Xicuembo (versão 3.0)

memórias & resmungos do Carlos Gil

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quinta-feira, setembro 29, 2005

Hermafrodita?

Embora a voz continue nas antípodas dumas boxers recheadas, estou desconfiado que a Telma masculinizou-se. É ao vê-la fazer os 0 aos 100 a mamar 15 litros e a encher os espelhos de pobres frustrados acidentais, que se duvida se o pulmão e a garganta não são mais de mangusso garganeiro que de pitinha recatada... Problemas de identidade, ou ando a fazer sexo rodoviário com a boneca errada? Preocupo-me, angustio-me, mas nos intervalos acelero.
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Em tempo: 'de contente me dói um dente'; ou seja: longe de mim reclamar da doce Telma e seus humores. Traveste-se a seu gosto, bebe que nem um marinheiro e dá-me confortos que me põem a ronronar, eu que sou apenas o seu motorista ocasional. De inicial affaire que ameniza bocejos sentimentais, promete passar a caso daqueles que um dia e num blogue qualquer merecerá um, dois, mil posts e, quiçá, um poema em veludo. Smack para ela, sedutora voraz de fôfas estradas e corações devassos...

Mais um início, sem tema ou título....

O Manel vende cintos por atacado, grossista, mais todos os anexos que vão de pastas bem catitas a agendas e carteiras. E têm dois preços: da ‘marroquinaria’ chinesa e tentativas de concorrência, materiais banais que se disfarçam a olho menos treinado por pele de boi sem ter de ajudar a pagá-lo, até à da vaca mais fina da manada, havendo peças tão lindas que quase se vêm as tetas da dita, olaré. Estes são os cintos e as malas carotas, claro.

Da última geração de free-lancers do comércio tradicional, tem clientes de vinte anos em quem, na distância das colecções sazonais, olha-se a calvície e sabe-se do casamento de filhos, mais o que conta a factura que encolhe e se vêm os ombros descaídos sempre que abre mais um centro comercial. Ou é um sucesso que dura e lá foram ficam todos tramados, ou um fracasso com ameaça de debandada geral que os leva a pagar ridicularias pela renda, só para o cc não fechar. Tornando-se subitamente competitivos para passarem metade do ano em saldos e afins, e tramando novamente o lojista tradicional que não tenha acompanhado com atenção e caldos de galinha o calendário. Mas outros vão aparecendo, os grandes também precisam de nichos de compras aos pequeninos, a facturação lá se vai aguentando, e o Manel resmunga, resmunga, mas já é mais por feitio. Fazer trocas de cromos com ele, deverá ter sido uma aflição.

O Manel vive na paranóia do montinho de cheques pré-datados dos clientes, enclipados, que tem num cofre ao lado da caixa com as mortalhas, o maço de cigarros e o canivete, mais o resto. Embora garanta que nenhum deles tem cobertura, não é raro vê-lo a folheá-los com ar sonhador misturado com afirmações convincentes como: ‘eu amanhã vou telefonar a esta gaja’.

Foi o que fez na manhã de quarta-feira. Nessa tarde, o seu olhar cumpria mecanicamente o asfalto e seus sinais, mas quem lesse os seus olhos lia tumultos de emoções. A fase das contas já passara e dela guardava a memória a necessidade de amortizar custos da viagem com a visita a outros clientes da região que agendara à pressa, mas agora saboreava todos os pedaços das palavras trocadas, sugava-as uma a uma para lhes extrair todo o significado e razão de ser daquela afogueação que lhe deram. Só agora ia serenando, as rodas rolando meio país ao serviço duma dúvida.

Mas da pressa e das suas improvisações depressa houve registo, pois lembrara-se na estação de serviço da auto-estrada e ao passar os olhos pelos jornais e revistas, que não trouxera as amostras da nova linha de cintos de golfe, e nas malas que carregara à pressa e sem fazer inventário de conteúdo que confirmasse a memória, estava o mesmo mostruário que apresentara em Março. Paciência, teria de ser por catálogo, mas ele era da velha escola em que havia prazer - e orgulho até! em passar os dedos pela pele, carícia que era meia venda feita caso o lojista fosse no embalo desta declaração de amor.
Eram ainda cinco horas quando estacionou. A tarde de fim de verão era daquelas que promete esplanadas cheias à brisa que vem do mar, ameno afago para quem saiu da canícula de mais um ano seco. Tinham combinado que passaria pela loja quase ao fecho, primeiro jantar e lá é que iam falar. As malas ficavam no pequeno armazém de fundos, e amanhã era o primeiro cliente a ser visitado. Mas nessa noite, e sob o pretexto da conversa calma que deveriam ter sobre a renegociação dos três cheques dela que lá tinha ‘pendurados’, pretendia ouvir novamente a frase que lhe disparara memórias, destapando registos que o tempo arquivara em mais de duas décadas ao serviço da elegância das cinturas a preços acessíveis.

As conversas são como as cerejas e algumas são como o ananás: tem de se lhe tirar mesmo a casca senão não se morde nada. Antes de alongar a conversa para cheques e atrasos há que saber como vão as coisas, pois que vai mal todos sabemos mas há sempre umas luzinhas especiais de que só os comerciantes têm visão, e são todos uns irredutíveis curiosos sobre a cor que os olhos dos colegas delas vêem. Talvez uma variante ao exercício de mal dizer governamental, talvez apenas a versão comercial do snif-snif pelo dinheiro. Foi nesse período de cortesias e periscópios que o nome foi pronunciado, como novidade da terra que se conta a turista curioso para lhe dizer ‘que bem que vamos, ainda para mais agora que...’

O Manel era forte em contas, elogio que recebia há anos no Banco, e que lhe servia de argumento quando oferecia a promoção mais incrível que lhe passara por mãos em tantos anos daquela vida, ou quando executava num ápice contas mentais de descontos, como ele dizia: ‘à Manel, à tonto’; tão sedutores como a linha de cintos com argolas na moda feminina para o próximo Inverno. Por tão bem oleado estar, quando as palavras ergueram em brusco o pano que tapava o recanto, do passado vieram imagens, imagens que tinham números e estes rapidamente se materializaram, com conversão a euro e, até, ligeira correcção monetária que não deveria sentir-se muito afastada da real.

Fora no tempo em que vivia com a Ana, já nos últimos suspiros duma relação gasta mas que as muitas viagens que fazia nas vendas iam aguentado, a um desgaste que tinha sempre escape certo nos próximos dias, quando a pressão aumentava. Nos meses de apresentação das novas colecções sazonais, chegava a passar mais noites em pensões baratas ou em camas improvisadas em casa de amigos, que no remanso do lar. Era muito mais novo e essa vida nem lhe desagradava nem, então, o cansava. Não fora no Verão, fora antes, talvez em Abril. Na altura vendiam-se bem eram as imitações de Lacoste feitas no norte e com fivelas já então vindas do extremo-oriente que ora lhe enchia duas malonas de viagem de mostruários e catálogos de tudo e mais alguma coisa. A factura era de quase trezentos contos e muito dela fora em cintos de golfe, que nunca são monos pois envelhecem com mais elegância que os coloridos ou com arabescos, este ano usam-se mais metais mas para o ano talvez já não e, se a mudança é boa para o negócio, em boa verdade se conta que o seu armazém tinha bastos exemplos do que eram sobras da moda e restos de colecções que as novidades mataram. (...)

