Xicuembo (versão 3.0)

memórias & resmungos do Carlos Gil

A minha fotografia
Nome:

carlosgil2006@gmail.com

sábado, julho 30, 2005

Que se lixe a CE, CEE ou o raio que a parta! Assim não!

Gamaram-nos o pilim:
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Euromilhões Concurso: 30/2005
Data do sorteio: 29/07/2005

Chave: 3, 19, 26, 49, 50 + 4, 5

Nº de vencedores: 1
Valor: € 115.436.126,00
Portugal: 0
Europa: 1
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Ladrões duma figa!!!!

sexta-feira, julho 29, 2005

Distribuição do "Xicuembo"

Quero agradecer a vossa solidariedade. Gostei de me sentir apoiado quando vi quão pequenino sou perante o que estava a encontrar.
E também contar-vos que a pressão e-mailada que foi exercida parece que deu resultado: hoje, ao ir ao local de sempre comprar o jornal de sempre, fui recebido com um sorriso de orelha a orelha pela dona. Tinham-lhe telefonado da distribuidora e na próxima semana será visitada pelo vendedor, portanto o mais tardar no final dela ou na seguinte o meu livro começa a ser distribuído aqui na província.
Ora, como em tudo o mais, os primeiros são os dos grandes centros e por dedução acredito que na próxima semana já as grandes livrarias o têm. Ele bóiou, não naufragou. Oxalá consiga nadar até boas mãos...

quinta-feira, julho 28, 2005

O Sócrates...

... tem feito tudo para ficar na história como um dos primeiro-ministros sociais democratas mais impopulares. E com afinco.

quarta-feira, julho 27, 2005

Assassínio com ISBN

Com ocultação de cadáver, o meu livro foi assassinado algures na via rápida que liga as editoras aos livreiros, de seu nome ‘a distribuidora’.
Iniciou viagem um pouco depois do dia em que se mostrou, 18 de Junho, e faleceu misteriosa e silenciosamente nos longos quilómetros de asfalto esburacado que levam às estantes.
Eis como atingiu inesperadamente a Glória, tornando-se peças raras e de colecção os exemplares dos que conseguiram comprá-lo on-line ou no lançamento.
Paz à sua alma, e já agora merda para a distribuidora.

Fugas, vento &

Sempre gostei de salões de hotel, do seu ambiente onde se cruzam mundos, e, neste caso, da pouca lufa-lufa dum de província onde o silêncio do bar onde escrevo só é quebrado pelo som de raros passos vindos dos elevadores, uma ou outra conversa lá longe, na recepção. Neste silêncio corro o meu olhar e respiro tudo, neste nada há tanto para contar.

Há algo de mistura de kitsh e de deslumbramento novo-riquista neste meu gosto, mas há sobretudo o silêncio e o conforto, a ausência de televisores e de multidões a beber galões e a comer bolos, e há o vento que assobia enquanto o meu olhar se perde pela lezíria e o rio, as manchas de castanho entre o amarelo das terras arroteadas, a língua da ponte moderna e o brilho que o hoje tímido Sol faz espreitar aos carros, lá tão distantes que só os adivinho pelo brilho que me pousa na folha, embaraçado pelo vento que uiva.

Na capital por vezes procuro este ambiente de bares de hotéis pelo contrário, pelo bulício cosmopolita onde me dissimulo lendo-o como se estivesse na nave dum aeroporto, adivinhando em caras e sons as origens, buscando pormenores que satisfaçam curiosidades geográficas, cada qual especial, cada qual exótica nem que seja um livro na mão, um pin, um recuerdo da excursão. Tento adivinhar-lhes vivências específicas como se dum jogo de viagens fosse, não saindo da mansa rotina mais longe que um salão de hotel ou uma aerogare.

Neste caso e como atrás contado, é o calmo inverso que vivo e me dá vez e pretexto para olhar os óleos nas paredes que gritam manchas de cor e castas paisagens, os sofás vazios como um lenitivo exército pronto a receber em aconchego pés e almas, cansados de tanto olhar mundos com data e programa em curso. Olho as grandes portas envidraçadas que caiem sobre a piscina e o fundo da colina, e para além delas o vento que assobia, a lezíria, o rio e a ponte, o sossego que pára a vida e seus relógios, e sinto-me bem a escrevê-lo e contá-lo.

Não sei se os meteorologistas o predisseram mas hoje o céu mostra as suas nuvens e o seu azul pouco espreita entre os novelos que se acumulam em castelos bem-vindos, torres brancas que se constroem e reconstroem e de cujas ameias virá o vento, assobiando, clarim que soa forte para além dos vidros que não o ocultam. As nuvens são atravessadas por uma longa recta, também branca, um rasto, mais caras e pormenores rumo a um aeroporto e rumo a muitos hotéis e seus salões e bares, mais munições para mim, ávido delas, vampiro que nelas rouba dissimuladamente os seus viveres e imagina os restantes (a barmaid olha-me sorrateiramente, curiosa com o afã escrevinhador; e eu centro nela o sugar de vida para a caneta, dela escrevo que tem uma trança numa cara simples e bonita, vulgar e sem traços de vedeta na guerra dos sexos, é por isso naturalmente bela; volto ao salão e aos óleos, o vento chamou-me e eu vou)

Este hall é também salão e bar pois é enorme, fronteiro ao restaurante onde as mesas vazias mostram construções de guardanapos a que o/a chefe-de-sala chamará amorosamente de ‘intervenções’, e donde adivinho nalgum recanto uma conversa sussurrada mais prolongada (são quase três da tarde). Este átrio é enorme e o meu olhar saltita contornando colunas , perde-se em atenções à música que paira baixinho (sim, é Chuck Berry e aqueles solos ainda me agitam quando com eles me cruzo), reparo que um dos quadros copia a paisagem onde o vento assobia, mas não tem a ponte. Vagueio entre um óleo e outro e concluo que ao do quadro na parede falta o ar que assobia, tem as nuvens mas elas estão emudecidas. Mais que a paisagem que vai dum lado ao outro, para além da ponte cuja falta assinalo - mas a tela que sinto ser tão grande diz-me que a dispenso, o pincel do artista não colheu da paleta o vento e suas cores, o assobio, não revelou o respirar dos deuses adormecidos nos seus castelos. Faltou tinta e pincel para contar-me o ar que olho pela vidraça, o ouço, o sinto, e o vejo no seu longo assobio de verão. Não gosto quando um quadro se assemelha demais a uma fotografia. Aí, ele perde sempre porque não tem a ponte. Gosto de quadros que falem e cantem, que tenham o assobio do ar e o brilho do céu presentes até no opaco castanho do longo mundo que se olha antes de, esperançosamente, os olhos procurarem os quadros nas paredes, assinaturas de visões contadas em gozosas mil cores que ignoram o pormenor dos veios das folhas mas que contam como ela abana ao vento, e caiem a meus olhos como se as colhesse.

