Xicuembo (versão 3.0)

memórias & resmungos do Carlos Gil

A minha fotografia
Nome:

carlosgil2006@gmail.com

segunda-feira, agosto 29, 2005

Está-se bem

É invulgar, e por isso vou relatá-lo. E belo e de gerar esperanças, também.
Estou num net-café que também tem a sua secção de livraria, algo pequena mas bem afreguesada em autores. Referi-o à dias atrás, num post que aqui escrevi em hora de silêncio dentro e fora, sendo que hoje só será comparável o pouco trânsito que esta esquina goza nocturnamente.
As mesas estão quase todas ocupadas, incluindo as dos computadores, e tendo eu à minha frente alguém que clica furiosamente no rato; de soslaio vigio sobre o monitor os olhos e as sobrancelhas que não param quietos, agitados. Que verá? um jogo? uma página que não abre e ele insiste aguardando por uma exaustão da máquina? sei lá, vamos mas é ao inusitado...
Há grupos de jovens em várias mesas, os habituais piercings e trajes de moda juvenil urbana mas a maioria usa a mais discreta e convencional, pólos e camisas fora das calças, eles, elas com os umbigos à mostra mostrando bronzeados e adornos. Noutra, um casal que suponho serem namorados arrulha em volta dum chá que acredito ser de paladar exótico, mas doce. Numa mesa mais afastada um solitário está debruçado sobre o telemóvel, imerso numa interminável SMS para alguém. Ouvi contar uma história de uma moça solitária que tinha dois telemóveis: de um mandava mensagens para o outro, na (sua) leitura amenizava a solidão de tanto meio de comunicação que não a ouvia. Será que este não deveria conhecer um dos números de telemóvel dela? vice-versa? uma agenda telefónica para os possuidores de telemóveis duplos que nunca tocam? sei lá, sei lá, ele continua a escrever, eu também.
Nada de original ainda, dirão, e bem. A solidão é o sumo das multidões (à minha frente ele não descansa, ataca, os cliques redobram e os olhos abrem-se ainda mais. vencerá? venceremos? estou solidário, seja o que for)
Só que noutra mesa próxima está um casal e a filha; sei-o pois conheço-os de vista e até o cumprimento quando nos cruzamos, aquele aceno de quem não é íntimo nem parceiro de hobbys mas que se reconhece sem desagrado. Também eles com um bule em cima da mesa, e mais algo. Este é o algo do inédito, pela sua utilização. É que - e embora no ambiente que referi e que induz ao diferente que está no gigantesco mundo que vai para além da televisão e da leitura de jornais desportivos - sobre a mesa está também um livro, um velho livro de bolso com a capa gasta e com os cantos moídos, ao que vejo também com as páginas amarelecidas e de que já curiosamente espreitei o título (Anna Karenina, de Leão Tosltoi). Ele lê-o, vê-se que em voz calma e só por eles audível, claramente direccionado para a miúda que o ouve sem uma atenção especial mas também sem ar de enfado. Está atenta, mas não seduzida. Mas atenta. Por vezes param a leitura, conversam, bebem o chá, julgo até perceber que há trechos comentados, explicados. Retomam a leitura, à minha frente o louco furioso agora copia algo para uma agenda. Um score? o quê, após aquele furioso clicar? o quê, se o outro ainda olha para o telemóvel, silencioso, se eu escrevo o seu silêncio onde só soa Tolstoi com chá, eu à volta das letras no teclado dos outros - que original!..., sobre todos e no silêncio voga um saxofone, lento, sensual, envolvente, sem perturbar pensamentos e mensagens, leituras, o chá e o silêncio.
Afinal eu também uso pierciengs e não o sabia. Está-se bem, assim.

Doce

Como anunciei em post recente, no último sábado tive a apresentação do Xicuembo-livro em Almeirim. Claro que foi especial. Porque cá vivo e é aqui que em todas as esquinas me conhecem, mas sem esta 'roupagem' de escrevinhador. Também porque foi aqui que ele foi escrito.
Mas o momento foi especial porque tive a visita de Amigos Grandes, daqueles construídos via internet e que desses laços virtuais se caminhou sem hesitações para a ligação que não prescinde dos abraços reais que os amigos entre si trocam, do convívio que a amizade reclama. Um deles, no caso uma linda 'uma', foi a Clara a quem entreguei missão dura: a apresentação do livro e do autor. Dura porque sei que a obrigou a trabalho que não é fácil, até pelo pouco tempo que teve para isso. Dura também porque falar da obra dum amigo mantendo uma distância que a amizade não favorece, também não o deverá ser. E tão dura foi esta última inibição, que a Clara cedeu aos favores da amizade e excedeu-se nas palavras. Reconhecido e envergonhado, transcrevo-as pela sua qualidade académica e literária, rogando-vos que deixem um sorriso às suas extensões que a amizade induziu.
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Porque acompanhaste a génese do livro Xicuembo, porque conheces a realidade nele descrita e porque confio no teu sentido crítico, foram as razões apresentadas pelo Carlos Gil, ao honrar-me com o pedido de que fizesse a apresentação do mesmo. Por todos esses motivos, eis-me aqui, com orgulho, de mãos dadas com ele, num momento de suma importância na sua prometedora carreira como escritor.

Começo, portanto, por falar um pouco sobre a forma como o Xicuembo se veio a corporizar:
A semente que deu vida a este livro foi lançada no terreno propiciado pela comunicação via internet, que prodigiosamente gerou encontros, reencontros e restabeleceu hábitos de escrita caídos em desuso, seja em comunidades com interesses comuns, seja em blogues particulares. O Carlos Gil criou um blog que se chama, precisamente, Xicuembo. Passou a ser um local de visita obrigatória para muita gente que navega por esse novo universo comunicacional, pela variedade de textos originais que oferece: sérios, como crítica social e política ou de um humor subtil e refinado que muitas vezes me fez gargalhar.
Foi, portanto, no encontro virtual de pessoas com memórias similares, que o Gil sentiu o à vontade para reconstituir por escrito as suas recordações, revelando uma necessidade premente de lançar um grito contido durante 28 anos como assinala nas palavras finais do livro: Há páginas que só se viram, relendo-as. Desde logo, e à medida que os seus dedos deslizavam no teclado, compondo as ideias que ia expondo regular e publicamente, descobrimos que estávamos na presença de alguém com um particular dom para o manejo da palavra escrita.
As críticas funcionaram como a mola indispensável para que o Carlos se lançasse na vertiginosa aventura da criação literária. Algum Xicuembo o terá abençoado, lançando sortilégios de fascinação pelo recém-descoberto mundo mágico e inesgotável da prosa e da poesia. Renascido, foi com paixão que os seus dedos retomaram a caneta e o inseparável caderninho, ou compuseram sinfonias de palavras enquanto percorriam ligeiros as teclas do computador, descobrindo, assim, um novo sentido para a sua vida.