terça-feira, setembro 27, 2005

Sex on the road

Como deixei subentendido há uns posts atrás, troquei de 'Mulliner'. Este novo, senhor de confortos que já mereço e fonte de admirações inesgotáveis com as suas habilidades, possui ainda a faculdade de falar, em voz feminina e em língua (sua) pátrea, avisando-me de tudo o que (ela) entenda serem lapsos de segurança. Mas é melga porque tem um bug, e no pós imobilizado, ainda não estão percorridos trinta metros, lá vem avisar-me que a porta do condutor está mal fechada. Avisado do lapso (dela) pela anterior amante-condutora, deixei de testar o erro apontado mas nunca encontrado, e fico-me pelo rogar-lhe, baixinho, dumas certas pragas que podem ser ouvidas por senhoras. Principalmente quando estamos sós, e atendendo a que já somos bastante íntimos. A nossa intimidade já passa por tratá-la por 'tu', e chamo-lhe Telma. É imigrante portuguesa em França e trabalha em Billancourt, na fábrica donde saiu este 'Mulliner'.
Hoje, já com os nervos em franja com o raio da mulher que nunca mais se cala, escrevi este mail à antiga dona, pitinha que entregou-me o espada com mil recomendações e olhar saudoso, lagrimita mal escondida:
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"A Telma não se cala, raio da rapariga! ainda vou a ajeitar o sim-senhor à poltrona, corpo e espírito amainados e em linha de partida para gozo de luxos, e lá vem a chata da franciú mais a sua cantilena - ainda por cima aos berros! o que vale é que até ela já sabe que ninguém lhe liga, e repete, repete, repete porque nasceu assim, filha de curta e má programação.
Provavelmente até ela já está farta de se repetir sempre que a nave se alça às nuvens para flutuar acima dos outros, na sua superioridade RXE, mas por forma e feitio tem necessidade de se mostrar imigrante integrada e boa cidadã, preocupada com a segurança alheia - e também dela pois os vestidos de lata são bonitos mas, amarrotados, devem tornar-se incómodos e nem as pernas e outras peças reveladas deverão ser atractivas para quem tenha um nico a mais de sensibilidade que um bate-chapa cheio de taras por realizar, e facturas por preencher.
Enfim, a nossa convivência está difícil, e eu que sempre me achei um rapaz habilidoso no uso de línguas... Compenso a frustração daquilo que já chamo de 'os gritos histéricos da Telma' com a abstracção que a seguir pratico em volta da sua imagem e das imaginativas sevícias que me induz, assim que se cala, claro. Acaricio o volante, sinto a firmeza das suas ancas no traçado das curvas, lambo devagarinho o negro da estrada como se por ela deslizasse em busca de míticos prazeres, daqueles que se começam bem cedo a sonhar e que se vêm a descobrir na prática como exclusivos dessa matriz, a sonhada. Relaxo então o corpo pousando o cotovelo no seu ombro, sopro-lhe um beijo e pisco-lhe o olho, ouço-lhe o ronronar e julgo-me dela senhor e ditador, amo.
Assim fazemos amor, a Telma e eu, no silêncio daquela sala onde só se ouvem os sonhos e os murmúrios dos pneus que correm, correm sem descanso.
Ainda não alcançamos o êxtase, sendo que convém esclarecer que nem a moça é de velas frígidas nem o piloto tem aceleração precoce. Acontece que a vida não pára lá fora do nosso mundo privado, do cheiro dos cabedais e do conforto da climatização esmerada. Por vezes é necessário sairmos do nosso Castelo e penetrar-se no outro mundo, o vil mundo que fica além dos vidros eléctricos e da segurança do fecho centralizado de emoções. E aí, quando cumprida a penosa expedição e ao tapete de luxos se regressa, a magia do reencontro é quebrada porque ninguém é perfeito - nem sequer a Telma.
Porque insiste na redundância, na chateza do seu politicamente correcto, no bug da sua perfeição. E soa: 'la porte du conducter est mal fermé'. Mérde para ela, respondo-lhe pois j'être amené de force, entre o enfado e a cumplicidade já nascida em momentos íntimos de que mais não conto.
Subscreve-se um amante de tanto, mulheres e carros no primeiro bote"

Poesia do Índico ao Atlântico

No próximo sábado, 1 de Outubro e pelas 17 horas, no net-café-livraria "Copo com Texto", em Almeirim, a voz aos poetas e aos que os declamam.
Confirmadas estão as presenças de: Elsa de Noronha, Nora Villar e Paula Ferraz; Delmar Maia Gonçalves, Fernando Grade e o seu heterónimo Abel Sabaoth, Jorge Viegas, Manuel Matsinhe, Pedro Laranjeira, Renato Graça, e eu e o meu heterónimo José Alberto Sitoe.
Será uma tarde especial. Apareçam...
Nota do dia 3: Foi maravilhoso, só quem lá esteve poderá entender em como a adjectivação é avara perante os momentos de magia poética que se viverem, com um público amante e tolerante, sedento de poesia e também participativo em declamá-la. A minha imensa gratidão a todos os meus Amigos que acederam a deslocar-se a este canto da lezíria, para nos proporcionarem Tanto!

... e nasce Alegre a esperança!

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Eu sei que é 'forte', mas para quem faz ouvidos de mouco tem de ser assim. Kaputt, the end, finito.
Se o mote da candidatura de MS era o superior interesse nacional sob a óptica da flutuante metade nacional que está disposta de vez em quando em votar à 'esquerda', agora e pelas mesmas razões deverá renunciar à intenção de se candidatar.
Reconhecer que cheira demais a (antecipadamente) derrotado, e que esse odor nunca deu vitórias a ninguém.
Aceitar que não é o Sol da terra, e gozar um resto de vida feliz escrevendo crónicas intermináveis sobre os males do mundo, com o título "Eu sempre disse".
Dar lugar a quem, pelo seu carácter humanista, pode melhor desempenhar a Presidência.
E, para que tudo isso possa acontecer, primeiro Vencer; e não sofrer uma derrota humilhante que não seria só pessoal: a sua teimosia política em porfiar no erro ia estendê-la a todo o país.
Fartos de enganos estamos todos nós, e Belém não é S.Bento.

Palavras em atraso

Ontem, no 'Santiago Alquimista', e numa organização da Associação Espaço Rui de Noronha, houve oportunidade para corrigir a mão e dizer muito do que, no meu mal sucedido improviso de Junho, no Galveias, silenciei acerca do meu livro e da sua génese.
Com a promessa de tão cedo não voltar a publicar aqui 'discursos', fica o integral da minha intervenção. A apresentação - brilhante! foi da minha amiga Paula Ferraz, poetisa luso-angolana com um coração enorme, que abriu descaradamente às minhas letras.
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"Todos os livros têm uma história, e cabe por norma ao autor contá-la. O pai da obra conhece ao filho cheiro, sabor e também o amargor, e a ele pertence a primeira descodificação.

Para além das palavras simpáticas e tolerantes que a Paula agora lhe dedicou, com o exagero que só a amizade justifica, há outras que as páginas afloram e que eu não abdico de vos contar.

Este ‘tijolo’, este querido tijolo que é o meu primeiro, é um e-livro pois em outra vida foi escrito, nasceu na Internet. Chamam-lhe vida virtual e até dela dizem ser falsa, irreal, mas não me rala qual delas é a real e qual é a virtual. Em mim complementam-se, e isso chega-me pois nunca direi das alegrias que não existem, guloso que sou de as viver.

Nesta vida, aqui e com vocês, ali fora onde a luz brilha e em cascata de momentos o quotidiano se desenrola, há o viver da vida construída, amores e desamores, lenta comunhão que por vezes sorri, noutras empalidece os sonhos, afinal tudo tão banal como o é viver.