Há poucos meses atrás fui buscar um amigo ao aeroporto e, via atrasos, dei por mim com a caneta a ronronar, feliz, escrevendo e contando o ambiente, o meu fascínio, o meu kitsh profundo que me sacia. E também escrevi da curiosidade dos meus vizinhos de banco, de como era giro escrever sobre eles que estavam a tentar adivinhar o que eu escrevia. Nem sei bem porquê (o tempo? o tempo que tanto pára e dele assim o conto, como falta tempo para depois o contar?) nunca publiquei a crónica que por aqui mora, irmã desta num dos caderninhos que me acompanham e onde acumulo inéditos que nunca serão publicáveis. Estes cadernos são práticos, cabem bem num bolso e facilmente arrumáveis na pochette, desde que os descobri acompanham-me para todo o lado. Ajudam-me a escrever em tudo o que é sítio onde o ‘clik’ soe, e com eles escrevo em salões de hotéis vazios ou cheios, a olhar o rio e o vento que assobia, as malas high-tech e as donzelas blonde-tech, adivinhando vidas, em aeroportos que são pontes maiores que esta que o artista do óleo na parede não pintou e disso hoje terá sincera pena, talvez mais do que da ausência do vento que tanto assobia agora, um lamento irado que que se ouve e soa como grito contínuo, que escala o cabeço desde a paisagem lá em baixo, onde está a ponte, e que alguém colocou na parede sem ambas: a ponte, e o vento e o seu uivo. Em excesso, estou em mim que o vento grita que o quadro só estará completo quando o contar a assobiar, nem que em abuso de realismo demole a ponte lá em baixo, zangado com a má perfeição.

Agora, cá dentro, há gente que chega e outros que partem. Os hotéis são o prolongar natural dos aeroportos, aqui ou lá alço-me, percorro nos passos e trajes dos outros os caminhos que nunca trilhei, esconjuro cimentos que me pesam e tolhem passos, voo escrevendo e contando o ar que assobia e a barmaid que me espreita, o trio que chega com os trolleys que chiam no espelhado do chão, sorvo um último trago da paisagem, tão bonito que é o sorriso dela, acho que vou lá comprar-lhe cigarros e vou-me embora pois o vento eriçou em mim cabelos que sonho ainda serem revoltos e rebeldes, fecho o caderno e vou-me embora, lá fora a lezíria e a ponte, o assobio, fecho o caderno onde voo antes que o ar se cale e me silencie como ao quadro que jaz morto, lá naquela parede.

terça-feira, julho 26, 2005

(suspiro em ai)

Uma sandália azul com missangas que brilham, e eu sorrio. No pé, dois anéis perdem-se em chuchas que estendem o meu sorriso ao recanto do sonho e gargalho intimamente, os olhos por certo tão brilhantes como as missangas que me atiçam.

Estou a ficar ou gagá ou perigoso quando saio. Até amanhã.

Falta falta falta

Olho para os putativos candidatos e, cada um à sua maneira, vejo capos di tuti capi e o excesso de bolor faz-me espirrar.

Falta ali 'uma centelha', falta ali tanta coisa que olho preocupado para a vida que vá além das próximas e efémeras vitórias ou derrotas, já prematuramente aborrecido com as zangas que, não as tendo ainda, são tão inevitáveis como um abrir de janelas quando se quer renovar o ar.

Falta tanta coisa para que

A nossa banca e o G-8, enfim, a história da galinha e dos ovos traduzida em défice

Há anos que lemos nas primeiras páginas, com a frequência perfeita para acreditarmos mansamente, que isto está mau e caminha para pior.

Há anos que lemos, nas páginas do meio, que anual, semestral ou trimestralmente a troika bancária aumenta os lucros com esta crise onde é o único credor de todos, Estado, Empresas, Famílias.

Em Portugal ninguém deve nada a ninguém, devemos é todos à Banca. Ao meio ou nas pontas do cordel há sempre uma hipoteca ou um penhor, há sempre um que leva o apertão nos tomates quando as coisas correm mal e, esse, paga a conta de todos.

Recentemente o G-8 perdoou, muito justamente, acrescento, a dívida externa de muitos países africanos que se encontravam multiplamente estrangulados por ela (vide discurso recente do moçambicano Mia Couto, ele explica-o em bom e legível pormenor).

Não matem a galinha, ‘está na hora’. Está na hora e momento certo de, até em bandeira de esperança ainda mais bonita e sedutora porque inesperada, a Banca tomar medidas excepcionais que soltem às Famílias o garrote com que, anual, semestral e trimestralmente, elas são asfixiadas sempre mais um pouco – e já andamos roucos.

Da saúde das Famílias vem a das Empresas, que mais prosperam, o Estado suspira de alívio e a galinha não definha, nem a montante nem a jusante nem na chicha do peito.

Não matem a galinha, tratem bem o país-cliente que vos engorda, anual, semestral e trimestralmente.

domingo, julho 24, 2005

Machambeiro no amanho

O Ma-schamba regressou (já não é sem tempo, senti-lhe a falta).
E vem com a gáspia toda, pelos indícios andou a vasculhar sótãos e malas, e vem altamente municiado de memórias & recordações. Aguarda-se com natural curiosidade os próximos episódios...

Glória aos nossos Heróis!

O pace car da Jordan terminou mais um GP sem avarias nem despistes.
Deve o Estado aplaudir e reconhecer o mérito dos Nossos melhores, e urge a Prevenção Rodoviária Portuguesa premiar a cuidada condução e o muito zelo do nosso Herói em concluir mais uma espinhosa missão sem acidentes, despistes, excessos de velocidade ou manobras arriscadas e perigosas como ultrapassagens.
Fossem todos tão exemplares como o Nosso Tiago é, lá pelas estradas estrangeiras, e cá dentro a Brigada de Trânsito seria tão sonolenta como são os comissários de pista ao verem passar o prudente, seguro e fiável 'amarelinho'.

sábado, julho 23, 2005

Trabalho temporário (m/f)

Para a pré-campanha eleitoral necessito, em regime de voluntariado, de três administrativos, um assesor de imprensa, dois motoristas, um informático e um cozinheiro.