Porquê este título Xicuembo? Muitos dos presentes desconhecem o significado da expressão. Posso dizer que esta palavra aglutina a multiplicidade de razões, de sentimentos e emoções que levaram à criação deste livro.
Originalmente, tem a ver com o culto dos antepassados entre a maioria da população africana. Cada ser que morre, desprende a sua alma ou parte imaterial, e transforma-se em xicuembo, que tem o poder de interferir junto dos seres viventes de forma benigna ou maligna. Daí, o intenso respeito pelos xicuembo na medida em que produzem encantamentos, magias ou feitiços que afectam os vivos. É esta base, aliada ao respeito pelo saber adquirido com a idade, que origina a veneração aos mais velhos, (algo que, lamentavelmente, se perdeu nas sociedades do chamado mundo desenvolvido de modelo ocidental) pois que mais perto de soltarem o seu espírito para o campo ignoto do transcendente. A expressão foi sendo absorvida e banalizada por todos aqueles que faziam a sua vida em terras moçambicanas e passou a designar tudo o que era insólito ou inexplicável, a feitiçaria ou a magia.
O Carlos Gil, quanto a mim, recebeu um dom: apoderou-se do mais sublime dos segredos de magia, o de, com maestria, compor as palavras.
Por tão bem que o explicou, não posso deixar de citar aqui Guilherme de Melo:

“Xicuembo”, é uma daquelas palavras africanas sem tradução possível no linguarejar europeu. Porque sendo Deus, é feitiço; porque sendo o omnipotente é também mistério que aterra, o segredo que envolve, a praga que se abate, o sonho que embala. O sortilégio que marca.Que outro nome poderia ter este livro, senão este mesmo?

Como leitora assídua penso ter, ou dever ter, a capacidade de avaliar do interesse literário de uma obra, quer no que diz respeito ao seu aspecto formal, quer ao seu conteúdo. Ou se gosta ou não. Neste caso, eu gostei.
Pela minha formação académica, prestei uma particular atenção à base documental que o livro veicula e às reflexões críticas feitas em torno do processo histórico de que o Gil foi testemunha e interveniente, como muitas pessoas que integram as sociedades portuguesa, moçambicana ou que se espalharam pelos quatro cantos do mundo. Mas nem só sobre o passado, o Carlos reflecte aqui. O presente também é objecto de análise quando procura perceber os caminhos trilhados por Moçambique e as razões das dificuldades que atravessa actualmente.

Em termos literários, posso dizer que o Gil tem a arte de saber expressar, através da escrita, as ideias de uma forma fluida e bela, em que as palavras se harmonizam com frescura numa composição de textos deliciosos. As pequenas histórias são narradas com vivacidade e emoção acompanhadas por um cardápio de cores, sabores e cheiros que quem viveu naquele país à beira do Índico reconhece bem. As acácias rubras e os jacarandás são repetidamente recordadas como símbolo de todas as indeléveis marcas que aquela cidade debruada pelo belo Índico fixaram na sua memória, como se foram de fogo. Cito:
...para além das torres e avenidas, das praças e dos jardins, havia aquelas acácias vermelhas, aquele espectáculo de cor que enchia os passeios de florzinhas pequeninas coloridas, tapete de luxo para quem passava – p. 63

Relativamente ao conteúdo, o Carlos Gil, no Xicuembo, revela-nos um mosaico de tempos que vão da sua percepção infantil do mundo ao momento em que envolvido na diáspora lusa, se lança na aventura de sobrevivência em Portugal. É, pois, predominantemente um relato autobiográfico, um baú de memórias, cujo interesse deriva, também, do manancial de informação que contém e que interessa a todos por caracterizar a sociedade num determinado espaço e tempo histórico.
Nos primeiros capítulos emergem histórias engraçadas, bem contadas, que nos levam a recordar as nossas próprias traquinices infantis e adolescentes, os sonhos, a evasão para os misteriosos mundos conseguidos pela imaginação de quem não sentiu ainda a crueza da vida. Lá, como em qualquer parte do mundo, embora a variante das componentes paisagística, climática e social. O Carlos salienta as vantagens proporcionadas pelo meio em que viveu, entre as quais a valorização da comunicação interpessoal que faz estreitar laços de amizade e cito: “porque abençoadamente não havia televisão, essa praga individualizadora que gera autómatos de comportamento e inibe a convivência” (p. 22) Isto funcionou, sem dúvida, como estímulo da criatividade para ocupação de tempos livres como tão bem humoradamente o livro traduz.
São retalhos, nacos de uma vida, acontecidos no contexto de uma realidade colonial, narrados com humor e leveza, que o Carlos Gil entretece com reflexões sérias sobre a verdadeira face desse passado, denunciando as injustiças de um tempo. Descreve as suas vivências no limiar da cidades branca e de caniço, zona em que se entrecruzavam culturas diversas, alertando o leitor para as desigualdades que percepcionava mas que ainda não sabia pôr em causa. Cito: Vivia na Av de Angola, limite do arco-íris do bairro do Alto Maé e já dentro da amálgama encantadoramente desalinhada do bairro da Mafalala. (p.25)
Como ele refere na obra, tal como a maioria das pessoas, ao tempo, olhava de soslaio tais injustiças, embalado pela vertigem das descobertas privadas ou meramente adormecido pela mentalidade da época. Daí, a necessidade deste livro. Por um lado serviu como um processo de catarse, como que uma explosão de relatos e emoções respeitantes a um passado contido e não resolvido. Precisava de sair de vez desse mundo de recordações que lhe nublavam o presente. Por outro lado, 28 anos volvidos, o distanciamento e a preocupação em reflectir sobre o processo que o obrigou a desvincular-se fisicamente das paragens em que foi feliz, deu-lhe o sentido crítico necessário para fazer o seu julgamento, que fez questão de registar nas páginas deste livro.
O Carlos Gil reflecte pois, ao longo do livro, sobre si e sobre uma época, desfiando emoções temperadas com a razão.