Mas lá, no mundo virtual, reside o reino de brincar onde em momentos que chamo de mágicos o encantamento supera a realidade, e com um teclado e um ecrã nascem nuvens que enchem céus e amainam securas, os dedos brincam, brincam às palavras e delas nasce um castelo, lindo, o nosso castelo. Foi assim que este livro se fez e eu me descobri como o Carlos Gil autor, eu nasci.

Mas não fui original. Padeci do pecado de todos os escritores iniciados, de mim contei e talvez abusei, fi-lo autobiográfico. Tornou-se íntimo, chave de recantos secretos, mergulho num túnel longo de cinquenta anos de viver.

Algum tempo após o lançamento, cruzei-me com um amigo destes amores da palavra escrita que, sem então se aperceber – e até agora ainda não lho tinha dito! fez ao ‘Xicuembo’ – dizendo-o de mim - o elogio mais exagerado e inesperado que me foi dado ouvir.

Mas que me encheu o ego como tal só é possível aos que vivem na expectativa da leitura da sua primeira obra, o tremer dos primeiros passos no baile sabendo que se enlaça tanto, tanto, que o menor gesto de repúdio fará adiar eternamente o beijo por que se suspira.

Disse-me que eu era um “Jack Kerouac moderno”. Assim, sem mais nem menos, prevaricou na amizade e abusou no conforto da palavra amiga, nela estendeu uma carícia à nudez de que me vesti ao escrevê-lo.

Caberá aqui à verdade e à modéstia dizer: quem me dera ser hoje lido, quanto mais daqui a cinquenta anos. E mais tudo o resto, blá blá, blá blá, contente já eu estaria sem a tremideira de meter e tirar acertadamente as vírgulas, neste primeiro degrau de escada que me sua trepar, quanto mais não me engasgar nas vertigens de escrever obra de patamar, onde o horizonte do tempo é naturalmente vencido.

Exagerou, por certo em brincadeira amigável, mas eu gostei e das alegrias há que dar fé. Ele traçou o paralelo pela exposição pública que de mim faço, pela luz que abri em recantos que, havendo-os, normalmente o envelhecer mantém no silêncio constrangido.

É o embaraçoso do viver adolescente sempre cheio dos excessos que lhe são próprios – é afinal o aprender a crescer; mas dessa parte de nós reconheço que não é habitual fazer pesquisas públicas que vão além do gracejo e, se a estes recorri, ao outro lado não me esquivei.

Não tenham dúvidas que escrever é um acto solitário, e o escritor é um ser associal, monstro de egoísmos e de vaidades – olhem para mim e estão a ver um! Quando me refugio e escrevo sou execrável, e infelizmente nem sempre me liberto desse manto de fel quando a caneta se cala e volto a olhar o céu para além do que dele conta a ficção do narrador.

Tenho pena que aqui não estejam alguns daqueles que assistiram ao seu e ao meu crescer, livro e autor. Foram eles, primeiros críticos muitas vezes impiedosos, mas nunca hesitantes em alentar-me com palavras que se relêem sem descanso, que possibilitaram o construir do meu ‘Xicuembo’.

Contei com uma benesse adicional à amizade, e não foi pequena. África, Moçambique e a sua bela capital colonial, Lourenço Marques, pérola do Índico como lhe chamavam aqueles que dela conheceram mais que as memórias dum garoto que lá se começou a imaginar homem.

Esse é o cenário dessas páginas, o fresco lapidar onde cresci, e disso narro expondo sentires. Um sorriso de saudade pelo voo de crescer, o miúdo à solta pela cidade... mas sem esconder as lágrimas que teimam em assomar quando se ousa abrir cofres de segredos, e avivam-se paixões que a História tornou impossíveis de consumar.

Passados trinta anos estendi em letras essas memórias, num sorrir às mais doces que não ocultei ao reviver as amargas. Porque só se é completo quando não se omite nem se silencia, escala-se a vida sabendo que para trás ficam degraus, e que alguns foram dolorosos de subir.

Está aí, tem nome e não é anónimo, fui eu que o escrevi mas já não é meu. É vosso, dos leitores"

sábado, setembro 24, 2005

O escândalo Felgueiras

Como nota prévia quero dizer que entendo que muitos bons autarcas, daqueles a quem as suas populações devem muito mais que meia dúzia de rotundas e uma piscina municipal, vivam preocupados com alguns lançamentos contabilísticos feitos no passado. Aqui na minha zona, bem perto de onde resido, há um que recentemente se apresentou voluntariamente à PJ, vindo a ser constituído arguido face aos desvios orçamentais que voluntariamente denunciou, sendo que ninguém até ao momento, todas as oposições incluídas, põe em causa que pessoalmente não recolheu um cêntimo de benesse com as habilidades contabilísticas que praticou e que conduziram a autarquia à bancarrota de não ter dinheiro para salários, luz ou telefones. Fez obra e obras indiscutivelmente em prol da população mas com os dinheiros errados, sendo que, descobertos os transvazes ilegais, as devoluções e coimas, juros e penalizações levaram-no a assumir e dar a cara pela iminente falência da sua gestão com contas de merceeiro.

Porque a visão dos problemas locais é muito diferente se olhada das lonjuras do poder central ou de gabinetes com janela directa ao problema, e também porque em Portugal está por resolver esse enorme buraco do que é e como se resolve o financiamento dessa parte indispensável à democracia que são os partidos políticos. E houve uma longa época em que todos deverão ter prevaricado no tapar do buraco com areia que não era a própria, também ordenando rotundas com dinheiro de piscinas e vice-versa, enfim, tornados elásticos e de vasos comunicantes orçamentos cujos rígidos cânones a displicência do desenrascanço à portuguesa ignorou de rigor. Claro que com o tráfico de influências anexo e o aproveitamento pessoal em muitos tristes casos, estes os lados mais tenebrosos desta tentação de tentar escrever mais direito por linhas graficamente tortas. No caso de Fátima Felgueiras provavelmente bastante da primeira parte do retro se aproveita, embora haja por lá e visível processualmente a compra dum Audi um bom bocado mal explicada.

Mas o que li hoje no jornal Público (link só para o título, o corpo da notícia só é acessível a assinantes on-line) deixou-me a soluçar por um dos pilares da minha fé: a Justiça e a sua independência, que embora seja habitual bombo da festa da falência nacional, sempre olhei com olhos muito mais crentes que o inverso, e acreditei que eram muitas mais as vozes que os pardais. Acredito na sua necessidade imperiosa para a sociedade manter a cabeça acima da linha d’água e, reconhecendo-lhe as tantas imperfeições, não sou nem nunca fui cego às suas virtudes. Sem uma Justiça independente está a selva instalada e nela só as feras sobrevivem, até se distraírem.

Factos e horários relatados na notícia:
i) às 15,30 Jaime Gama, nº 2 do País, recebe um telefonema e comunica ao líder parlamentar do grupo maioritário e suporte do governo, que a decisão do Tribunal será a de revogar a medida cautelar de prisão preventiva;
ii) Fátima Felgueiras chega ao tribunal pelas 16,00 horas, e começa a ser ouvida pela juiz uma hora mais tarde;
iii) a decisão judicial de revogação do mandato de captura é tornada pública pelas 20,00, quatro horas e meia após o tal telefonema a ter denunciado.