Agradeço se algum de vocês tiver contactos com a 'Okupa' que me ponha à fala com os ditos. É que preciso duma sede de campanha em Lisboa, e gostava dumas dicas sobre o catálogo desta estação.

Finda a campanha haverá modestas mas sentidas lembranças a todos os colaboradores.

sexta-feira, julho 22, 2005

Já mexe...

Hoje ouço na rádio que um eterno candidato putativo, senhor de apregoadas muitas virtudes onde sobressai o gosto pelo suspense, fã do culto ao "desejado", anuncia a sua disponibilidade profissional e informa que vai reunir o clã familiar.
Eis o primeiro a assomar. E que venham mais, que deste e com este será duelo que não enche bancadas nem empolga vaticínios.
É que - reparem!... que nos pode dizer de novo este Marechal da crise que nos inundou e que me obriga a sair do meu sossego? que mensagem dele nos poderá empolgar, quando se lhe reconhece no perfil a paternidade das sombras que nos ameaçam? o seu discurso e a sua praxis, aquele cifrado e teológico e esta de previsível receita bolorenta, em que divergirão duma recauchutagem que é caduca de prazo de garantia?
Se a sua família olhar com agrado uma mudança de bairro, que não denunciem arrendamentos nem telefonem à Remax. É que, para este, estou convicto de nem vir a necessitar de usar a minha pochette.

"Para que se não esqueça"

A ler, aqui, em quatro partes.
Para que se não esqueça...

Uma pergunta

Já se sabem mais pormenores sobre o 'vestido tigre' do Maestro?
São estes silêncios sobre os mistérios do quotidiano que, na omissão, alimentam o imaginário colectivo e adquirem lugar na história mitológica das gerações. Eu, exemplo, se ninguém me explicar tim-tim por tim-tim esta parte, daqui a vinte anos ainda me interrogarei, em voz alta, acerca das inspirações musicais que um 'vestido tigre', no corpo certo, trará...
Quem souber de algo, mande-me mail: sou todo ouvidos sobre estas coisas aparentemente 'de nada', mas que me inquietam e preocupam persistentemente, até ver o mistério esclarecido.
PS: e era 'tigre' ou 'pantera'? tenho andado a matutar, acho que o trapo era mesmo pantera... as minhas desculpas ao Maestro, foi sem intenção ofensiva

Decidi, e disso aqui vos conto a boa nova

Tinha dito aqui que estava a pensar sobre se deveria ou não candidatar-me a PR. Já tomei a decisão, e ela é a de cumprir o meu serviço público. Assim deixo-vos um primeiro alinhamento de letras sob forma de ‘Manifesto Eleitoral’:

Há que dizer-vos em primeiro lugar que um manifesto eleitoral para a presidência da república não pode resvalar propostas e intenções para a esfera governamental. O meu papel na estrutura do Estado é outro, e é desse fato que em breve e por vocês vou vestir que aqui se vai tratar.

A minha base eleitoral não é partidária, sendo como é de todos. Tem raízes, e são públicas: um caldo dos tempos da utopia e cujo travo nunca é esquecido por quem em graça o provou, fé absoluta na liberdade e um enorme desejo de mais justiça social. Sem demagogias e tibiezas que arruinariam a credibilidade da minha campanha como fizeram a tantas de tantos, defino-me politicamente como filho daquele Sonho, hoje estabilizado neste sereno ‘centrão’ social que não tem complexos politicamente correctos em dar razão a quem a tem, em não ser cego nem surdo quando há que bater palmas sem cuidar de filiações dos seus destinatários. Fé no mérito, nenhuma em clubites ou egoísmos.

Dum Presidente espera-se prudência e bom-senso, pelo que não se admirem se nos próximos cinco anos alguma vez tenham de desesperar tanto ou mais que eu e vós desesperamos pelas decisões do meu antecessor. Cada caso é singular, e terei a sensibilidade de não me silenciar em redutos e bunkers de eminências pensantes enquanto estas fazem o seu melhor, pensar e discutir para poder aconselhar, aconselhar-me para eu decidir da forma mais favorável ao País, a todos nós. A minha voz ouvir-se-á exactamente no tom e vezes necessários para que a amargura dos passageiros silêncios institucionais, quando necessários, não soe como desnorte e acentue as desilusões que, principalmente nessas alturas, rasam as nossas esperanças e fé no sentido nacional de se ser dignamente português.

O meu mandato será exercido com prioridades claras, assentes na valorização da democracia representativa e no expurgar das suas carências e excessos, de que todos conhecemos sintomas e dores, sendo a minha candidatura fruto das suas muitas cicatrizes. Portanto, a minha independência partidária em nada ameaça a essência democrática do direito de livre associação de ideais e visões sobre a sociedade. Dentro deste espírito, o Governo, seja ele com a composição que as estruturas partidárias acordem e que respeite a vontade popular expressa eleitoralmente, contará sempre com a minha solidariedade institucional para a prossecução dos seus altos fins.

Nos cinco anos da minha presidência terei especial atenção aos sectores sociais a quem a má ventania económica tem varrido direitos e deixado um rasto de dolorosas injustiças, quantas vezes dramas, deixando de luto um Estado que, já não sendo nem podendo voltar a ser o Estado Social doutros tempos, também dele não se aceita a completa demissão dessa sua função de equilíbrio e esbatimento das fronteiras entre extractos da sociedade.

Também será nítido o carinho de que necessitam todas as funções que a dieta orçamental sacrifica pouco a pouco, campos mais vulneráveis por aparentemente mostrarem-se secundários em altura das fatias de pão serem mais finas para chegarem a todos. A cultura, se não poderá receber do Presidente da República as dotações em verbas que ele não dispõe, poderá sempre contar com, da minha parte, o empenhado apoio e a maior visibilidade que meu cargo arrasta. Esse capital, o cultural, é forte demais para continuar a ser marginalizado. Até porque, falando de futuro, a cultura e a educação, aliadas naturais, é o investimento mais barato e eficaz de que uma sociedade avisada e ambiciosa dispõe.

Uma palavra serena aos empresários, ao motor nacional que não podemos mais dispensar: ânimo. Eu acredito em vocês e nas vossas capacidades, e nestes meus cinco anos como Presidente da nossa república terão em mim um aliado atento à vossa voz, e todo o apoio pessoal que o cargo institucional me proporcionará.