É importante assinalar uma característica da obra. O Xicuembo está escrito com o linguarejar corrente em Moçambique da época, em que o tal manto branco se destacava altivamente sobre a imensidão do negro, de acordo com o fenómeno de incorporação espontânea de termos dos dialectos locais, na língua portuguesa falada. (sobre isso, recordo que, nos finais dos anos 60 os manuais do ensino primário deixaram de ser únicos, os vigentes na designada metrópole como em qualquer colónia, e haviam-se adequado à realidade da terra, nomeadamente, a nível das expressões que quotidianamente todos usavam) Quem lá viveu, sabe bem que nunca se apanharia um autocarro mas sim o machimbombo e ninguém tinha hortas, mas machambas. A população branca foi-se apropriando dos mais variados termos que são coerentemente utilizados no discurso e explicados em rodapé pelo autor.

Este livro é uma promessa. É a promessa de que numa qualquer rua em Almeirim vive alguém, de nome Carlos Gil, que constitui uma mais valia para a terra, para o país e para o mundo lusófono. Foi aqui que germinou e cresceu o Xicuembo. Será aqui que novas composições irão nascer, inspiradas decerto por outras vivências e por outro envolvimento ambiental, físico ou social. O Carlos é uma pessoa especialmente atenta relativamente a tudo o que o rodeia, para quem os mais ínfimos pormenores contam. Incorporados no seu imaginário e aliados à grande sensibilidade que possui, constituirão decerto ingredientes para novas criações literárias. E se o digo, é porque sei.

Aproveito, também, para dizer, que textos e poemas seus foram editados no nº 2 dos "Cadernos Moçambicanos Manguana", que já foi publicado em jornais daquele país e que vai colaborar regularmente na revista Tempo.

Em jeito de conclusão, apoiada pela velha máxima: Nada, nem ninguém é capaz de dizer mais sobre um texto literário que o próprio texto, aconselho vivamente a leitura desta primeira obra do Carlos Gil.
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Uma mini reportagem fotográfica e alguns comentários humorados, podem ser vistos e lidos aqui.

sexta-feira, agosto 26, 2005

Uma ideia interessante

E inovadora. O 'voto infantil', via detentores do poder paternal (cheguei lá por aqui).
Interessante intelectualmente, até porque recheada de "pequenos" problemas práticos; a exemplo, e não sendo família monoparental, se houver divisão de cruzes nos 'idosos' se vigorará o "agora escolho eu, na próxima és tu", etc. Se o miúdo/a, sendo ainda menor e duma 'J' qualquer, pode ver a sua neófita fé ideológica traída por pai/mãe que, como é habitual em pai/mãe agalinhados - todos o somos, mais ou menos -, quer moldar o futuro do rebento sob as suas calças e saias. Mais alguns etcs.
Mas que é proposta para fazer pensar em algo diferente, lá isso é. Que não lhe caia o fogo purificador em cima...

terça-feira, agosto 23, 2005

Agora cá

No próximo sábado, dia 27, em Almeirim no já tradiconal "Pão, Vinho & Companhia" o meu livro Xicuembo é apresentado localmente, pois desde Junho que trago comigo este embaraço de ter então secundarizado por razões logísticas a terra onde vivo já há mais de duas décadas, e onde ele foi escrito. É às 21 horas, na tenda de eventos da autarquia.
Desta vez entreguei a sua apresentação a mãos delicadamente femininas, no caso sabedoras como poucas do que nele falo e de como o sinto.

domingo, agosto 21, 2005

Ida ao sapateiro

Tenho de concordar com a maioria das opiniões que soam sobre o descrédito em que caiu o sistema político. Não sou cego nem alienado, reconhecer que as queixas são legítimas é somente o óbvio.

Um parlamento que vive a olhar para ordens de serviço ou para o seu umbigo, e cá fora ‘ninguém’ olha para ele sem ser de lado;
Um governo que se olha com desconfiança, legitimada vezes excessivas e com ciclo permanente;
Uma presidência que ata mais do que desata, indecisa entre os discursos e as visitas protocolares, e a acção política que não pise calos governamentais, partidários;
Partidos políticos desacreditados para além dos seus clubes de fãs, em todos minoritários e até ridículos quando insistem em loar ao sinal dos chefes;
As autarquias, o poder autárquico que deveria ser o mais genuíno e melhor legitimado pela proximidade entre eleitos e eleitores, também é há tempo demais pasto de cumplicidades, arranjinhos, mais ano menos ano os escândalos batem a todas as portas.

Refiro-me ao naipe actual mas também aos predecessores, pois da má prática acumulada e sem férias resultou o descrédito no eleitor, perigosamente eternizado após cada nova (des)ilusão eleitoral. Pergunte-se na rua, no café, no trabalho, e as respostas pouco mudam ao ‘estou farto’ e ao ‘já não acredito’.

E não se vê hipótese séria de mudança no futuro eleitoral que se avizinha. Este modelo parlamentar, por erros próprios, descredibilizou-se perigosamente e qualquer que seja a sua composição com o baralho de cartas em vigor já não ‘vai lá’. Ninguém acredita mais do que o que é politicamente correcto acreditar, vota-se por fidelidade ideológica ao que cada vez mais não é que um sonho. Fazemos cruzes, escolhas, sabendo intimamente que a nossa ressaca também é certa e vem logo a seguir.

Para não se tornar uma crise de regime há que reconhecer que há uma do sistema. E antes que alguém o declare radicalmente finito e avance com soluções individuais, messiânicas, urge agir. Por dentro, sem revoluções e espadeiradas, sem mais opróbrio sobre os bens intencionados mas sem mais tolerância com aqueles que destruíram a fé, de eleição em eleição, de desilusão em desilusão.

Entendo que há que reduzir o peso activo dos partidos políticos. Desmereceram por erros próprios – ia escrever incúria, mas acredito que haja e tenha havido incompetentes bem intencionados e por isso não o faço – e a raiz do descrédito popular aponta sempre na sua direcção. Sabemos que, nisto, a vox populis não está enganada. Os partidos políticos puseram-se a jeito para deles se dizer as cobras e lagartos que se dizem. Todos, sem excepção. As suas direcções mostraram-se incompetentes para os gerir internamente, mostrando depois mau espelho quando eleitos.

E não são casos isolados: no ‘A’ a crise de competências sucede-se sem esperança de inversão, idem no ‘B’, no ‘C’, no alfabeto não há letra que sujeita à prova de governação, passe com mera mácula de pormenor pois todos chumbam e chumbaram em eficiência global. E nem os que da coisa pública estão ausentes podem reclamar excepção, pois por alguma razão de fundo nunca recolhem vontades significativamente maioritárias. Descrédito popular, nuns o instintivo que lhe recusa a cruz, noutros o trauma pós parto parlamentar.