Antes e depois – ainda em curso – há a novela dos avisos e negociações prévias ao seu regresso ao país e comparência a juízo, com advogados, polícia e partido envolvidos. E a notícia relatada merece desmentidos que soam como excessivamente curtos, e por isso pouco convincentes face à gravidade do relatado.
Já no mais atrás, recordo-me que foi um aviso com origem no tribunal da Relação que precipitou a fuga para não ser detida. Mas, aí, há que entender que a burocracia faz com que os papéis passem por muitas mãos e qualquer escriturário pode ter tido a eles acesso, e por qualquer razão ter praticado a fatal inconfidência. Imperfeito, mas plausível.

Diferente é uma decisão judicial ser conhecida antes de ser tomada, sendo que não se trata duma a tomar exclusivamente pelo estudo dos factos vertidos no processo e que, portanto, o juiz formula a sua decisão e só depois a escreve. Aqui, a audição da arguida é fundamental e, sem ela, é impossível tomar uma decisão em consciência, justa. Ou então cai-se na fantochada, é mais um prego na urna da credibilidade do sistema judicial.

Só que desta vez é uma cavilha, e das grandes. Pela conivência a um nível excessivamente perigoso. Por outro tráfico que não o dos favores autárquicos, mas a nível de Estado e numa promiscuidade insuportável. Porque nem eu nem ninguém acredita que foi um dirigente partidário de baixo ou médio gabarito que ‘negociou’ a decisão. Quem telefonou à juíza negociando, solicitando, influenciando, prostituindo a sua (futura) decisão foi alguém da sua hierarquia, que por sua vez recebeu ‘conselho’ dum peso-pesado colocado bem alto.

O fim da separação de poderes, da independência judicial. Da Justiça como a entendo, que passa a não merecer maiúscula por dela desmerecer. A porta para a selva levou forte encontrão com o caso Fátima Felgueiras, há escuridão a mais para que possamos sentir a segurança mínima que nos é devida quando olhamos para o poder judicial.

sexta-feira, setembro 23, 2005

Leituras de bica: uma que valeu a pena

Pelo menos aqui na região Centro é quase impossível não se passarem os olhos pelos jornais populares, aqueles que conseguem as (para nós) astronómicas tiragens com escândalos na primeira página, verdadeiros, metade-metade, e até totalmente inventados.
Basta entrar-se num café e o corpo pedir a bica para a mesa que, se não fomos precavidos com outra leitura, caiem aos olhos os inevitáveis desportivos e... o "Correio da Manhã". Que acaba folheado, claro, numa mistura de perplexidade em como há pessoas que ganham a vida assim, transformando assuntos de bairro em casos nacionais, e outra que não é menor com a cambada de tarados que há no nosso mundo e no dos outros.
Das notícias políticas passo os olhos pelos títulos, uma leitura transversal e, de vez em quando, lá vai uma de cima a baixo. Desta vez a crónica de João Marques dos Santos obrigou-me a lê-la até ao fim. Ora leiam vocês o porquê..., que o tema é bem mais importante que as eleições autárquicas, mera consagração pimba num país profundamente pimba. É que, tratando-se das 'presidenciais' como se trata, há que ter mais cuidado com a pimbalhada que se avizinha pela calada, muito perigosamente pela calada.
Espero, muito sinceramente, que a tiragem de hoje tenha sido das gordas e que os olhos não tenham só procurado, voyeur en passant, as violações e os assaltos, a carga de porrada que ele deu nela e toda a vizinhança ouviu mas ninguém se mexeu, as entrevistas e as notícias do nosso triste futebol.
Desta vez a bica soube-me bem e, claro! recomendo-a.

Uma idade bonita

quarta-feira, setembro 21, 2005

O colonialismo português

"... Passámos séculos a fugirmos da míngua daqui para enriquecermos lá. Parámos os africanos, reduzindo-os ao nível da brutalidade máxima. Andámos com eles metidos nos porões negreiros a vendê-los para fazer a Europa e as Américas. Espetámos nas suas terras paus com a nossa bandeira. Fornicámos que nos fartámos, espalhando mestiços. Gozámos privilégios de brancos de que guardamos as saudades das praias, dos liceus, dos clubes brancos, dos cinemas para brancos, dos passeios para brancos, das pastelarias para brancos, das avenidas largas e compridas, do calor húmido que esquenta o sangue, dos bailes com corpos colados, do pôr-do-sol, das zebras, dos rinocerontes, dos imbondeiros, das acácias, dos jacarandás, da bolanha, das bajudas, dos régulos e cipaios patuscos, do artesanato, dos jacarés, das ostras e camarões, esquecendo sempre os pretos na terra dos pretos ou olhando-os de dentro de quartéis ou de cima para baixo num encontro de rua ou na contratação de criadagem. Nas poucas escolas, obrigámos a que eles decorassem os nomes dos rios portugueses, das nossas montanhas e dos nossos caminhos-de-ferro mas nunca deixámos que eles dominassem a língua dos seus avós. Respondemos com metralha quando eles nos gritaram que todo o domínio tem prazo. Fomos sádicos, matando-os sob pretexto que eles eram portugueses do Portugal do Minho a Timor. Em vez de arados e livros, oferecemos crucifixos, balas de G3 e “aldeias reordenadas” para melhor os termos debaixo de olho. Deixámo-los, enfim, constituírem-se em autónomos com países feitos em merda, sem quadros, elites ou classes médias. Continuamos a chorar os bens “espoliados”, os “crimes da descolonização”, a abastança perdida, os quartéis abandonados, as estradas esburacadas, a bandeira arreada, mais o preço que pagámos para se amealhar um punhado de “cruzes de guerra” e de “torres e espada” através de tantos corpos e almas de brancos fardados que foram para o galheiro..."
Obrigado João. Nunca é demais repeti-lo, e tu faze-lo sem papas na língua ou na caneta.

terça-feira, setembro 20, 2005

Again...

No próximo dia 26 de Setembro, às 17 horas, no Santiago Alquimista* e numa iniciativa do Espaço Rui de Noronha, haverá uma apresentação de livros de autores seus associados. A apresentação do meu Xicuembo estará a cargo da Paula Ferraz, escritora angolana que me arranjou este caldinho de ter de esgalhar umas palavras até lá...
Além do meu estarão livros de mais autores, moçambicanos ou de alguma forma com ligação à África ex-colonial portuguesa. Que, se me excluir pela razão óbvia, garanto, juro e avalizo que costumam valer o investimento na sua leitura.
Quem puder que apareça, ok?
* em Lisboa e perto da Sé, um pouco acima do Centro de Estudos Judiciários (antiga cadeia do Limoeiro) na Rua de Santiago, nº 19

segunda-feira, setembro 19, 2005

(ainda sem nome: o princípio dum capítulo*)

Pitas


A tarde corre dengosa, pelas montras adivinha-se quente lá fora porque no café o ar condicionado cumpre, e há um suspiro de prazer em todos os que estão. Naquela cidade, ‘a terrinha’ como costuma dizer mordazmente, são poucos os locais onde os confortos dissimulem a monótona tristeza de lá viver, enterrada na rotina de aulas e família, sonhando sempre com evasões que ainda não chegaram mas que se prometem conforme o crescer vai triunfando e o futuro quase que assoma em cada pequeno passo cumprido no lento emancipar.