O Presidente da República, eu a partir do próximo ano e pelos cinco seguintes, preside ao Conselho de Estado, órgão cujo papel pretendo reforçar dado nele estarem representados ao seu melhor nível os poderes executivo e o legislativo nacionais, além de personalidades de especial destaque da nossa sociedade. Os seus membros, Conselheiros do país, na sua maior parte exercem funções activas políticas e, nelas, proferem declarações políticas que são muitas vezes polémicas, noutras rasando inconveniências em nada compatíveis com a dignidade e responsabilidade do cargo. Não é assunto que o Presidente discuta fora do seu lugar próprio, sendo que menos ainda o é calar-se aos prejuízos que tais afirmações, impensadas ou insensatas, trazem ao órgão e ao país, que se vê assim tão deficientemente aconselhado num órgão que deveria ser de escol. Esses dirigentes, relapsos no seu sentido de dever público, não verão a sua dignidade de Conselheiros diminuída com a sua atitude sem que antes o Conselho de Estado analise e debata no seu seio as declarações em causa, a postura, as consequências nefastas inerentes para o colectivo nacional. Mesmo tratando-se de algum Senhor Conselheiro mais relapso em assiduidade, talvez por questões geográficas, a censura interna será prévia à pública quando disso for caso, sob pena de o seu mau exemplo gerar frutos ao querer combatê-lo precipitadamente.

Mas que não se leiam nestas palavras promessas de tolerâncias e olhos fechados a abusos oratórios e desmandos políticos, que não se entendam como omissões silenciosas perante declarações e actos de apelo a sentimentos de turba, de perversão de valores, de atentados à dignidade e à liberdade. Serei inflexível nas violações destes campos, sempre em sede própria.

Há más novas para um sector do Estado para quando eu tomar posse: só não viverei sozinho em Belém por tal ser inviável e pouco eficiente; mas haverá dispensas nesse micro sector desta hidra que tem nome e cuja paternidade será sempre discutida, o défice das contas estatais. Todos os que lá trabalham, sem excepções, terão de apresentar razões para a sua manutenção. Não dispensarei as minhas naturais nomeações políticas para cargos de aconselhamento e de superior confiança, estando quanto a todo o restante o meu ânimo e vontade mais virados para o dispensar de stafs que para reforçá-los.

Este um primeiro manifesto, não sobre as razões da candidatura pois, essas, de todos dolorosamente sabemos. Após ter reflectido decidi que está na minha hora de cumprir serviço público. Não só me mostro disponível como por estas linhas revelo publicamente que me candidato a Presidente da República Portuguesa. Para ganhar. Por vós, por todos nós. E obrigado pelo vosso apoio, estejam felizes por vós mesmos: decidiram bem pois eu, Carlos Gil, eleitor e elegível, não vos desiludirei.

terça-feira, julho 19, 2005

Um pensamento como outro qualquer

A blogosfera são os jogos florais modernos.

Candidaturas presidenciais

Se ninguém se mexe, avanço eu.

segunda-feira, julho 18, 2005

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Não há muito tempo o jpt fez duas linhas cujo balanço me oscila conforme as vagas vão e vêm. Trocado por miúdos e deliberadamente enigmático, também murmuro que não se fecham janelas e abraça-se o sagrado silêncio, quando por elas entra a melhor luz de todas, os olhos que contam.

sábado, julho 16, 2005

Mais letras moçambicanas

É já no próximo sábado, 23, pelas vinte e uma, vinte e uma e trinta, lá naquele cantinho tão bonito e onde nos sentimos tão bem rodeados por tanto Amigo impresso, a Livraria Ler Devagar, que será o lançamento do nº 2 dos Cadernos Moçambicanos Manguana, com poesia e prosa dos autores Delmar Maia Gonçalves, Manuel Matsinhe, Maria Olga Santos, Jorge Viegas, Renato Graça, Flaviano Fernandes, Nora Villar, José Alberto Sitoe, Nídia Fernandes, e eu também lá tenho umas linhas.
Como a 'cena' é no Bairro Alto e é sábado... 'bora a uma desbunda de letras e latitas?

quinta-feira, julho 14, 2005

Está um calor do caraças!

O vento gélido infiltra-se nos menores recantos e, no horizonte, a névoa persistente não permite ver os cumes gelados dos picos do glaciar de que, sabem-no, já estão próximos. Tinham saído da base de Ryijkaard há umas três horas, quando a eterna luz do céu nocturno clareara mais um pouco e o Sol timidamente crescera para além da mancha vermelha raiada que acompanhava os dormires árcticos.
Os cães, ainda ofegantes, repousavam ao lado dos trenós, libertos dos arreios, as línguas suspensas na alvura dos pêlos dos focinhos, os olhos também alvos sempre atentos a todos os movimentos. Embora já estivessem na base desde Março o frio do exterior ainda os incomodava e disso era o melhor exemplo Frankie. Aninhado contra o grosso volume da bagagem que enchia a parte traseira do trenó, nem o grosso casaco de peles ocultava que tremia violentamente com o vento cortante que penetrava agulhas de gelo em todos os menores recantos. Giselle levantou-se após trocar um olhar mudo com Gene e aproximou-se dele, o pequeno corpo curvado para melhor progredir contra a inclemência do vento polar. Dois dos cães olham-na, atentos, com a curiosidade de tudo e de nada de quem se habituou a viver em paisagens onde um vulto é um acontecimento, e onde os seus latidos, cavos e profundos, soam como homenagem orquestral quando a monotonia do branco da paisagem cede lugar a qualquer facto que a quebre, seja uma foca perdida, uma ave que voa no seu norte procurando rumos, ou um estranho humano que caminha enterrando as grossa botas no manto fino de neve.
Bem perto dali, numa colina que os deslizes da placa de gelo formara e assim subsistia até os deuses arrumarem de novo a sua enseada, os olhos do estranho acoitado brilhavam enquanto ele, também, seguia o vulto que se deslocava com custo. Nem a distância nem a névoa ou o vento que fazia voarem pequenos flocos de neve, ocultavam que, sob a espessa manta protectora de peles e vestimentas o vulto que arrojadamente se desabrigara era um vulto feminino. Havia algo especial nas mulheres, no seu caminhar e nos seus pequenos pormenores, que nenhuma capa escondia e ele disso era entendido. A sua mão crispou-se em volta do gasto livro de capa negra, e foi com um esgar tresloucado que emergiu da sua protecção e para ela correu, a batina erguida pela cintura revelando umas pernas escanzeladas, as sandálias voando sobre o gelo e a neve, a alva careca brilhando ao Sol que assomava fazendo-a soltar um fino rego de suores, enquanto da sua boca troou um grito que assustou cães e gentes, fez um urso polar que olhava ociosamente um bando de focas fugir como se um mamute o perseguisse, e naquelas terras gélidas soou, bem alto, um "orare! orare mucho!" que fez Giselle ajoelhar-se de imediato e logo ali foi confessada, tendo cumprido penitência num iglô que dizia "rooms - chambers - zimmers".

quarta-feira, julho 13, 2005

Raio-x à pochette

Tenho uma pochette, preta, onde mergulhei tudo o que enchia bolsos e os deformava, mais uma série de tralhas que antes não trazia comigo e agora por lá habita, “dá jeito”. Um pouco como a celebrada carteira feminina, saco sem fundo e eterno objecto de mordazes comentários masculinos.