Há uma desilusão popular com o sistema que roça a desilusão com a democracia. Ora isso é perigoso. À esquerda e à direita, nos cantos e nas copas das árvores, suspira-se por sebastianismos e fala-se de capatazes sem cuidar dos perigos que estes providencialismos trazem. Esta é a verdadeira ameaça, que os sessenta e tal por cento que ainda votam não tenham pejo em esquecê-lo se aos ouvidos lhes chegar o apelo errado embrulhado em celofane com bonecada de Messias.

Farto da desilusão partidária, o povo votante poderá ser levado a acreditar num Único que lhe cante músicas e amores, entrecruzado com promessas de rigor e eficiência exemplares. Aparentemente nada que divirja do reclamado ao espectro partidário, mas ameaçador quando desligado da matriz democrática que são as correntes de opinião e os conceitos de sociedade organizados partidariamente, em parlamento.

Ora, a Constituição é manifestamente parlamentar, e é desse modelo que nos queixamos se se filtrarem os lamentos. Qual a minha ideia, afinal?

Que o governo seja de matriz semi-presidencial, que a exemplo de tantas outras democracias o Presidente tenha função activas de governação em determinadas áreas. Hoje e com a caída das siglas no amargo anedotório, há, como atrás explicado, forte tendência para se acreditar numa mensagem individual mais que numa colectiva, partidária, esta afogando-se nas vagas suspeitas do jogo dos clãs internos. A oscilação do decisivo voto do centro é disso exemplo recorrente.

Porém resta a ameaça sebastiânica. Daí o semi, o manter da estrutura orgânica democrática com os partidos na sua génese, sendo as maiorias parlamentares formadas também em função das escolhas presidenciais, e com reflexo prático na praxis governativa. Um Homem que foi eleito directamente tem, se quiser, a independência suficiente para agir sem cuidar dos interesses das siglas. E, caso caia em tentações solitárias, o semi tem força para o chamar à realidade, travá-lo se for o caso.

Transposto para a realidade que nos bate à porta, i.e. as já tão próximas eleições presidenciais, clamarão vozes assustadas que perante a ementa que se alinha será perigoso reforçar poderes a quem for eleito. Discordo. Seja eleito qual deles for não vejo nem receio que a democracia esteja em perigo.

Cavaco teve tiques desagradavelmente autoritários e acabou por se dar mal com eles. Mas, nem então, se poderá dizer com razão que desrespeitou a democracia. E terá aprendido, todos aprendemos com os erros cometidos.

Soares corre para o Olimpo, indeciso se já lá tem lugar guardado ou não. Pensamento esquisito mas não preocupante. Pelo seu passado sabemos que há riscos que ele nem pisa nem deixa pisar.

Assim se a ‘direita’ ganhar a presidência não está a democracia em perigo. Porque, no modelo aventado, o presidencialismo com acção governativa terá de conviver com o outro lado do semi, o governo de Sócrates que provém do voto centro-esquerda.

Caso ganhe a ‘esquerda’ a presidência também não há riscos de abuso democrático, pois por certo o que separa Sócrates de Soares é mais e mais profundo do que o que o separa de Cavaco; no mínimo é equidistante.

Não se dramatizem as derrotas, isto não é futebol.

Se o sistema não mudar os seus defeitos continuarão, haja as mudanças que houver nos actores. Se os sapatos apertam temos de ir ao sapateiro comprar novos, sob pena de ficarmos coxos e em última instância não podermos andar a não ser descalços.

Estas eleições presidenciais, sujeito o seu resultado e acção ao sistema vigente, não aquecerão nem arrefecerão nada para além das vitórias de café, do somar de marcas na coronha que tantas e tantas vezes rapidamente se tornam desconfortáveis.

Até porque, concordando contristado com um certo colunista que faz do fel a sua razão de viver e escreve-o para acinzentar as manhãs, estou em crer que as contas para uma segunda volta são a própria razão de ela, muito provavelmente, não vir a ser necessária para havermos presidente.
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Adenda : o meu caro amigo João Tunes preocupou-se aqui com esta minha divagação teórica. Em excesso, no meu entender. Um pouco atabalhoadamente, lá me expliquei (tentei...) na sua caixa de comentários.

sexta-feira, agosto 19, 2005

Mais do que

Estou a ler o "A louca da casa", de Rosa Montero. Finalmente. Finalmente estou a olhar-me ao espelho, solidário, e, mais importante, sem vergonha de mim, do 'outro' em mim.
Em cada linha - desculpem a arrogância, estou a ler-me, e mais além do conforto de saber-me afinal justificável há esta alegria de conhecer o final à história: ela conseguiu e sobreviveu, porque não eu, a mim?
É de sonhos destes que ela também fala, eu passo os olhos pelas letras dela que a contam e levam-me à ilharga, então descolo e vivo-a como se eu a fosse, eu também sinto e ajo tantas vezes assim.
Quis dizê-lo, para quê escondê-lo se, afinal, da ficção de sonharmo-nos é que nasce o viver, o verdadeiro, o escrito? o resto é muleta, mera munição de tinteiro.

O que é que anda no ar?