Somos três na mesa. Primeiro éramos dois e eu gostava que assim tivesse continuado, mas depois chegou a Ana que comparou o bronzeado com o do Luís e desfiou o relato das férias, tão cheio de originais como é um filme de enlevo e muita praia que dura quinze dias. Impagável a Ana, e as suas paixões de verão... não que no resto do ano fosse delas avara mas aquele bronzeado mostrava-se uniforme demais para que às tardes de sol tivessem sucedido noites castas, é todos os anos a mesma história... dois é um número perfeito, e três soa como demais principalmente quando a Ana ameaça tornar o meu o excedentário. Eu e o Luís tínhamos chegado há meia hora atrás. Mandara-me um sms ‘a kombinar’ e lá nos encontráramos. Gostava dele e não me importava nada se ele se atrevesse, se soltasse em cima de mim as suas hormonas, enfim, se se atrevesse a saltar em cima de mim...

De momento não andava com ninguém, e nem ele que eu soubesse. Na escola éramos de turmas separadas e, nos intervalos e na pastelaria fronteira, via-o muito com a Célia mas nem beijos nem mãos dadas, abraços, nunca vira nada que sustentasse o ciúme que sentia quando os via juntos. O Luís era bonito e divertido, algo tímido mas isso até lhe dava charme. Os seus caracóis negros geravam-me impulsos de carícias que reprimia no secreto desejo de neles mergulhar os dedos, enfim, eu perdida nestes pensamentos acerca dos caracóis do Luís e, reparo, a Ana já lhe segura o braço com mais frequência do que eu gostaria. Cabra. Tenho de ser eu a avançar, senão lá vai ele para esta predadora bronzeada!

As mesas vão-se enchendo, são quase todos malta conhecida. A Mizé, a Falhocas, a Cátia. Noutra, duas que não conheço com o Toy, que me faz um grande aceno quando repara que estou a olhar para eles. Aborrecida com o assédio da miss bronze ao patinho, e também curiosa sobre quem serão as duas novidades que estão com ele, levanto-me e vou até à mesa do Toy, beijinho beijinho beijinho, e elas chamam-se Teresa e Guida, são primas do dele e estão cá a passar o fim de semana. Um pouco reservadas mas isso é natural pois não são de cá e não conhecem ninguém além do priminho.

Em duas miradelas vejo que a cadela com cio já está pendurada no ombro do Luís, e ele está parvo, derrete-se a mostrar-lhe qualquer coisa no telemóvel. Provavelmente mensagens porcas pois a marcha nupcial não é certamente, para o evitar estou cá eu e ela que se cuide, digo-lhe com um grande sorriso quando o olhar dela se cruza com o meu, após ter sentido alguma retracção dele quando me surpreendeu a olhá-los. Bem, se não quero perder a parada tenho de avançar, e rápido.

Entretanto o Toy anuncia às priminhas que o que está a dar naquela pasmaceira é a ida à discoteca e que não vê problema algum em os pais delas autorizarem indo elas na sua companhia. Esta autoconfiança dos primos aborrece-me, pois conheço o estilo. Levar carne fresca em que não estão interessados, confiantes em que os outros se atirem a elas e deixem campo livre às suas conquistas one disco night. Pois. Elas que se cuidem, pois cinco minutos após terem entrado já o primo fugiu deixando-as rodeadas de galitos a babarem-se... Mas olhando melhor para elas até acho que não me devo ralar, nem elas por certo serão moças para o fazerem, provavelmente até lhes convirá mudança na ementa. É a selva, é a selva e a Ana lá está de novo com a mão no braço do Luís, os bronzeados fundindo-se enquanto os meus neurónios vingativos também se fundem de tanto imaginarem cenários de tortura à promíscua e de salvação ao príncipe, entrecruzados com visões de cetim para o bronzeado do Luís fundido com as minhas sardas.... et voilá!

A última vez que me apaixonara fora por acaso. Quatro anos mais velho, P. tivera relutância inicial em aceitar pacificamente que desejava mais que mirar-me o decote, que o salivar que me humedecia os lábios quando para ele falavam era um convite para ser aceite. Bem, um dia fê-lo e começamos a andar. Por aí fora, talvez ao fim duma semana e numa tarde dum sábado em que os pais dele foram a um funeral lá alegramos o nosso namoro até então normalmente encalorado com a sempre emocionante experiência de misturarmos as nossas roupas no chão do quarto. E quando dei por mim estava mesmo apaixonada... já não ‘andava’ com P, amava-o. Os carregamentos no telemóvel começaram a durar ainda menos, na minha vida os passos fizeram carreiro ao encontro dos dele, suspirava quando estava longe e suspirava quando lhe bebia a presença.

Terminou ao fim de quatro meses. P. arranjou emprego em Tavira, num hotel, e após dois fins de semana intercalados por quinze dias em que cá veio visitar os pais e, de fugida, fizemos amor, nunca mais voltou à terrinha e vim a perceber por sms que a razão do seu telemóvel estar tantas vezes em off tinha mais a ver com mouras que com horários de trabalho apertados.

Juntei os cacos e jurei horrores, mas no verão que se sucedeu estive especialmente atenta às reuniões familiares que acertavam as férias, tendo votado vencedora na costa alentejana. Nunca mais o vi, por vezes cá fala-se nele mas com o tempo deixei de sentir um aperto no peito quando dele ouço memória, e mesmo a nuvem vermelha de sangue que me toldava o olhar quando o visualizava amouriscado, ganhou tons menos dramáticos.

E eu perdida na minha arca de amores e desilusões e na mesa já se juntaram a fera bronzeada e a presa babada, já as primas entre risinhos trocam números de telélés com todos, a marcha para a festa da noite já corre e tenho de me inteirar de quem, quando, onde e como, enfim de como fazer o assalto ao Luís no próprio buço bronzeado da querida Ana, que me sorri muito candidamente. E eu retribuo-lhe, claro. Ó como somos todas amigas, principalmente com as calças de que se fala à vista!

Bebi o resto da cola e despedi-me, ansiosa por voltar a casa e por um banho, um jeito ao cabelo e escolher os trapos para arrasar à luz da disco e aos olhos do Luís. O pai não estava, por certo estava no café a ler o jornal (...)
* vai para a 'Maria'.... lol

Umbigo migratório

Há momentos que quase valem uma vida. Acrescento o quase por respeito aos cinquenta anos em que vivi no limbo onde o fútil é rei, soberano asfixiador de muitas das melhores razões porque vale a pena viver.
Está esquisito o discurso? Adjectivado sem modéstias e prenhe de exagero, do início ao final? Fiquem para ler o resto, por favor.
Primeiro, senti-me útil; segundo, acompanhado; terceiro, realizado e, quarto e final, li nos olhos da minha família mais próxima coisas que não conto mas que vocês adivinharão. Vou tentar…

Fora convidado pelo Jorge Viegas a participar num colóquio num incerto ‘centro comunitário’ da Qtª do Conde, em que o tema a debate seria “Migrações”... ‘- O quê? e em que é que eu posso, com esse tema, dizer algo que valha a pena? nem penses! – Fala de ti, Gil. É o suficiente, fala da tua experiência”.

E pronto, passado o tempo dos resmungos abandonei-os e dei-me ao trabalho, e escrevi sobre a minha visão pessoal dessa palavra tão grande e simultaneamente tão pequena como é a ‘migrações’, quando se a conhece na primeira pessoa. A final do post deixo o teor integral dessa intervenção, alinhavado com valiosa ajuda desta pitinha aqui.