A minha pochette foi a compra mais útil que fiz nos últimos tempos, desde uns sapatos de golfe que descobri em saldos no Campera e que fazem as delícias dos meus pés e o gáudio da vizinhança que, pouco a pouco, se vai habituando às excentricidades do tipo do primeiro direito. Sem divisórias interiores no grande porão, permite transportar tudo, bem arrumado, a inevitável carteira e o telemóvel, o chaveiro, o maço de tabaco em uso mais o suplente, o isqueiro mais o suplente, dois cadernos ‘moleskine’ e uma esferográfica suplente, um canivete suíço e um corta-unhas e, até, um pequeno cinzeiro com tampa. Estes os residentes fixos do porão principal, pois há todos os eventuais que vão da carteira de plástico com os boletins dos sonhos e da fortuna, envelopes com contas por pagar, mais tudo o que aparece inesperadamente na mão e deveria morrer nos bolsos das calças. Nestes, sobrevive o lenço e a chave do carro.

Depois, frente e verso, há mais espaços que vou agora relatar neste strip-tease de alívio; atrás, abrindo com zip, a bolsa das gamelas de medicamentos para isto e para aquilo, stock que vigio e renovo, e que de muitas demandas de farmácias de serviço me poupa. Na frente, abrindo com dois fechos de mola, solta-se uma extensão em plataforma com uma bolsa fechada com zip, e outra aberta. Na primeira está o livro de cheques e uma caderneta bancária, na outra acumulam-se papéis de apontamentos, cartões de visita, mil e um papéis que costumavam voltar ao meu olhar transformados em pasta irreconhecível pelos detergentes da lavagem. Em frente, as pequenas divisórias para os cartões menos usados – os ‘mais’ estão na carteira -, parafernália de descontos e ilusões, inscrições e toda aquela abstracta numerologia com que vamos sendo carimbados por lojas e por repartições, milhentas novas formas de burocracia disfarçadas em duvidosas vantagens. Há outra bolsa, também aberta, onde se acumulam talões de supermercado, talões de descontos para isto e mais aquilo e que ali caducam sombriamente, de caixas Multibanco, e que se misturam com mais cartões de visita e de casas comerciais, mais papelada que vá além do lampejo momentâneo de necessidade de conservação, que não resiste ao tempo que passa e provoca alegres limpezas de carga periódicas. Ainda existe espaço para uma agenda telefónica, daquelas de agenda de bolso, de que continuo a não prescindir por não confiar na do telemóvel. Entres estas duas partes, a do porão da pochette e a que abre como uma plataforma, está a caneta em uso, adequadamente presa em presilha própria. A minha pochette, o meu porão, o meu armazém que me libertou os bolsos de camisas e calças de tudo o que lá não cabia.

Pouco depois de ter feito a minha compra do século recordei-me que Álvaro Cunhal tinha uma igual. Quando abro a minha e ponho-me a olhar embevecido para o tanto que lá transporto, para além dos documentos de plástico os projectos de inéditos e as frases que vou acumulando nos caderninhos de capa preta, o mundo de amigos e relações que a agenda transporta, tudo isso mais o passageiro que então foi importante, então penso na pochette de Cunhal e como deverá ter sido o seu revelar cobiçado por tantos, seus próximos ou ainda mais dos seus distantes. Talvez tenha sido a pochette mais enigmática de Portugal, contentor de segredos políticos e privados, revelações duma vida íntima que, ciosamente, sempre assim fez jus em manter. Por oposição à minha pochette que nesta folha despejei, dela dando visual alargado e, até, neste escrito que de si própria conta e fala, abrindo um dos ‘moleskines’ e contando-vos um dos seus inéditos que é a textura da sua casca, preta, em formato de pochette e cheia como contentor de emigrante para um outro mundo.

segunda-feira, julho 11, 2005

Um marinheiro na blogosfera

Há momentos especiais. Nas esquinas da vida cruzamo-nos aos milhares sem uns dos outros darmos mais conta que aquele pouco que julgamos necessário. Numa correria insane de fuga de nós próprios, bem alta a reserva que mantemos com o desconhecido sem cuidar de nele acarinhar a sempre real possibilidade de encontro dum Amigo. Quantos momentos de alegria e de pura felicidade não se perdem nesta frieza formal de relacionamento...
Acontece que há um mundo paralelo àquele onde o sol envergonha os nossos medos. O mundo virtual, este onde todos nos lemos e tanta e tanta vez damos por nós a comentar 'gosto deste gajo!', sabendo bem que até podemos nos cruzar com ele no metro ou numa repartição qualquer sem que as defesas que erguemos ao desconhecido permitam a realização desse abraço.
Esta introdução toda para dizer que o Magude já era meu amigo antes desse pretexto que foi o lançamento do meu livro ter viabilizado tantos abraços que ansiava por dar. Porque o lia diariamente, nos tais Grupos MSN que já aqui várias vezes citei, e lá estava eu a abanar a cabeça e com a tal oração do 'gramo este gajo'...
E gramo mesmo, muito mais agora que - finalmente!... decidiu armar tenda na blogosfera e abrir a sua Mala de Porão. Que sei rica em tesouros, e que diariamente cobiçarei.
Bem-vindo Zé Carlos; como diz a Isabella "este puto é mais-valia".

domingo, julho 10, 2005

dancing-bar Vasco da Gama

No tempo em que as noites adormeciam ao embalo de “era uma vez…” e puxava para os olhos a manta protectora dos medos nocturnos, entravam pela varanda fronteira à sala que à noite era quarto o bulício nocturno da avenida, longa recta de alcatrão que se metamorfoseava quando os candeeiros se acendiam e as formigas humanas se travestiam no exótico da vida nocturna, em que homens solitários se refugiam em bandos de seus iguais na busca da anestesia alcoólica e do sexo barato que o som alto das jukes-boxes promete.