Anda tudo moído, anda tudo cansado. Felizmente a blogosfera revitaliza-se a si mesma, em cada leitor novo dum blogue nasce o pensamento do 'e se?...' e novos blogues vão aparecendo, de vez em quando lá vem um que provoca agradável alteração de hábitos de leitura, acompanhamento do que se fala e, de quando em quando de como se inova e se surpreende este hábito que se arrasta, o blogar.
Blogando, vejo que anda tudo moído, nervoso; há retiradas que preocupam e há silêncios que assustam pelo receio de chegar a nossa vez. Em comparação parva é como se vizinhos de há décadas fossem de repente morar para Hula-hula (existirá? acho que já li isto...) ou, um a um, os jornais e revistas habituais acabarem. Blogar, ao fim duns tempos, normaliza-se como acção humana e obecede às mesmas razões que levam a dar-mo-nos bem com um vizinho e mal com outro, ler este jornal e não aquele. Hábitos, que eu sempre achei que se aproximam do conceito de amizade quando estendidos à cabeça atrás do post, sendo sempre a sua natural evolução a confirmação (com raros desmentidos, pois 'leiem-se'') no relacionamento físico, pessoal e sem intermediação do discurso escrito.
Por tudo isto ando preocupado. Porque os meus hábitos de amizade (nem que seja só de leituras, talvez mais de metade das minhas diárias ainda me seja 'anónima' físicamente) estão ameaçados na vertente em que foram construídos pelo desaparecimento on line, o súbito silêncio, e de repente eu também fico em silêncio a pensar 'e quando, eu?' Outros reflectem sobre o mesmo, pois estão constantemente a fechar blogues que se tornaram tradicionais. No meu caso nem a todos ia, dos que mais se tem falado. Mas sabia que existiam e por certo até lá andara a pesquisar e estão tributados aí ao lado, já cá andavam ainda não imaginava como é fácil criar um blogue, e nem suspeitava que blogar fosse tão... absorvente? O fecharem, o calarem-se, o começarem a coçar-se quando se aborda o assunto, tudo me faz pensar que a blogosfera anda moída, há uma transição no ar. Talvez seja fenómeno cíclico e daqui ao seu próprio tempo esta nova geração de bloguistas faça e sinta o mesmo. Mas eu reporto-me a esta, a este momento.
Puxando de novo comparação destranbelhada (é fruta do dia, aguentem) esta morte virtual será parecida com a física. Aqui, onde este mundo existe e nele se criam hábitos e sentem-se emoções, o fecho dum blogue é o silêncio total num canto onde nos habituamos a resmungos ou larachas, conversa da treta ou muito erudita, som, conversa, ideias, gente. E isto dá uma comichão do caraças, dá vontade de fazer um check up pois, também eu/nós, também não nos sentimos lá muito bem...
Até haverá razões decorrentes de alterações na vida pessoal, e novos hábitos que levem a pôr a net numa prateleira somente até nova ocasião; fico na mesma a pensar.... anda tudo moído, tudo cansado, o que é que anda no ar?

quinta-feira, agosto 18, 2005

a vidinha na esquina que morreu

Estou no café, um net-café que tem montras que dão para uma esquina entre uma travessa onde tudo o que é vivo morre com o último rodar de chaves dum comércio que já era defunto antes de mim e dos chineses cá chegarem, a outra rua hesita entre o lá vai um e o lá vai nada que resta quando o dia morre e as televisões incendeiam a vidinha, lá vai um e é dos grandes, ai Jesus coitados dos bombeiros, Deus queira que nenhum se magoe antes da novela. A travessa e a rua, o café e a cidade, se calhar também a net, estão todos a jantar, estão nas novelas, nos telejornais, no ritual do lá vai mais um dia e eu no meu de mais um café, sozinho, eu e o dono do café.

Ele lê o jornal, eu escrevo. Damo-nos bem. Ele sabe que eu escrevo, venho cá muitas vezes e sempre em fuga da solidão que a minha esquina da vidinha me dá, nesta travessa e nesta rua, neste café, não há televisão e assim eu quebro a minha solidão. Ele sabe que eu escrevo pois trago sempre o caderninho comigo. Ao lado dele, da mesa dele, uma estante pejada de livros, lombadas alinhadas e muitas cores, tanta letra - digo eu que ainda não enchi o meu caderninho, mesmo que a esta hora não esteja ninguém nem no café nem na rua nem na minha vidinha, escrevo, olho para os livros e ouço a música suave, lá fora sobre o casario fina-se o dia, ninguém na travessa idem na rua, estão todos a jantar e a saberem as notícias, o pormenor, lá vai um lá vão dois, deixa estar que a seguir vem a novela e - já sabemos! irá acabar tudo bem.

Atrás de mim, lá na privacidade envergonhada do fundo dos cafés onde antes se punham as máquinas de flipper's, há duas mesas com computadores, complemento do net-café, onde daqui a pouco me sentarei e escreverei tudinho, isto tudo, ele já sabe que eu escrevo e não se vai zangar. O que vi e o que imaginei, tudo se mistura, lá fora lá vai um, deve estar atrasado para se sentar à mesa, ou saiu para ir à farmácia, ou simplesmente só saiu ou ainda não chegou. Isto tudo eu conto, se não sei a certeza então imagino, que interessa, o que realmente interessa é este lento lá vai um de escrever, o que vi e o silêncio desta hora em que a minha caneta faz serviços mínimos e cumpre o seu ritual, este escrever no café.

Há música ambiente. Suave, os instrumentos descem até mim e são acariciadores, enlevam-me, ajudam-me a escrever, eu, que de música sou em norma abstémio, quase como se de urticária fosse a afronta e me afectasse a vidinha, até a de escrever, faço-o mais suavemente. Ambiente. Bom ambiente pois não há televisão o que é jóia rara em café, ainda mais nesta esquina em que a vida morreu quase antes de o sol morrer. E não sei das desgraças, nem sequer uns carros aqui passam, parece que o dia escolheu esta esquina de solidão para morrer, pelas largas montras vejo-lhe os últimos fios, luz parca, tão pouca para tanto falecimento, tanta má notícia antes da telenovela, dias que morrem assim no conforto de saber-se que, nas novelas, há-de sempre advir um fim feliz que é o que todos desejamos, é a vidinha. Se não fosse assim quem as veria depois de fogos e assassinatos, mentiras, misérias e luxos, àquelas tememos e estes nunca alcançamos, sabemo-lo, é a vidinha.

Estou só no café. Lá, ao lado da mesa dele, o dono, estão os livros, também sós, alinhados, linhas e linhas que - quem sabe? também terão sido escritas em mesas de café, por certo as mais felizes são antes do dia morrer quando o telejornal e a novela acordam, pré tanto do imediato que empurra as desgraças para os finais felizes que esta esquina, morta, ignora. A vidinha, nós, mesmo antes de mim e dos chineses cá chegarem já tinham morrido um a um, lá vai um rumo a casa e ao jantar, às notícias e ao seu xanax, a novela.

A música embalou-me, soou suavemente e nesta aridez do lá vai um sou um príncipe de escrita ao ter esta solidão, esta esquina, este silêncio para escrever.

Na rua, na vidinha, ninguém. Morreram, um dia di-lo-á no telejornal e os que não moram na esquina do silêncio olharão enquanto jantam, a seguir vem a novela.

quarta-feira, agosto 17, 2005

"Nádegas"

Pertenço a uma minoria. Claro que também tiro senha e junto-me à longa fila dos seus admiradores, não sendo poucas as vezes em que, perante aprumado exemplar, intimamente lhe bato palmas e memorizo em sorriso dissimulado o seu altivo contorno.

