Xicuembo (versão 3.0)

memórias & resmungos do Carlos Gil

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quinta-feira, julho 14, 2005

Está um calor do caraças!

O vento gélido infiltra-se nos menores recantos e, no horizonte, a névoa persistente não permite ver os cumes gelados dos picos do glaciar de que, sabem-no, já estão próximos. Tinham saído da base de Ryijkaard há umas três horas, quando a eterna luz do céu nocturno clareara mais um pouco e o Sol timidamente crescera para além da mancha vermelha raiada que acompanhava os dormires árcticos.
Os cães, ainda ofegantes, repousavam ao lado dos trenós, libertos dos arreios, as línguas suspensas na alvura dos pêlos dos focinhos, os olhos também alvos sempre atentos a todos os movimentos. Embora já estivessem na base desde Março o frio do exterior ainda os incomodava e disso era o melhor exemplo Frankie. Aninhado contra o grosso volume da bagagem que enchia a parte traseira do trenó, nem o grosso casaco de peles ocultava que tremia violentamente com o vento cortante que penetrava agulhas de gelo em todos os menores recantos. Giselle levantou-se após trocar um olhar mudo com Gene e aproximou-se dele, o pequeno corpo curvado para melhor progredir contra a inclemência do vento polar. Dois dos cães olham-na, atentos, com a curiosidade de tudo e de nada de quem se habituou a viver em paisagens onde um vulto é um acontecimento, e onde os seus latidos, cavos e profundos, soam como homenagem orquestral quando a monotonia do branco da paisagem cede lugar a qualquer facto que a quebre, seja uma foca perdida, uma ave que voa no seu norte procurando rumos, ou um estranho humano que caminha enterrando as grossa botas no manto fino de neve.
Bem perto dali, numa colina que os deslizes da placa de gelo formara e assim subsistia até os deuses arrumarem de novo a sua enseada, os olhos do estranho acoitado brilhavam enquanto ele, também, seguia o vulto que se deslocava com custo. Nem a distância nem a névoa ou o vento que fazia voarem pequenos flocos de neve, ocultavam que, sob a espessa manta protectora de peles e vestimentas o vulto que arrojadamente se desabrigara era um vulto feminino. Havia algo especial nas mulheres, no seu caminhar e nos seus pequenos pormenores, que nenhuma capa escondia e ele disso era entendido. A sua mão crispou-se em volta do gasto livro de capa negra, e foi com um esgar tresloucado que emergiu da sua protecção e para ela correu, a batina erguida pela cintura revelando umas pernas escanzeladas, as sandálias voando sobre o gelo e a neve, a alva careca brilhando ao Sol que assomava fazendo-a soltar um fino rego de suores, enquanto da sua boca troou um grito que assustou cães e gentes, fez um urso polar que olhava ociosamente um bando de focas fugir como se um mamute o perseguisse, e naquelas terras gélidas soou, bem alto, um "orare! orare mucho!" que fez Giselle ajoelhar-se de imediato e logo ali foi confessada, tendo cumprido penitência num iglô que dizia "rooms - chambers - zimmers".

1 Comments:

Blogger th said...

Não haveria coisa que mais me divertiria do que ver o Frei de "saias" (batina)à cabeça à caça de pitinha ágil e gargalhando, porque só dá vontade de rir, um fradeco a patinar no glaciar, vermelho de humores quentes...lol
Uma que foge dele como devedor ao fisco...

quinta-feira, julho 14, 2005 11:49:00 da tarde  

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