Xicuembo (versão 3.0)

memórias & resmungos do Carlos Gil

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domingo, dezembro 25, 2005

Conta da época - I - José

José


Era uma vez um vendedor de castanhas assadas, de faces luzidias onde pontificava altaneiro um bigode grisalho cujas pontas estava sempre a enrolar viradas para as bochechas, vermelhas e gordas. Podemos chamar-lhe José para simplificar.

Naquela longa época em que não há castanhas, o carrinho de José era reconvertido para a venda de pacotes de bolachas e de rebuçados, lenços de papel, brinquedos de plástico baratos, aquelas miudezas que pouco custam e se vendem em qualquer local onde passem miúdos e graúdos, gulosos ou ranhosos, também à porta do hospital onde José se estacionava fizesse Verão ou Inverno, houvesse ou não castanhas. Aquele lugar, aquele canto no lado esquerdo do portão principal do parque do hospital, era dele. E todos o conheciam, os funcionários de sempre, as visitas a quem doenças para lá peregrinavam os longos tempos dos internamentos, todos se habituaram a ver o carrinho do José sempre no mesmo sítio, ao “olá senhor José” que lhe enchia a cara redonda num sorriso e lhe fazia o bigode orgulhosamente revirar ainda mais as pontas, “olá menino”, “olá senhora doutora”. Olá, olá, José e os passantes reviam-se amenizados na simplicidade duma coisa simples como o afago dum olá, ali naquele canto do portão que delimitava territórios entre o suave marulhar da vida de todos e o revolto das ondas que por vezes a alguns lacrimejam em dor e sofrimento.

Quando chovia José punha um plástico sobre a banca ambulante e recolhia o farto bigode e o anafado corpo num capote de oleado vermelho com capuz, mas nunca abandonava o seu lugar. Era um ícone do hospital que pedia meças de popularidade à escultura cheia de arestas e enigmas artísticos que imódicos inauguracionais deixaram no largo fronteiro à porta principal do edifício. Talvez o fosse porque José parecia ter nascido naquele local com o aparecimento do hospital. Talvez tivesse presenciado o seu princípio, talvez o seu carrinho fosse alínea do caderno de encargos de quem o construíu, quem sabe não terá visto a primeira ambulância ululante lá entrar com a inicial urgência, involuntário princípio dum corrupio que se alongou no diário; e por ele passado o primeiro bebé lá nascido, envolto nas mantas-dedos ternos de avós, nos braços orgulhosos dum pai. José era conhecido de todos e entendia-se que a todos conhecia, os passos e os nomes, até os humores daqueles que diariamente lhe passavam em frente ao carrinho, olá senhor José, olá hoje bolachas, olá amanhã castanhas, noutras fosse o que fosse pois a sua presença era de permanências indiferentes às voláteis estações, às amenidades e os rigores, aos frios e aos calores. Era José, era todos os dias o olá do senhor José.

Dele ninguém conhecia privacidades, como se a sua vida fosse única, nascendo e morrendo ali à porta do portão principal do hospital, sem vácuos ou segredos. Donde era e onde morava, ou sequer se morava noutro sítio que não aquele seu canto, lado esquerdo do portão principal do hospital. Se tinha uma Maria que o acarinhava ou lhe ralhava, se haviam filhos ou netos que se sentavam nos seus joelhos, gulosos dos pacotes de bolachas e dos aviões em plástico, e de brincar com os seus bigodes enrolando-os em risadas de felicidade que derretem em ternuras os corações dos avós que têm grandes bigodes. Não. Ninguém sabia e confesse-se que também ninguém se indagava. José simplesmente existia ali, era previsível como o dia e a noite, a prata dos seus cabelos casava-se amenizadamente com o edifício onde em tantas janelas assomava a dor e se gritava por esperança, às vezes se debruçava a alegria.

Ao calar da luz e findo o último turno das visitas o carrinho era arrumado com o plástico por cima das delícias, as brasas apagadas quando na altura delas, e ele partia. Numa nuvem de fumo azul e branco, sem dúvida poluente no estridente da vetustez do seu velho motor, mas também sem dúvida encantador pois se não o fosse não deixava aquele rasto mágico até se perder nas lonjuras da avenida. Ninguém sabia se no seu fim virava à esquerda ou à direita, para que lado, bairro, casebre ou palácio José levava o dia findo, embrulhado na nuvem de fumo azul e branco ao encontro da imponderável noite, que braços o aguardavam ou se só existia um vácuo na sua vida até ao dia seguinte, olá senhor José, hoje quero castanhas, amanhã talvez bolachas. Para quê preocuparmo-nos com o inútil, para quê preocuparmos as nossas já cansadas inteligências se José amanhã de manhãzinha estará de novo ali, olá, olá. Olá? Sumia-se no encanto trôpego do velho triciclo de vendedor ambulante, ruidoso e poluente, capaz de fazê-lo evaporar-se com as noites e renascer na aurora do dia – aqui um poeta falaria numa Fénix e coisas assim, mas são coisas que não rimam com as castanhas de José, coisas que o grisalho dos seus altivos bigodes não evoca nem apela, não sendo por isso o seu eriçar menos feliz.

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