É a tal devido que pertenço a uma minoria. Aos que, via mais ginasticado torcer de pescoço para que aos olhos nada escape, e o salivar que faz o ego bater castanholas tenha mais recursos de memória, por tal razão já me aconteceu chocar com um poste, um sinal de trânsito, e nem conto os choques com as pessoas, móveis alvos para a minha embevecida distração. Aposto que nem todos conseguiram tão desastrada pontaria, e da dor da 'cornada' extraio louvor de linhagem minoritária, dos distraídos no apreciar de belos rabos, olé!

Elas têm excesso de tudo o que é belo... verdade primeira. Os olhos e a boca, o cabelo, seios e pernas, até dos seus graciosos lóbulos já me encantei e contei. Mas as suas nádegas, o 'rabo', de entre tantas razões de encantamento sobressaiem como a arma letal no encandear do olhar macho. Há homem que resista em mandar olhar avaliador e interessado a rabo feminino que por ele passe, saltitante, naquele ondular que faz o horizonte além dele submergir em névoa secundária? e - confessem-no! - a quantos já idealizaram maroto beliscão, supra sumo medalhístico que rabo que se preze merece? Eu apreciador me confesso, e revelo que de tais honrarias seria mais pródigo que presidente em dia de feira e de discursos... e só por falta de legitimidade eleitoral é que tanta nádega anónima que me enriquece vistas e sonhos sai delas e deles de mansinho, sem ser devidamente agraciada com ansiosa carícia ou ousado beliscão.

Esta série anatómica é aqui interrompida. Razões de saúde. Pois só por delas, nádegas, escrever, turva-se-me a vista e tremem-me os dedos. E ainda há tantas e tantas por ver e rever que, decididamente, não seja este loar que de tal prazer me prive.

Ámen, Mulheres.

"Lóbulos"

... as palavras saiem ciciadas e, delas, como que enfatizando-as, deslizam sílabas ternurentas enquanto a língua percorre o lóbulo, gulosa dos segredos que lhe conta, àvida do riso do desejo, exigente no lamber do seu contorno, urgente no mordiscar impaciente...

Há uma auréola mágica que rodeia e embala em ternuras os lóbulos que os cabelos escondem, e que mãos firmes afastam num revelar de arca dos segredos, num doce destacar de sussurros em desejo consoados. Os lóbulos femininos são a porta da paixão que embriaga mentes e atiça corpos, no eterno namorar dos contrários que urgem fundir-se para afirmarem a beleza das diferenças. São sexys, belos, doces de provar, e os ouvintes mais atentos das insanes palavras de amor que aqueles que o buscam em si encontram, soltando-as num ciciar enleante, turvo de qualquer sentido onde esteja ausente o verbo amar. Neles a língua humidifica pensamentos e desejos, solta vontades e faz promessas, apaixona-se pelo seu contorno delicado, cartilagem de amor reclamado, erógeno bastião de acesso à embriaguês mais desejada.

Derrapei de novo. E adjectivado em overdose, ainda por cima. Mas que fazer? contido fui em tudo pois a avalanche de pensamentos que os lóbulos me trouxeram foi por bem contida e filtrada, e deles dei a fé mínima para vos contar o que me inspiram. Os adjectivos censurados, esses, guardo-os bem cá dentro para ciciá-los naqueles momentos em que os olhos por eles brilham, a pele húmida estremece, e às palavras em beijo responde em grito corporal um corpo, soletrando com todos os músculos, "vem".

Obrigado por serem tão Belas, Mulheres.

domingo, agosto 14, 2005

de papo p'ró ar

Não é bem assim mas é parecido.

Férias do blogue, férias de net. Poucos dias, e nem é bem no sentido de desintoxicação pois não me queixo de overdose. É mesmo pela sensação de 'férias', aqui também aplicada. E eu mereço.

quarta-feira, agosto 10, 2005

Guiné-Bissau

Segundo leio é esta semana divulgado o resultado final das eleições presidenciais, creio até que será hoje ou amanhã. Passaram sete dias? duas semanas?
Também leio que será uma paz pôdre, uma paz precária porque enteada de inimigos figadais que entre si vão partilhar o poder, todos policiados publicamente por forças armadas que, também elas, são clientes da mesa.
Não, isto não é democracia. É precaridade mascarada, é enxerto mal amanhado que, mais cedo ou mais tarde, reabre chagas e revela gangrenas.
Soluções alternativas? não sei, nem me compete saber. Mas sei, infelizmente não preciso de ser bruxo para o saber, que arranjinhos destes dão sempre para o torto.

Falando de votos, emigrantes, nação

jpt a explicar porque o "terceiro-mundismo" não é geográfico, é igualmente atitude.
Ler, para ajudar a perceber porque é que, mentalidades, estamos sempre "a milhas" do desejável, do existente além nossa fronteira.

10 de Agosto


Esta cara de malandra faz anos hoje, treze; treze vezes milhões de pretextos para eu e a mãe acreditarmos que viver é sempre gratificante. Treze anos em que ela tanto me deu, tantas alegrias que até receei não merecer. E espero mais, egoisticamente quero mais treze vezes milhões.

Parabéns Carla! Tu mereces tudo, olho para ti e não duvido: tu mereces continuar a sorrir.

segunda-feira, agosto 08, 2005

Eu tenho uma amante

Bela, belíssima. A mais bela das amantes por que se suspira quando percebemos que nos falta paixão à vida, mais bela e perfeita que qualquer namorada de outro por quem se suspire.

Visitámo-nos ocasionalmente e sempre de fugida. Claro que pela pressa e pelo segredo são momentos tensos em que a paixão contida e silenciada nas ausências explode, e muito do ardor sensual perde-se na urgência animal da posse mútua. No meio da ânsia de amor a que nos entregamos, em que as carnes são violentadas na busca do êxtase por que os amantes reclamam, lá no meio desses momentos há por vezes tempo para soltar carícias suaves, afagos, e dedilha-se música terna que sobe as escalas que só nós conhecemos. Soam então carrilhões de timbre mágico e eu e a minha amante nele deslizamos, nus de tudo que vá mais longe do nosso enlevo, entregues e possuídos, insanos amantes que se devoram na frugalidade do seu segredo.

Exaurida a paixão da carne que jaz dormente, dorida, num dorido agradável de saciado, sossegamos nuvens e entrelaçamos sonhos no mirar mútuo, e os dedos ainda com as marcas vincadas da paixão acariciam-se, tocam e beijam os momentos em que nos fundimos e geramos o Ser da nossa paixão, amantes, recordo. Correm ao de leve os contornos mais queridos, aqui e ali o pormenor que enlouquece e soltou em fúria a paixão bruta, animal, os lábios soletram os segredos, pára o tempo e de nós só brota auréola magna, a beleza dos amantes secretos, de todos os mais belos e perfeitos.

