Xicuembo (versão 3.0)

memórias & resmungos do Carlos Gil

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quinta-feira, setembro 29, 2005

Mais um início, sem tema ou título....

O Manel vende cintos por atacado, grossista, mais todos os anexos que vão de pastas bem catitas a agendas e carteiras. E têm dois preços: da ‘marroquinaria’ chinesa e tentativas de concorrência, materiais banais que se disfarçam a olho menos treinado por pele de boi sem ter de ajudar a pagá-lo, até à da vaca mais fina da manada, havendo peças tão lindas que quase se vêm as tetas da dita, olaré. Estes são os cintos e as malas carotas, claro.

Da última geração de free-lancers do comércio tradicional, tem clientes de vinte anos em quem, na distância das colecções sazonais, olha-se a calvície e sabe-se do casamento de filhos, mais o que conta a factura que encolhe e se vêm os ombros descaídos sempre que abre mais um centro comercial. Ou é um sucesso que dura e lá foram ficam todos tramados, ou um fracasso com ameaça de debandada geral que os leva a pagar ridicularias pela renda, só para o cc não fechar. Tornando-se subitamente competitivos para passarem metade do ano em saldos e afins, e tramando novamente o lojista tradicional que não tenha acompanhado com atenção e caldos de galinha o calendário. Mas outros vão aparecendo, os grandes também precisam de nichos de compras aos pequeninos, a facturação lá se vai aguentando, e o Manel resmunga, resmunga, mas já é mais por feitio. Fazer trocas de cromos com ele, deverá ter sido uma aflição.

O Manel vive na paranóia do montinho de cheques pré-datados dos clientes, enclipados, que tem num cofre ao lado da caixa com as mortalhas, o maço de cigarros e o canivete, mais o resto. Embora garanta que nenhum deles tem cobertura, não é raro vê-lo a folheá-los com ar sonhador misturado com afirmações convincentes como: ‘eu amanhã vou telefonar a esta gaja’.

Foi o que fez na manhã de quarta-feira. Nessa tarde, o seu olhar cumpria mecanicamente o asfalto e seus sinais, mas quem lesse os seus olhos lia tumultos de emoções. A fase das contas já passara e dela guardava a memória a necessidade de amortizar custos da viagem com a visita a outros clientes da região que agendara à pressa, mas agora saboreava todos os pedaços das palavras trocadas, sugava-as uma a uma para lhes extrair todo o significado e razão de ser daquela afogueação que lhe deram. Só agora ia serenando, as rodas rolando meio país ao serviço duma dúvida.

Mas da pressa e das suas improvisações depressa houve registo, pois lembrara-se na estação de serviço da auto-estrada e ao passar os olhos pelos jornais e revistas, que não trouxera as amostras da nova linha de cintos de golfe, e nas malas que carregara à pressa e sem fazer inventário de conteúdo que confirmasse a memória, estava o mesmo mostruário que apresentara em Março. Paciência, teria de ser por catálogo, mas ele era da velha escola em que havia prazer - e orgulho até! em passar os dedos pela pele, carícia que era meia venda feita caso o lojista fosse no embalo desta declaração de amor.
Eram ainda cinco horas quando estacionou. A tarde de fim de verão era daquelas que promete esplanadas cheias à brisa que vem do mar, ameno afago para quem saiu da canícula de mais um ano seco. Tinham combinado que passaria pela loja quase ao fecho, primeiro jantar e lá é que iam falar. As malas ficavam no pequeno armazém de fundos, e amanhã era o primeiro cliente a ser visitado. Mas nessa noite, e sob o pretexto da conversa calma que deveriam ter sobre a renegociação dos três cheques dela que lá tinha ‘pendurados’, pretendia ouvir novamente a frase que lhe disparara memórias, destapando registos que o tempo arquivara em mais de duas décadas ao serviço da elegância das cinturas a preços acessíveis.

As conversas são como as cerejas e algumas são como o ananás: tem de se lhe tirar mesmo a casca senão não se morde nada. Antes de alongar a conversa para cheques e atrasos há que saber como vão as coisas, pois que vai mal todos sabemos mas há sempre umas luzinhas especiais de que só os comerciantes têm visão, e são todos uns irredutíveis curiosos sobre a cor que os olhos dos colegas delas vêem. Talvez uma variante ao exercício de mal dizer governamental, talvez apenas a versão comercial do snif-snif pelo dinheiro. Foi nesse período de cortesias e periscópios que o nome foi pronunciado, como novidade da terra que se conta a turista curioso para lhe dizer ‘que bem que vamos, ainda para mais agora que...’

O Manel era forte em contas, elogio que recebia há anos no Banco, e que lhe servia de argumento quando oferecia a promoção mais incrível que lhe passara por mãos em tantos anos daquela vida, ou quando executava num ápice contas mentais de descontos, como ele dizia: ‘à Manel, à tonto’; tão sedutores como a linha de cintos com argolas na moda feminina para o próximo Inverno. Por tão bem oleado estar, quando as palavras ergueram em brusco o pano que tapava o recanto, do passado vieram imagens, imagens que tinham números e estes rapidamente se materializaram, com conversão a euro e, até, ligeira correcção monetária que não deveria sentir-se muito afastada da real.

Fora no tempo em que vivia com a Ana, já nos últimos suspiros duma relação gasta mas que as muitas viagens que fazia nas vendas iam aguentado, a um desgaste que tinha sempre escape certo nos próximos dias, quando a pressão aumentava. Nos meses de apresentação das novas colecções sazonais, chegava a passar mais noites em pensões baratas ou em camas improvisadas em casa de amigos, que no remanso do lar. Era muito mais novo e essa vida nem lhe desagradava nem, então, o cansava. Não fora no Verão, fora antes, talvez em Abril. Na altura vendiam-se bem eram as imitações de Lacoste feitas no norte e com fivelas já então vindas do extremo-oriente que ora lhe enchia duas malonas de viagem de mostruários e catálogos de tudo e mais alguma coisa. A factura era de quase trezentos contos e muito dela fora em cintos de golfe, que nunca são monos pois envelhecem com mais elegância que os coloridos ou com arabescos, este ano usam-se mais metais mas para o ano talvez já não e, se a mudança é boa para o negócio, em boa verdade se conta que o seu armazém tinha bastos exemplos do que eram sobras da moda e restos de colecções que as novidades mataram. (...)

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