Quase fronteiro ao meu está o prédio onde é rei da noite local o ‘Dancing-Bar Vasco da Gama’, catedral da luxúria e dos desejos lascivos com bolsos menos afortunados. Uma prostituição de classe intermédia, sem ser a naif que se visita nas barracas do caniço profundo nem a espampanante dos bares próximos ao porto, lá na zona baixa da cidade; algo a meio caminho entre a modesta capulana que se abre num só gesto, para alimentar a criança que também aninha, e as mini-mini saias de lantejoulas e meias de nylon, também o modesto lenço na cabeça em oposição à cabeleira postiça, rígida de laca e vãs ilusões. Cresci conhecendo-as, mirando ao longe a sua ostentação corporal, e não fui muito tempo indiferente à sua oferta. Nas noites em que adormecia ouvindo o seu linguarejar que subia da rua onde os táxis se sucediam, as suas gargalhadas, às vezes os seus gritos e impropérios, na privacidade dos sonhos íntimos adivinhava em mim cresceres, maturações corporais, e nas carícias onanistas que a mim concedia eram elas as ninfas que oníricamente as guiavam.

A fauna militar em folga era a clientela de eleição do bar, mais o pequeno assalariado da cidade de cimento, mais todos os malandros e proto-malandros do bairro e arredores. Por tudo isto, pelo caldeirão inevitavelmente explosivo que junta putedo e tropa, embriaguês de frustrações e vidas falhadas, a autoridade policial era visita regular do ‘Vasco da Gama’. Se os jeep’s da polícia civil só lá acorriam quando chamados a por cobro a desmandos, mais frequentes em fins-de-semana, os da polícia militar paravam sempre por lá na sua ronda, com os tropas de capacete branco bebendo nos olhares de receio os ‘desenfiados’ que procuravam. Noutras vezes acorriam chamados pela polícia civil por causa de brigas que envolviam militares, assim como a polícia aérea e a naval, embora estas fossem raras de ver nos subúrbios da cidade pois os seus soldados eram elite ao lado do vulgo ‘feijão-verde’, e saciavam necessidades de evasão em locais mais perfumados que este ‘dancing-bar’ de 3ª classe, onde as incansáveis juke-boxes eram substituídas por veros conjuntos musicais, e a idade das moças ofertantes não pesava tanto nos atributos físicos que vendiam, como nas, que em regra, ganhavam os dias nas noites do ‘Vasco da Gama’.

Naturalmente estava proibido de lá entrar, ou sequer de me abeirar, quando os serões de verão autorizavam gostosas horas em brincadeiras no passeio em frente ao meu prédio. Entre nós, putos do prédio que nos juntávamos em conversas secretas num qualquer muro, tentando adivinhar o crescer, o ‘Vasco da Gama’ e o seu acesso era visto como se de passaporte para a desejada vida adulta se tratasse. O nocturno, o verdadeiro. Porque, à luz do dia, todos nós, em grupo ou a solo, já lá tínhamos penetrado olhos curiosos a pretexto duma chuinga ou duma laranjada. Tentando descobrir no bucólico vazio das mesas a magia da sua animação nocturna, no olhar a uma ou outra prostituta em espera de trabalho fora de horas, tentávamos adivinhar segredos que a vida ainda não desmistificara. Passaram anos e noites húmidas antes de ousar nele penetrar na sua hora própria, palácio de desejos e tentações revelado em toda a sua cor e ruído, alegria. Timidamente, claro. Mais ousadamente à segunda, claro, como se de veterano desses folguedos se tratasse. Depois mudei de bairro e não tenho memória de lá ter regressado, ganhara outras asas e independências que iam mais longe que o furtivo atravessar duma rua. Mas passava lá em frente muitas vezes, mais de dia que de noite, e havia sempre um olhar cúmplice que trocava com a sua fachada, com os seus velhos dizeres a néon.

Quando a Frente de Libertação de Moçambique entrou na capital moçambicana, após o acordo de Lusaka de 1974, careceu dum local para sua sede e foi o edifício do velhinho ‘dancing-bar Vasco da Gama’ que foi escolhido. Foi simbólica a mensagem que pretendeu transmitir, e eu percebi-a. Mas, quando lá passava e os olhos brilhavam ao fitá-lo, não o faziam só à bandeira das utopias que lá esvoaçava, prometedora; era também ao néon definitivamente apagado, às memórias que ele me induzia, ao tempo do “era uma vez”, vezes tantas que marcaram o meu crescer e ensinaram-me que há mistério e beleza numa puta que sorri e gargalha, seja envolta em gasta capulana ou despida em lantejoulas.

sábado, julho 09, 2005

Para que serve um Amigo, a um 'Frei'?

Abençoadamente para isto.
Embora, depois, venha lamentar-se de que as confissões praticadas não foram tornadas públicas. Ora como tal poderia acontecer, se violaria seculares códigos sagrados como são o da mangussagem e o da confissão?
Quer-me cá parecer que ele, mangusso sabido, com tais golpes de capote mais não pretende que o superior do convento, qual 'inteligente' de vera lide, leve beiças a corneta e ordene a recolha a tumbas e curros deste abnegado missionário pela remição de pecados carnais e salvação de almas.
Mas há os votos que professei e que não posso olvidar, sob pena de as agruras a penar serem ainda maiores que as naturais que me esperam. Desta forma continuarei no meu abnegado mister de difundir o "orare, orare mucho", flagelando esta carne ímpia quando mostra desejos inconfessáveis, rezando por não sucumbir às doces tentações que a missão me acarreta.
Assim, firme, embora com alguns tremores e mal disfarçados suores, cá continuarei a ouvir em confissão petas e veras noviças, mais ainda quando portadoras de tão amiga recomendação.
E que venham mais destas, na minha missão nem há horários nem princípios sindicais que induzam a greves...

quarta-feira, julho 06, 2005

Orare, orare mucho...