Os órgãos de comunicação social gostam de citar os políticos quando eles falam em ‘temas fracturantes na sociedade’, o debate sobre o aborto, o dos direitos de algumas minorias, etc, e até me lembro de certo verão em que, por mais bimbo que hoje o pareça, a discussão sobre a utilização do preservativo no sexo 'one night stand' alcançou o tal patamar dos tropeções éticos e engasgos de vozes públicas, o de ‘tema fracturante da sociedade’.
Neste hoje, em que nos afogamos com arrastões e outro peixe miúdo que mais não arrastam que sentimentos xenófobos e racistas para a crosta da sociedade, as migrações são um dos tais, dos fracturantes. Pois se até o Vice-rei Bobo, D. Jardim, sobre ele se debruça e cospe os seus perdigotos...
É-o porque a integração dos imigrados é uma miragem e negar os problemas que existem, pela sua ausência nascidos, é pôr a tal peneira a tapar uma luz que ninguém pode ousar dizer que está tão baça que não a vê. Terá acontecido o mesmo com os ‘nossos’ tios e seus filhos, na França dos anos 60’s e seguintes? Eles ou seus filhos, representaram um problema social de integração nas sociedades de acolhimento, foram ‘fracturantes’? actualmente, já muito para além do hexágono, também numa Suiça, Alemanha, Grã-Bretanha, outro país qualquer pois continuamos fervorosos da (nossa) emigração proporcionalmente à aversão que demonstramos à imigração (dos outros)?
Até na ex-África colonial lusa, onde, pelo que ouço, a maioria dos nossos emigrantes - lá imigrantes de luxo se comparados com os que cá temos, vivem entre si em condomínio fechado, soberbamente à margem das sociedades e cultura locais, e sem procurarem uma integração que vá mais além do recriar e reviver do velho fausto colonial, modernizadamente encoberto, protegido das novas elites pois é fonte de negócios e negociatas e ponte para com a ex-metrópole que ora exerce fascínios consumistas mil? Migração é mesmo tema fracturante, seja ele visto de que ângulo for...

Recentrando-me no tema e atenta a abordagem proposta, entendi dele falar numa leitura positiva, e felizmente os meus colegas de intervenção pouco oscilaram na mesma opção. Se o mote de falar de mim e das minhas migrações era entendido como viável e até útil, o não ser estrondoso exemplo de sucesso pessoal também não afasta a verdade de não o ser de insucesso ou de problema de integração. E com essa bússola apontando a rumos positivos redigi a minha intervenção, afinal foi assim que todos traçamos passos e redigimos as nossas intervenções.

Antes, houvera o convívio com tantos amigos que já não via há largos meses. O Viegas e a mulher, Arnalda, o Delmar Maia Gonçalves e a mulher, a artista plástica Filipa Gonçalves, o Renato Graça e o Manuel Matsinhe, a Elsa de Noronha e a Paula Ferraz, e um amigo muito especial que leio diariamente mas que muito raramente tenho tido oportunidade para gozar o seu convívio: este, que não perde vez nem meia linha para, exagerando, dar-me mimos que me sabem bem, guloso crónico que sou. E aproveitar para conhecer outros, como a doce Olga Santos que a final do meu ‘discurso’ brindou-me com as suas lágrimas e um beijo, dando-me as palavras mais bonitas de todas ao dizer que encontrara um irmão. Como é possível que eu, campino sem cavalo e saco de saudades eternamente por saciar, não me sinta içado a pedestal de homem válido, de ideias e palavras úteis, se outros que admiro por obra e fama dizem-mo, com lágrimas bonitas em sorrisos que nunca poderei esquecer?

E houve ‘Nora Villar’. Houve a minha irmã, a minha Milly, a outra parte de mim que há meio século luta por libertar de dentro duma ‘vidinha’ o tanto, a tanta ternura, a artista que em si vive quase sempre amordaçada. Soltou-se, como que aproveitando a deixa das migrações falou da sua, expôs a intimidade de tantos anos de silêncio. Foi comovente, especialmente para mim que tanto dela espero e há tanto tempo. Foi-o também para todos pois as palmas não se regatearam, especialmente da moderadora do colóquio, a vereadora da cultura da câmara de Sesimbra e também escritora, Felícia Costa.

Negativo e frustrante foi não ter havido oportunidade para debate com a assistência, pois os oradores foram muitos e o relógio castigou-nos. Ficou portanto um travo de falta, de pouco para o tanto que o tema trás para debate. Outra oportunidade? com certeza, até porque ficou prometido pela edilidade promotora. Eu não faltarei.

Deixo agora o texto integral da minha intervenção. Vale o que vale, vale sinceridade e emoção, únicas armas que tinha e não fiz pejo em usar face às minhas carências em trazer outra valia ao debate.

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“Primeiro devo dizer-vos que de migrações pouco sei além das minhas, algumas foram, e delas passo a contar.

Andava na antiga primeira classe, na Covilhã, quando os meus pais decidiram migrar em perseguição do sonho africano, crendo que a assunção do mito do império nos daria uma vida mais distante da modéstia do dia-a-dia sempre curto. Era a esperança noutro viver.

Há erros que vêm por bem, e por via desta ilusória rota das caravelas eu e minha irmã recebemos o bafo de África, quente, terno e sensual.

Essa foi a minha primeira migração, e por ela cresci como enxerto colonial na frondosa árvore africana.

Quando acreditava que conseguia escalar todos os seus ramos, e no mais alto faria o meu ninho, um dos grandes ciclos da História faleceu de caduco e, no seu ruir que gerou vagas impiedosas ao pormenor humano, eu migrei novamente.

Regressei a este Norte que vi e bebi como gélido, reconstruindo-me nesta pele que então vesti, encasacada em tanto que me era estranho, hostilmente diferente da tropical sedução que abandonara.

Como a idade era outra, e da troca não entendi vantagens que fossem além duma mítica segurança, a minha segunda migração teve dores que ainda hoje me murmuram saudades doutro que fui.

Cresce-se, acasala-se, ambienta-se. Nas dúvidas inventam-se certezas. No amadurecer descobrem-se seivas que ajudam a sorver o quotidiano.

Do bi-migrado constrói-se o integrado; mas quando os dias empalidecem e as noites correm lentas, os olhos encontram na memória cantos e cantares que não morreram.

Da árvore que trepei, sonhando o cimo da sua copa, sobra em silêncio uma lágrima que não a esquece.

Por vezes costumo dizer, a título de desabafo apressado aos que me questionam sobre a minha dualidade de sentimentos – europeu por nascimento e posterior adopção, africano por vivência e paixão, que quem foi beijado por África nunca de tal beijo se esquece.

Eu não fui beijado, foi mais profundo. Fui seduzido em corpo e emoção, e desse amar violento guarda a memória carícias de que não me evado nem emigro, é tão envolvente como o é uma paixão.

E que se vive no remanso do silêncio, até um dia…

Quando pensava que o ciclo estava completo, e as cãs induziam a um manso Outono, nasceu a terceira migração.

Evadi-me ao quotidiano, despi-me de mantas e de anos e renasci noutro, sendo que dele não houvera prévia noção.

Pela palavra reconstruí-me e nela encontrei novo abrigo, viajei dentro de mim e saltitei feliz na sua construção. Migrei para um mundo novo onde a árvore é tão bela e tão frondosa, que leio-me incapaz de dela colher todos os seus encantos. Sonhei-me ‘escritor’ e consegui alcançar o ramo de ‘autor’.

Este é o meu terceiro país, de todos o passaporte que beijo com mais calor, pois nele coexistem os outros e todos os mais que eu queira, reais ou imaginários.

É finalmente a árvore cuja sombra me dá descanso, são as folhas que me cobrem e afagam os frios da vida, os frutos que alimentam o já premente empalidecer.

É este o meu mundo. Migrei para a palavra e nela leio a minha nacionalidade, nela recrio e releio todas as outras do passado. Migrando pela vida, construí a minha realidade.

