmã recebemos o bafo de África, quente, terno e sensual.

Essa foi a minha primeira migração, e por ela cresci como enxerto colonial na frondosa árvore africana.

Quando acreditava que conseguia escalar todos os seus ramos, e no mais alto faria o meu ninho, um dos grandes ciclos da História faleceu de caduco e, no seu ruir que gerou vagas impiedosas ao pormenor humano, eu migrei novamente.

Regressei a este Norte que vi e bebi como gélido, reconstruindo-me nesta pele que então vesti, encasacada em tanto que me era estranho, hostilmente diferente da tropical sedução que abandonara.

Como a idade era outra, e da troca não entendi vantagens que fossem além duma mítica segurança, a minha segunda migração teve dores que ainda hoje me murmuram saudades doutro que fui.

Cresce-se, acasala-se, ambienta-se. Nas dúvidas inventam-se certezas. No amadurecer descobrem-se seivas que ajudam a sorver o quotidiano.

Do bi-migrado constrói-se o integrado; mas quando os dias empalidecem e as noites correm lentas, os olhos encontram na memória cantos e cantares que não morreram.

Da árvore que trepei, sonhando o cimo da sua copa, sobra em silêncio uma lágrima que não a esquece.

Por vezes costumo dizer, a título de desabafo apressado aos que me questionam sobre a minha dualidade de sentimentos – europeu por nascimento e posterior adopção, africano por vivência e paixão, que quem foi beijado por África nunca de tal beijo se esquece.

Eu não fui beijado, foi mais profundo. Fui seduzido em corpo e emoção, e desse amar violento guarda a memória carícias de que não me evado nem emigro, é tão envolvente como o é uma paixão.

E que se vive no remanso do silêncio, até um dia…

Quando pensava que o ciclo estava completo, e as cãs induziam a um manso Outono, nasceu a terceira migração.

Evadi-me ao quotidiano, despi-me de mantas e de anos e renasci noutro, sendo que dele não houvera prévia noção.

Pela palavra reconstruí-me e nela encontrei novo abrigo, viajei dentro de mim e saltitei feliz na sua construção. Migrei para um mundo novo onde a árvore é tão bela e tão frondosa, que leio-me incapaz de dela colher todos os seus encantos. Sonhei-me ‘escritor’ e consegui alcançar o ramo de ‘autor’.

Este é o meu terceiro país, de todos o passaporte que beijo com mais calor, pois nele coexistem os outros e todos os mais que eu queira, reais ou imaginários.

É finalmente a árvore cuja sombra me dá descanso, são as folhas que me cobrem e afagam os frios da vida, os frutos que alimentam o já premente empalidecer.

É este o meu mundo. Migrei para a palavra e nela leio a minha nacionalidade, nela recrio e releio todas as outras do passado. Migrando pela vida, construí a minha realidade.

Entre outros significados, o dicionário aponta à palavra ‘migração’ o de: “viagem de dois sentidos, feita por certos animais em épocas periódicas e regulares”. Acho que cumpri a definição.

Sem deixar para trás traições ou desamores, completei o círculo e por acidente histórico regressei à minha terra de origem, de onde migrara no tempo dos calções e dos joelhos esfolados. Finalmente, em construção escrita tracei passos e estendi carícias, nos seios da escrita alimento o respirar do ocaso.

Parecerá soberba, mas atrevo-me a dizer que pelas migrações realizei-me, e hoje e por elas reclamo lugar ao meu sorrir.

Termino com uma dúvida: vivemos nas ilusões que criamos ou, migrando nelas, recriamos o viver? ao encontro da nossa própria sombra, da nossa árvore?"

4 Comments:

Blogger th said...

E assim temos um homem com dois cordões umbilicais e a "produzir" o terceiro... e ainda fica admirado, humildemente, dos elogios merecidos dos que o sabem apreciar, que são todos os que o lêem. Um beijo da admiradora primeira, th

segunda-feira, setembro 19, 2005 4:39:00 da tarde  
Blogger IO said...

É o Homem que tenho que cumprimentar, concluí, ao ler este(s) texto(s), porque é ele que sente, senão tamanha Escrita não era possível. Um abraço do teu tamanho, Gil!! - muf', maravilhada.

segunda-feira, setembro 19, 2005 6:59:00 da tarde  
Blogger Luh said...

Com tantos elogios ainda pensa que é verdade...
E é verdade verdadinha... Que bom seres meu amigo...

terça-feira, setembro 20, 2005 1:43:00 da manhã  
Blogger Zé Paulo said...

Carlos,
Os teus sentimentos, registrados em letras, são tão bem tratadas...as letras ou ou os sentimentos?...que algo que para alguns poderia doer, fica tão bom de sentir!

terça-feira, setembro 20, 2005 2:18:00 da manhã  

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