Eu tenho uma amante, para ela escrevo e por ela sou escrito, eu tenho uma amante a quem entre segredos públicos e beijos secretos chamo de Querida, Querida Escrita.

Estão a esquecer-se do Major Tomé....

O ramalhete está cada vez mais... fúnebre? hoje li que Carlos Carvalhas também deverá ser candidato nas presidenciais.
Que tristeza de geração que não conseguiu criar nela mecanismos de renovação, sucessores, evolução.
Quando olhar para o boletim e para as caras e nomes, a serem estes, hei-de sentir-me a votar no passado, inevitavelmente. E não é só a questão das idades: há as ideias, o mais do mesmo já conhecido e com os resultados que vivemos.

sábado, agosto 06, 2005

Este calor...

... deixa-me a bater mal. Se isto antes já não era... regular?, agora só vejo mulheres nuas à minha frente.

É do calor, mas até passar a saisson o meu sonhar a vida ganha aos pontos ao outro tempo, a vidinha.

Presidenciais

Ando um pouco desanimado com o feedback ao anúncio da minha intenção de me candidatar a próximo Presidente da República.
E estou como há quinze dias atrás: não percebo que tenham desaparecido as razões da mesma, nem nada de original por aí apareceu.
Que se passará para além do meu mundo, que só eu me entendo?

short list de posts adiados

(à falta de tema original, por causa do calor, porque hoje é sábado, etc etc)
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- o novo estádio superior do imperialismo: o turismo (para levar porrada de todos os veraneantes militantes);
- migrações e inserção social (a pedido);
- o fascínio das lombadas nas estantes (começado, na altura abandonado mas 'com pernas' para...);
- ler Kafka (reflexões gerais em volta duma compra específica);
- os 'lóbulos', os 'umbigos', as 'nádegas' e por aí fora (série de anatomia erótica);
- um conto africano, com um tanque T-34 como personagem nuclear (já a meio e por inspiração do "Magude");
- Hong Kong e o pragmatismo (com pretexto num pormenor arquitectónico);
- o Eça (está difícil soltar aqui a pena...);
- sobre o mar (olha a novidade... lá vem ele, again);
- o tecido muscular da caneta (farinha do meu moinho...);
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Temas não faltam, e já começados. Falta o resto e que não é pouco...

BES

- primeiro houve uns sobreiros aqui para os lados de Benavente, desculpados em anúncios de página inteira e em que ninguém acreditou;
- no escândalo do Brasil/PT/Lula, diariamente chegam notícias comprometedores e que são desmentidas em voz gaga, sendo que todas apontam dedos enormes àquela já suspeita porta;
- pelo meio e ainda em entretanto, há a tentativa de manipular e silenciar o mais respeitado jornal político português;
- dos lados da Ota vêm cada vez mais fumos suspeitos que ligam esta já quase associação de malfeitores ao crime de esbulho nacional da pretendida construção do novo aeroporto, com sérias ameaças do escândalo queimar mais do que em leves chamuscos o governo nacional, o actual e o demitido.
A minha pergunta é a seguinte:
Lá para os lados da Rua do Ouro e no edifício onde trabalha o sr. dr. Constâncio, já se mobilizou alguém para longe das máquinas de calcular e recalcular o défice, para cumprir a missão estatutária de fiscalizar as operações bancárias suspeitas? aferir da verdadeira dimensão da ingerência política? puxar os fios ao novelo, para ver se na ponta estão compadrios e negociatas à conta do erário nacional, tudo como já se suspeita?
Gostava duma resposta, e não faço questão em preciosismos até às centésimas.

Lula

Até às ditas últimas consequências, se para tanto for o caso. Porque:
a) 'os outros também' é argumento insultuoso;
b) esta é uma altura tão boa como qualquer outra para iniciar limpezas, com a vantagem da certeza de haver muito para varrer;
c) é um clássico assassínio da democracia comprovar-se que foi vendido gato por lebre aos eleitores, e por questões de calendário de mandato não se poder devolver o prato à cozinha;
c) é frase gasta, mas "aquele país merece melhor" que mais um clone do tanto que o adiou estruturalmente.

Guiné-Bissau

Em Bissau trava-se a mais importante das lutas: a diplomacia pragmática contra a ameaça da barbárie.
Se rezar valesse a pena eu fá-lo-ia.

quinta-feira, agosto 04, 2005

"Mamas"