Entre outros significados, o dicionário aponta à palavra ‘migração’ o de: “viagem de dois sentidos, feita por certos animais em épocas periódicas e regulares”. Acho que cumpri a definição.

Sem deixar para trás traições ou desamores, completei o círculo e por acidente histórico regressei à minha terra de origem, de onde migrara no tempo dos calções e dos joelhos esfolados. Finalmente, em construção escrita tracei passos e estendi carícias, nos seios da escrita alimento o respirar do ocaso.

Parecerá soberba, mas atrevo-me a dizer que pelas migrações realizei-me, e hoje e por elas reclamo lugar ao meu sorrir.

Termino com uma dúvida: vivemos nas ilusões que criamos ou, migrando nelas, recriamos o viver? ao encontro da nossa própria sombra, da nossa árvore?"

sexta-feira, setembro 16, 2005

Fim de semana

Vou 'bazar'... melhor: vamos todos 'bazar', eu, Webina e Webita. O almoço de sábado será a ver o mar, provavelmente em Sesimbra, à tarde estaremos na Qtª do Conde num colóquio sobre 'migrações' para onde tenho alinhavadas umas palavras. Ao fim da tarde vou espreitar um carro para os lados de Almada - sim, estou a pensar mudar de 'Mulliner'..., e o jantar será em Carcavelos com amigos, em casa de quem iremos dormir.
Domingo... será o que calhar, mas tudo o que vier é bom, é fora desta malvada rotina, hábitos e cenários.
Então até segunda, se não for antes. É que, para variar, todos os amigos com quem me vou encontrar incluindo os da casa em que vamos ficar, são igualmente netdependentes, e... lol

quinta-feira, setembro 15, 2005

Mais mundo, mais Europa

Há um serviço cívico ao país que, por não executado, é uma das raízes do tanto de que falamos, queixando-nos.
Mancebos e mancebas, atingida certa idade, deveriam finalizar os estudos ou iniciar estágio profissional fora de fronteiras, o caldo final da sua formação devia ser no exterior, "verem mais mundo".
A ficarem cá correm o risco de só de cá saírem para uma semana em Cuba ou numa praia brasileira qualquer, pose turística sem nada adquirido.
E que lhes faz falta, mancebos e mancebas, eles o futuro de nós. Uma nova e mais aberta visão sobre mentalidades e comportamentos, um início do Futuro.
Desses poucos anos lá fora, tanto que, depois, íamos receber....

sábado, setembro 10, 2005

Das doenças benignas

Não sou pessoa de desejar falta de saúde a ninguém. Será das piores maldições que se podem atirar, seja a um, uma família, um grupo social, em extremo a um país inteiro.

Com isto quero dizer que Mário Soares não me deve levar a mal por desejar-lhe uma maleita assim a modos que ligeira* mas que faça telejornal, para capear uma nobre retirada de candidatura.

Será uma doença até poética, um benuron pela saúde do país.

* diarreia, tosse, pingo no nariz ou pé-de-atleta, unhas encravadas ou flatulência, os assessores que escolham e um médico trimaspeano que passe o atestado que uns assustados muitos por cento desejam ler

Trovas do tempo que passa

Ontem a filhota Carla perguntou-me se eu estava a ficar hippy.
Chiça, como fiquei vaidoso, contente, eu sei lá!

quinta-feira, setembro 08, 2005

Cinto de segurança, com fecho em MB

Uma opinião, um contributo, antipático. Há que o ser, se necessário. E que gira à volta do seguinte:
Tenho em mim que a soma das multas por infracções ao Cód. da Estrada não debitadas e portanto não cobradas, formam um bolo com volume suficiente para abastecer a paupérrima mesa onde o Orçamento de Estado faz figura de sopa dos pobres, com valor suficiente para equilibrá-lo e até com sobras para uns luxos. Claro que não duraria mais de dois anos esta colecta-dilúvio, e aí é que está a graça e o verdadeiro lucro.
Nesta tragédia cívica de conduzir em Portugal, os que o fazem fazem gala em prevaricar por dá cá aquela palha, puro vício filho do desleixo, e os que ainda não conduzem estão psicologicamente formatados para seguir a moda esmerando-se, e pelam-se pela 'carta' para poderem ser iguais ao pai e ao tio, ao vizinho e ao amigo, a todos os seus heróis conhecidos e desconhecidos que lhe dão as aulas de código que considera verdadeiramente importantes.
É uma tragédia que, directamente, tornou o país não ardido noutras cinzas se calhar até mais tristes e cinzentas que aquelas que ainda fumegam, ora que a sua saisson está a terminar. Que moldaram a serpentina das estradas numa distorcida escola de xicos-espertos, com distribuidores de senhas para as urgências hospitalares em cada curva excedida, em cada ultrapassagem desnecessária, em cada acto homicida e suicida que não aconteceria se, simplesmente, houvesse outra forma de pensar, outra mentalidade. Cada quilómetro é um número de roleta que nos aproxima da urgência, e talvez provenha daí a pressa cega em chegar rapidamente e custe o que custar a qualquer outro à nossa meta, à cirurgia de último recurso. Uma mentalidade, a letra do nosso fado que cantarola a miséria e que de boca em boca, de geração em geração, perpetua este correr insensato, este abuso de todos e de tudo como forma de viver.
Por força da farta colheita de coimas, que faria jus à penalização da inconsciência infractora como forma despreocupada de estar e viver, essa mentalidade era forçada a mudar. Reparem: não falo de se ser multado por uma infracção em cem, uma em vinte, uma em cinco. Falo num cenário ideal em que há infracção e a multa é automática*. Elas são escalonadas segundo o descuido ou o abuso, são pequenas para aquele mas severas para este. Para a pequena infracção, o descuido, o arrombo pecuniário é pequeno. Mas se praticado como forma de viver ele cresce proporcionalmente, e nenhum orçamento lhe é indiferente. Aí o comportamento muda, e com ele a mentalidade.
A sinistralidade evapora-se, acredito e juro. Incluindo a comportamental que transformou cada sector da sociedade, cada pólo de cidadania ou de economia, ou de ou de, numa urgência, em tantos casos também ela ardida, servindo as suas cinzas de placebo enganador para os que gritam a dor. A de cada verão num horror em fogo, cada inverno noutro doutra coisa qualquer, os anos arrastando-se num suplício de viver baixando os olhos, quase envergonhado, quando se murmura aos dias que passam "eu sou português".
Falo num cenário ideal, eu sei*. Mas bastavam dois anos para as contas se acertarem, incluindo as da grande dívida que nós, prevaricadores de mentalidade, temos com o sucesso adiado, com o gorar de futuros que deixamos em legado aos que ainda só ambicionam a sua 'carta'.
Conta quem disso sabe que lá fora grassa também a crise, e que não há sociedade que não a sinta. Eu, que daqui não saio nem por bem nem à força, acredito mas não retiro consolo. Pois vejo e adivinho que a nossa tem outro ovo, outra cor e outro cheiro, tresanda a irresponsabilidade, à ilógica do abuso, à mentalidade que nos adia a felicidade de bem proceder. Por aí, cá, a crise é mais dura pois falta-lhe muda de fronhas à almofada do bem pensar que gera o bem fazer. A mentalidade. Esta almofada que temos está demasiado suja e é perigosamente insegura para circularmos assim, inseguros, atropelando no código tudo e todos, seja nas estradas seja nas florestas, seja nos impostos ocultados ou nos subsídios desviados, seja em que letra for deste fado de mal viver.
Dois anos chegavam. Faça-se das tripas moedas por dois anos, e rapidamente veremos no espelho que engordamos e, melhor ainda, até as florestas deixam de arder.
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* Só é realizável em acto voluntário do prevaricador. Não falo na 'humilhação' de se apresentar às autoridades - "ó sôr guarda, acabei de, etc, passe-me lá o papelinho se faz favor", mas do acto nobre de reconhecer o erro e, dignamente, ir a uma caixa MB e endereçar a sua coima à instituição carente de verbas, à escola onde andou ou andam os seus filhos, ao hospital que o tratou ou, espera-se então com legítima esperança, por acidente nunca o virá a tratar.
Dois anos. E reparem que o mais bonito, a verdadeira vitória, era a de os depósitos serem poucos, porém verdadeiros.
Só será irreal se o quisermos assim, eu também o sei e foi por isso que assim escrevi.