Não liguem ao que ele diz. É outra variedade de mangusso, somente. E isto é eterno, é... biológico.
Nos entretantos e enquanto se repara a rede do couto, beijo às pitinhas que aqui deixaram carícias. 'Vi-vos', e estremeci...

terça-feira, julho 05, 2005

Um escanção ao Sol

Saio à rua e o sol inunda-me a face, sorrindo-me e suavizando o mármore que reveste o social diário. Este Sol que brilha e em cujas ondas de luz quente o meu olhar se deleita, perdido oniricamente na beleza fêmea que ressurge, viçosa e sempre renovada em pormenores onde o olhar se perde, saudosamente enfeitiçado. As mulheres portuguesas estão mais lindas cada verão que passa, e a colheita deste 2005 promete ser histórica aos coleccionadores afortunados que dela colham suaves exemplares.

Sem submeter a prova de palato - por reforma compulsiva, esclareça-se, mas como todo o bom profissional não esqueço artes e manhas quando a contraluz adivinho contornos e consistências, alquimias que ressuscitam o predador de castas amordaçado pela vida, e fica este agradável salivar, este olhar que brilha ao Sol que vos revela.

Ámen, mulheres.

segunda-feira, julho 04, 2005

Olá, Sampaio

Eu tinha-te dito, tinha avisado. Estou de olho em ti, nos teus pratos da balança.
Que dizes à notícia abaixo? que vais fazer? instaurar um inquérito, reunir os notáveis, agir, ou novamente olhar para o lado e silenciar?
Dizes-te primeiro magistrado da nação. Assume-o, então. É que racismo e xenofobia são crime no teu país, não laves as mãos. Age. Age porque se tu não tens poder para isso ninguém o tem. E não é por mim e por estas letras em raiva que nunca lerás, nem pelos milhões que olham desiludidos os teus silêncios: é pelas vítimas. Pensa nisto.
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(notícia extraída dum jornal de que não apurei nome, mas que hoje circulou na Internet tendo-me caído no colo:)
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O presidente do Governo Regional da Madeira manifestou-se, domingo à noite, contra a entrada de emigrantes na ilha da madeira.
No encerramento das festas «24 horas a bailar», em Santana, Alberto João Jardim, criticou a entrada em Portugal de emigrantes chineses, indianos e dos países da Europa de Leste.
«Portugal já está sujeito à concorrência de países fora da Europa, os chineses estão a entrar por ai dentro, os indianos a entrar por ai dentro e os países de leste a fazer concorrência a Portugal... está-me a fazer sinal aí porque? Que estão chineses ai? É mesmo bom que eles vejam porque não os quero aqui», disse o presidente do Governo Regional da Madeira..

"o preto"

Naquela camada da população portuguesa que contesta (legitimamente!) a alcunha pejorativa de ‘retornado’, mas que lhe veste pele e consciência pelo repisar e re-repisar de rancores velhos de décadas, mastigando ódios a que dá nomes que invariavelmente não fogem aos de ‘comunas’, ‘o 25 de Abril’, ‘vendilhões’ e ‘traidores’, ‘Vasco Gonçalves’ e os militares, e aqueles de estimação que são ‘Mário Soares’, e ‘Almeida Santos’ e a ‘Frelimo’ – estes dois no caso dos portugueses que viveram em Moçambique, há um que fica esquecido e que é o grande culpado de a descolonização portuguesa ter corrido tão mal para todos eles. É o preto, esse grande esquecido quando os dedos tremem de raiva ao apontar culpados. O 'preto'.
O maior culpado pela tragédia social de 1974 e 75, que arrastou quase um milhão de portugueses a viajarem milhares de quilómetros em fuga a uma realidade que se lhes tornou hostil e em muitos tristes casos ameaçadora à sua integridade física, nas ex-colónias, não foi nenhum dos enumerados nem dos outros que também povoam o imaginário da sua câmara de horrores e de vinganças por cumprir. Nessa galeria falta ‘o preto’, o negro que era assim apelidado e tratado, que foi menorizado durante séculos como se dum animal sub-humano se tratasse, que nas últimas décadas do colonialismo, em pleno século XX e quase até à sua recta final ainda era tratado como ‘o preto’ por qualquer besta boçal que, vinda das Beiras ou de nenhures, onde era explorado não com argumento de cor da pele mas sim de extracto social, via nas Africas coloniais a sua oportunidade de vingar-se da exploração a que fora sujeito, aplicando em dobro o mesmo tratamento a todos os negros que com ele se cruzavam – e eram muitos pois ele emigra para a terra dos ‘pretos’. Em dobro porque utiliza a receita de que se queixava, a exploração, acrescida da dose de racismo que a legitima, que lhe dá segurança e – acredita! a justifica filosoficamente: o ‘preto’ é um homem inferior a ele, ‘branco’, e não se coíbe de lho lembrar sempre que pode, começando exactamente na forma como o trata: ‘o preto’. Qualquer negro é um ‘preto’, um ser parecido com ele, ‘branco’, mas geneticamente diminuído intelectualmente e primitivo nos seus costumes.
‘O preto’ é o grande culpado da descolonização de ânimos eriçados, dos excessos racistas que levaram à migração em massa, ao ‘retorno’ dum milhão de portugueses das ex-colónias para o finado Portugal Continental. Ei-lo, o primeiro culpado. Fosse o fascismo rude e abjecto – como era, fosse o colonialismo explorador de pessoas e recursos – como foi!, mas não houvesse o tratamento de ‘o preto’ no dia-a-dia que compõe a vidinha das pessoas, e a reacção ‘dos pretos’ não seria tão extremada e também mesclada de ódio racial, como ela foi no período de transição para as independências, radical que se mostrou no erguer de tantos dedos injustos a apontar culpas, com critérios defuntos de mais além que a cor da pele.
Foi ele, ‘o preto’, essa humilhação contínua e diária que se ministrava nas ruas e nos empregos, nas conversas que todos os ouvidos sentiam, até nos olhares que se trocavam, arrogantemente superiores quando no espelho deles estava um ‘preto’.
Descobri-o, o grande culpado. Foi ‘o preto’.

sexta-feira, julho 01, 2005

"Espinhos da Micaia"

