Xicuembo (versão 3.0)

memórias & resmungos do Carlos Gil

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domingo, dezembro 25, 2005

Conto da época - II - Maria

Maria

Era uma vez José e ia Dezembro já longo quando o impossível aconteceu. Naquela manhã em que o negócio era sempre o mais tentador, em que a última das últimas horas leva os esquecimentos a comprarem o que haja para saciar natais atrasados e sonhos reclamantes, José não apareceu. O canto esquerdo do portão do parque do hospital estava abandonado, nu, não havia José e as pessoas estranharam a falta do olá senhor José, olá menina, olá senhor doutor.

Se muitos o estranharam e até foi comentado nos corredores e nas pausas para um cigarro e um café, se houve até quem alvitrasse – injustificadamente, adianta-se desde já – que o senhor José poderia ter ficado doente e até, quem sabe, internado naquele mesmo hospital, a crise da sua ausência soou-se eram cerca das onze da manhã.

Maria vinha semanalmente com o filho à consulta. Nada de grave, acreditava, pese o ar preocupado com que o senhor doutor olhava os olhos amarelos do miúdo, a minúcia com que lia os relatórios das análises. O puto parecia-lhe normal, talvez um pouco magro mas também nunca fora criança gulosa, coisa que faz engordar os meninos mais abonados em dedos sujos de chocolates. Que ele não era, e se não se queixava os seus olhos não enganavam quando fugia à mão da mãe e corriam pelo passeio, brilhantes de excitação, até ao carrinho do senhor José para as bolachas e os chupa-chupas, mão cheia de dedos bons, bons de sujos de castanhas e chocolates.

Semanalmente era assim, às quartas-feiras. Era a sua rotina à chegada, a usança do puto a correr e José sorrir-lhe
- olá Senhor, olá!
- olá Menino, sabia que ias aparecer! bom dia dona Maria não ralhe ao miúdo que ele não incomoda nada!
- como está senhor José, o senhor é um santo, o santo das bolachas e das castanhas!

E riam-se, riam-se todos incluindo o miúdo magro que vinha às quartas-feiras à consulta na mira do chocolate enrolado numa prata bonita ou do pacotinho de castanhas quentinhas. Era o seu placebo e as minuciosas análises não o indicavam mas o coração de Maria conhecia-o. Nas longas esperas pela consulta nos corredores do hospital o miúdo nem parecia doente e tagarelava interminavelmente, os dedos magros agitando a bolacha, lambendo-se no chocolate que se lhes agarrava. Até o médico se surpreendia com a sua vitalidade, quando as sobrancelhas se lhe arqueavam ao ler os novos números que trazia o envelope. Maria sorria, ela sabia.

Nessa manhã ele fez como sempre e ainda não tinham chegado ao passeio e já largava a mão da mãe e corria, corria para o sítio do carrinho do seu amigo, senhor José. Quando chegou ao passeio estacou, imóvel, um pé ainda no alcatrão. Nada. Vazio. Houve um borbulhar de maus presságios nos peitos de quem viu. Quem viu o miúdo estático, a boca aberta donde não saía nem palavra nem gemido, nem ronco nem murmúrio.

O frio da manhã geou o grito de Maria e guardou-o no peito. Estugou o passo, a mão estendida, protectora, como que para amparar um desfalecimento. Também imobilizada no aguardar e sentindo o frio da manhã tentando-a. E o vazio que a todos contemplava, enorme, a asfixia que a ausência deixava. O miúdo estava imóvel, o corpo franzino tremendo na ganga que se abandonava em solidões no passeio vazio, no bolso um envelope.

Adivinhava-lhe o sofrer e, sentindo um aperto no peito, Maria desfaleceu, deslizou na angústia e mergulhou no vazio, a mão estendida ao nada.

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