Mais cedo ou mais tarde tinha de me espraiar neste tema. Sabia-o como inevitável. Por isso mãos à obra, na ausência das ditas a quem aconchegar na palma da mão vou estender o meu reverente arado nesta folha branca e contá-las, acariciá-las se a tanto as letras crescerem e chegarem.
Tantas foram as vezes em que prometi a mim que não o faria como tantas aquelas em que, perdido no olhar do seu ocasional contorno que a paisagem me oferece e brinda, esboço mentalmente frases que delas, mamas, fossem dignas da sua protuberante essência. Quantas vezes suspirei intimamente à sua vista, já não pela sua carícia em tacto pois a idade aconselha a viver pacificamente com as glórias que ela tornou inacessíveis, mas lambendo em gula de escrita as linhas que dão texto, as rimas que dão sorrisos, as letras que as contassem, uma a uma ou melhor: ao par, pois de gémea paixão se trata.
"um dia farei um post de cem linhas sobre mamas". "não, não posso". "podes sim, e cem é pouco". Digladio-me entre a tentação e a vergonha em revelá-la, sucumbo em transe à sua visão que me persegue na exacta estatística que as abunda, e pego furiosamente na caneta na dolorosa incapacidade de a todas acariciar, oscular, vero. Cem linhas? e chegarão para descobrir ardores, destapar emoções, os tremores íntimos que me acometem à sua visão e perigam a estabilidade míope das convenções que teimam em afastar da mesa os melhores manjares a um palato que teima em manter-se e acreditar-se esfomeado? Tentemos, então. Tento, pois se o seio feminino é tão farto como belo, com tal tema e por seu preito a linha por certo não rogará desenhos vistosos, aqui e ali com pedúnculo florido e estirpe afogueada, que depositam no bico das ditas, as mamas, o beijo irreverente que elas me merecem mas não ouso dar em sonoro e lambido estalido.
Vive-se a canícula e os animais soltam o pêlo, desejosos de liberdade aos poros que sentem e suam a sua primitiva animalidade, de libertarem a epiderme de mantas que de tantos rigores nasceram. Os humanos dão o exemplo e vão-se adornos, exibindo-se em glória e loa de cio os dotes e argumentos de especificidade que preenchem o imaginário quando os olhos sorriem, valendo o que valem quando no escurinho soa a glosada 'hora da verdade', e então ronronam, felizes. Nelas, fêmeas, o visível destaque vai para os seus peitos que sempre foram o primeiro símbolo da diferença sexual, e então mostram e exibem as glândulas mamárias como em disputa por troféu das mais tentadoras e apetecíveis, íman de olhos tristemente impotentes de nelas não soltar sequiosas mãos. Talvez por vezes montra de ilusões que os desenganos mais tarde revelam, mas sempre a tal promissória que nos faz crer que a conta-correnta da vida recebeu um inesperado depósito de alento, sopro para cima apto a equilibrar qualquer saldo.
Basta percorrer uma rua mais movimentada, um café afreguesado, qualquer local da moda. A variedade de mamas à vista é tal, queira-se passar despercebido e sobreviver só à custa de discretas miradelas, mesmo assim, é viagem mista de tormento e de sonho, idílio e suplício que afoga qualquer realidade e subalterniza tudo o que vá além dos decotes, dumas mais alçadas outras mais maneirinhas, as fartas que abrem apetites de lautos banquetes ou aquelas que na concha da mão caberiam na perfeita formatação da carícia que se idealiza e em segredo se suspira. Sempre com os apetitosos bicos proeminentes e bem visíveis a olho ávido, tentadores, aptos a fazer perigar cura e sacristão da paróquia mais casta e provecta. As mamas são "um mundo", cada qual um par de jóias onde oficiaria por devoção toda a profunda fé que na sua celestialidade professo. Para terminar o abuso comparativo, só aliço a montra da confeitaria onde o guloso que se preze cola o seu nariz ranhoso, encantadamente feliz por se sonhar a trincar e a lamber, a provar e a saciar-se.
Mentiria com mais dentes que os que tenho se dissesse e contasse que, ao vê-las semi-reveladas em generosos decotes, as via ou imaginava de imediato totalmente nuas. Era presunção bastarda pois em linhas ora marotas vos conto que gosto de olhá-las assim, semi tudo, gosto. Com parte oculta que é ancoradouro onde ergo e solto velame a todo o pano, mastro erguido à força do sonho, gávea por vezes até lacrimante pois lá no alto roçam-se nuvens de húmidos humores.
Não renego nem enjeito miradela avaliadora às mamas de calendário mas é das que comigo se cruzam sob Sol e sob Lua que os meus olhos se embeiçam e enfeitiçam, a fábrica de sonhos alvoraçada e bater asas por esses decotes acima e abaixo. Tantas anónimas mas também tantas com donas conhecidas. Mamas reais, mamas de mulheres reais, tantas com nome e muitas mais que dele nem tom nem sintaxe algum dia conhecerei. Acalmem-se as minhas amigas que, curiosas, até aqui leram e ora coram, tentando recordar algum olhar mais descarado ou pior dissimulado, revelador dos apetites e fixações aqui revelados. A minha devoção à causa mamária, se se mantém master neste já algo longo percurso de viver, adquiriu tiques e manhas, sublimou exteriorizações indiscretas e soube aprender a ocultar indícios reveladores. Sendo completa verdade que nenhuma de vocês sobrevive à minha paixão avaliadora por seios, e em tal missa diária todas participam mal assomam à minha esquina, por recato, pudor, e também respeito, os meus olhos por elas e por vós não suspiram mais que de macho que se estime e goste de ser estimado, discreta homenagem à fêmea que faz florir dias e recuar calendários. Guardo no meu íntimo o foguetório que me inspiram, embora descaradamente também confesse em como espero e desejo que o meu brilho de olhos por vezes o revele. Quando, nalgumas vezes em que o meu olhar se perde no céu e nas nuvens, ou numa abelha que passeia numa folha, 'aéreo', não estou de vós ausente e perdido em mundos imaginários. Pelo contrário, nas nuvens moldo contornos que adivinho entre ais secretos, e na abelha que passeia indolentemente entre os veios da folha ou pétala entrevejo e sonho dedos acariciantes, perdidos na celestial textura dos vossos peitos.
Por vezes neste longo caminhar da vida também me calha prémio farto, e soletro de novo o ritual iniciático de bem acariciar um novo seio. Descoberta que é incessante encanto renovado a cada novo par, um novo mundo que de mão trémula invade egos e enrouquece gemidos e sussurros, e que se revela ao ritmo do rosáceo revelar da sua altiva crista, barómetro de desejos e de permissões, erecto convite a sensuais beijos, ávidos chupos, lentos mordiscares. Penso que é melhor parar. Não só porque muito provavelmente as "cem linhas" já eram, também porque intimamente já suo e o meu olhar já deverá mostrar um aspecto vítreo e alucinado quando olho para a mesa da frente, onde me espreitam e espevitam dois mui latos exemplos. Que vou analiticamente observar, discretamente, é claro.

Blogosfera local

Cá por Almeirim há poucos blogues; que eu conheça cabem todos numa mão e ainda sobrará dedo curioso para sondar bolos vizinhos.
Mas como não há mal que sempre dure nem donzela que assim perdure, pouco a pouco aparecem boas novas e é disso que quero dar fé: o meu amigo Arnaldo Xarim decidiu-se - finalmente! - e abriu loja ao público, sendo que a oferta inicial promete fazer avios a clientes exigentes. Claro que já me meti na bicha da clientela diária e o link respectivo será tributado brevemente.
Bem-vindo, Grilo Escrevente. Não tenho dúvidas (mas por aí não voto, não... lol) em como és mais-valia.

Saber andar na estrada - IV

Rolar a 120/130 e ser ultrapassado por cão e gato é... preocupante e até assustador.

Saber andar na estrada - III

Ainda nas AE, a mudança de faixa deve sempre ser assinalada com o sinal luminoso, vulgo "pisca".

Saber andar na estrada - II

Nas AE a faixa do meio não é para a 'volta dos tristes'; para essa está reservada a da direita.

Saber andar na estrada - I

A sequência correcta é "espelho, sinal, manobra", não é "manobra, sinal, nem olho para o espelho"

Lá vai um...

A desculpa formal são as férias, o calor, etc etc
Por detrás disto tudo está uma imensa preguiça.

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