O caranguejo moçambicano, por Fernando Lima
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Um diplomata africano em Washington, dizia-me há uns anos, que um artigo num jornal de referência é mais importante que dezenas de relatórios feitos para influenciar contrapartes.
Os diplomatas moçambicanos devem estar particularmente satisfeitos com a peça que o “New York Times” (NYT) dedicou recentemente ao potencial turístico moçambicano.
O país é descrito como “a estrela emergente de África” e o seu entusiasmado articulista compara a Av. Julius Nyerere a uma espécie de Saint-Tropez africana.
Longe vão os tempos nos dias que correm em que “no news were good news” (é uma boa notícia que não existam notícias), quando o Moçambique era apenas espaço de jornal pelos massacres e calamidades naturais.
A prosa do NYT é requintada e imaginativa, e vai do mergulho aos corais em Inhambane à cozinha moçambicana apaladada com “especiarias brasileiras” , com o toque asiático na herança ibérica(sic). Belisquei-me várias vezes para ter a certeza do que estava a ler, incluindo os comentários Maputo, uma das capitais mais seguras em África.
Este não é certamente o país em que os emergentes “resorts” turísticos são descritos como miseráveis cubatas melhoradas onde paira o mais abjecto racismo, onde os moçambicanos ocupam os degraus mais baixos do emprego, onde os barcos desportivos sul-africanos se dedicam a exportação ilícita de pescado. Onde o mergulho é uma actividade altamente suspeita, pois trata-se de subtrair ao país os imensos tesouros que repousam no fundo do mar, mesmo em frente do nariz do mais comum dos cidadãos. Não é prosa ficcional. Leio estes terríveis relatos todas as semanas na imprensa local. Chegados a estes extremos, que país temos afinal ?
O paraíso na terra, versão empolgada de um articulista cinco estrelas de Nova Iorque ou os relatos revoltados que dão conta da construção ilegal de 32 casas na Ponta do Ouro (na realidade são apenas quatro) ?
Nestes tempos conturbados de re-engenharia social e económica o que parece a uns, é visto com outros lentes no quadrante ao lado.
A Mozal pode representar 2/3 das exportações moçambicanas, é sala de visita para qualquer dignatário em viagem oficial e tem provavelmente a mais bem paga mão de obra do país. Mas foi lá onde se desencadeou um dos mais politizados conflitos laborais dos últimos anos. Os bancos, dizem, também pagam bem. No entanto, há um ciclo permanente de maledicência e intriga com sugestões para técnicos estrangeiros serem repatriados “às postas e em sacos plásticos”. Parece também haver uma enorme cobiça pelos lugares disponíveis (ou indisponíveis nos conselhos de administração). A recém privatização do corredor ferro-portuário do Norte foi largamente saudada para logo à seguir estar envolvido em disputas e intrigas , sugerindo uma terrível ciumeira pelo “lobby” do Sul ter ficado por fora da operação.
Os cínicos resolvem estas dicotomias, dessintonias com uma “boutade” filosofal: toda a medalha tem o seu reverso.
No mesmo fim-de-semana em que o NYT debitava a sua prosa, deleitei-me com uns medalhões de carneiro assados no forno importados de um “mall” de Nelspruit, temperados com ervas provençais (certamente à falta das tais especiarias brasileiras), tudo regado com um Merlot 2002, um notável tinto meia - reserva “made in SA”, mesmo à sombra dos imponentes edifícios do SISE, no tal bairro que o NYT diz que as casas são pintadas em tons pastel e têm tectos com telha sul-americana. A anfitriã perguntou-me se sabia a diferença entre o caranguejo japonês e o moçambicano.
Aqui vai o reverso alternativo. Os japoneses, quando preparam os crustáceos, põem a tampa na panela, para que eles não fujam da água a ferver. Em Moçambique, não é preciso pôr tampa. Os caranguejos que estão em baixo puxam os de cima para baixo.
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Gamado aqui

A gazela e a póia

No alto capim que aguarda a queimada eleva-se um bando de pássaros, as suas asas em torvelinho soando nas ondas de calor que dominam a savana como um súbito restolhar de vida na paisagem. Algo os agitou, e os olhos atentos da gazela fixaram-se na vegetação, os músculos tensos e o corpo tremendo de ansiedade receosa, pronta a estender as suas elegantes pernas num fugir pela vida. No céu o Sol brilha com intensidade e reflecte-se nas águas paradas da lagoa fazendo desta saírem tons de prata que dão ao quadro uma beleza irreal.

Por momentos nada sucede mas os seus ouvidos, treinados geneticamente no adivinhar de perigos mil sob minúsculos disfarces, detectam um subtil movimento das copas do capim, que se agita levemente lá na zona onde a sua mancha recebe a sombra do cajueiro, sob o qual os leões costumas descansar à canícula, vigiando a lagoa e os seus frequentadores. Os olhos tremem, nervosos, e as suas patas dianteiras agitam-se, preparando tracção e acção evasiva, a louca e eterna corrida pela vida. Será uma leoa, com outra acoitada na pradaria esperando interceptar-lhe a figa, a vida? um leopardo, veloz e matreiro? ou um crocodilo residente nas águas que a elas regressa para buscar na sua frescura amaino à inclemência da tarde africana, sensualmente quente nas ondas que pairam sobre o capim e fazem este agitar-se mais que na realidade, aos seus olhos receosos?

No silêncio que paira, já as aves se elevaram no azul rumo a segredos que só elas conhecem, nasce de repente um ruído que se lhe torna ensurdecedor e a gazela corre, corre desalmadamente na evasão ao perigo eminente e que os seus olhos periféricos tentam lobrigar enquanto em graciosos saltos penetra nas lonjuras opostas. Não há dúvida, um animal de grande porte investe por entre o capim alto, deixando ver o seu trilho estender-se como uivo ameaçador na sua direcção. E o som, como que um ronco de um rinoceronte enfurecido, como que o urro de desespero da fera que corre no encalço da presa - ela! que lhe foge e escapa às suas garras famintas!... corre gazela, corre, salta como nunca e salva o teu dia, salva a tua vida ao destino cruel da selva!

Momentos depois, os olhos incrédulos dum crocodilo que dormita com o corpo mergulhado nas águas verdes vêm o vulto emergir da vegetação, um humano estranhamente vestido e mais estranhamente afogueado, o que chamam de batina erguida pela cintura, as alvas pernas e as nádegas pudentas expostas aos brilhos impiedosos do sol da tarde que corre dengosamente no firmamento, a calva coberta de suores e a cara em traços de pânico, que, num ápice, mergulha nas águas paradas tentando livrar-se do gang de formigas que lhe cobre o rabo, surpreendido que foi na casta execução duma regimental póia por um exército de térmitas esfomeadas que, de carnes tão brancas e nutridas, faziam privado banquete. Aqui, a gazela travou a longa marcha da liberdade e deixou-se cair na sombra da velha árvore, esmagada pelo riso que as quizumbas soltavam à cena, e, ora, ao seu tenro pescoço.

África é cruel, seja para gazelas seja para padres a obrar.

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