O sangue nas revoluções: a memória e o seu respeito

Excerto extraído duma discussão num Grupo MSN de ex-residentes em Moçambique:
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"As revoluções, qualquer uma, são sempre as ocasiões dos excessos, sob pretextos históricos há injustiças que se cometem, actos que, se isolados do contexto que os gerou - ou lhes deu cobertura e impunidade - seriam unanimemente considerados crimes e receberiam o opróbrio social, a sua censura, o seu castigo. A história é cega ao pormenor individual quando liga o seu grande motor colectivo.

7 de Setembro e 21 de Outubro de 1974 foram datas de horror para quem delas recorda a sua face inumana, a bestialidade que nelas campeou. Para além das eternas discussões ideológicas dos 'dois lados' então em liça - e que acredito serem perpétuas enquanto houver vivos que as recordem... , houve vítimas mortais em ambos os campos em confronto e há que ter sensibilidade para respeitar essa memória, no caso de famílias e amigos acresce a dor. A história quando molha o aparo em sangue, para quem a viveu, nunca poderá ser lida em termos de 'ganhei' ou 'perdi'. Há mais, há sentimentos, e isso é Humano.

Numa leitura isenta de sentimentos personalizados vemos que na página que narra o '7 de Setembro' haverá nota de rodapé ou pouco mais que fale nos que morreram, pois a grandiosidade da data para quem tem legítimo orgulho na sua nacionalidade e sabe e aprende que aquela foi uma data nuclear para a sua existência, necessariamente menoriza tudo o mais face àquele outro valor, indubitavelmente mais importante enquanto facto histórico, pedra importante que foi no alcançar da Independência e nascimento da sua Nação. A História é fria, pouco dada ao sentimento das vítimas quando "outros valores mais altos se sobrepõem". Eis a realidade.

Sobre as origens e motivações, o erro político do 'golpe do Rádio Clube', até dos excessos que foram cometidos à sombra desse movimento pouco sensato, essa é discussão cíclica e sem solução à vista, sendo que, de ano para ano e sempre que se chega à data, tudo é dito e discutido, há ódios adormecidos que ressurgem, felizmente alguns arrependimentos pelo meio em que se confessa que se foi arrastado por febre de multidões, mas daí a quinze dias está tudo esquecido, volta tudo às posições iniciais sem ceder um centímetro e... para o ano há mais. É triste.

Porque a nossa idade é hoje outra, e se aos dezasseis e aos vinte e até aos trinta tinha-se uma impulsividade gerada pela idade, que era confrontada com ameaças radicais ao estilo de vida que se tinha, hoje com mais trinta anos em cima, com quarentas, cinquentas e sessentas, temos todos a obrigação de olhar para o passado e para essas datas com outros olhos, mais prudentes, mais sabedores até pois então vivia-se em cidades cristalizadas onde quem quisesse fazia uma vida inteira sem ser obrigado a olhar com olhos de ver para além da sua redoma, e vendo então que o Paraíso era um imenso logro sustentado à custa dum povo explorado por outro. A velha questão do colono e do colonizado, nunca haverá acordo entre eles sobre as visões da mesma realidade...

Em termos friamente históricos o '7 de Setembro' foi uma vitória do povo moçambicano, que assegurou uma independência não neo-colonial, disse não a uma segunda Rodésia.
Para quem o viveu e assistiu essa mesma data nunca poderá ser despida do trauma que lhe infligiu, pois a barbaridade é sempre gratuita e nada há que a justifique.
Duas visões em oposição, coexistindo mesmo em muitos de nós. Porque somos racionalmente inteligentes para perceber a História e os seus ciclos, mas felizmente suficientemente humanos para estremecer e chorar quando ela tritura inocentes, no seu resfolegar revolucionário.

Quanto ao 21 de Outubro foi barbárie pura, em minha particular opinião mais sangrento que a outra data. Deste, 21/10, felizmente a História não sugere nem deixa conflito com efeméride, é mesmo das suas páginas negras.

Lamento ter escrito isto tudo, mas ano a ano continua a doer ler, reler, recordar, sentir. A trinta anos de distância regozijo-me maioritariamente com a data pois o tempo muito cura ou atenua. Mas, à data, às datas, eu tive muito medo e 'envelheci' prematuramente muitos sonhos que mereciam um crescer mais suave. E isso não o consigo esquecer. Obrigado por teres lido até aqui."

quarta-feira, setembro 07, 2005

Cherchez la femme

Há pouco, na resposta ao inquérito, poderá parecer que me estendi demais e poderia ter sido mais sintético e menos palavroso para dizer o mesmo. Verdade incompleta.
Porque relendo o escrito termino sempre com a sensação de que há algo que ficou por contar, palavras curtas em matéria que as mereceria mais vastas. Texto longo mas que se sente curto em parte que não se lobriga mas que se adivinha essencial, está coxo sem se saber onde tropeça, sabem qual é a sensação?
De tanto magicar onde seria acho que descortinei a lacuna, e até o porquê da mesma. Vá-se lá saber porquê chamei inconscientemente o censor e, falando nas 'pitas', muito apressadamente saltei dos seus caracóis para as unhas dos pés, deixando um embaraçoso vazio em tanto centímetro que, per si, cada um merece tratado, compêndio, guia e manual de apreciação. Foi tão insultuoso para 51% da humanidade como entrar no atelier dum artista e só ter olhos e voz para a peça dita mais cara, ou para a mais polémica segundo a crítica, ignorando de forma abezerrada todo o tanto que permitiu tal apogeu. Shame on you, mr. Gil...
Tê-lo-ei feito por complexo castrador de verbalização quando se escreve/fala/comenta/analisa matéria que por convenção será assexuada. Como se tal fosse possível fora de verdes prados e de floridos jardins, onde plantas e flores nascem e morrem sem suspiros lânguidos (e, mesmo aí já nada juro... porque é sensual o abraço da trepadeira ao tronco da árvore, o florir da pétala que se abre e oferece a sua intimidade à luz que a penetra e beija, e haverá secreta lascívia nas raízes que, subterrâneamente, entre si trocam lentas carícias...), bafo de letras que surge e se lê como decepado sem golpe de artista quando em cena está a Mulher.
Por tão grave erro ora me penitencio, jurando-vos que todas as palavras não ditas, ora e em silêncio contivo em mim e para mim as escrevi. E com um sorriso convido-vos a soletrá-las comigo neste silêncio cúmplice em que os lábios formulam o esboço dum sorriso, gostoso, bonito, porque não assexuado...

Esta coisa dos inquéritos...

Já fui lixado. Mas como não sou de me negar, mãos à obra:

5 coisas de que gosto:

- Escrever, está claro. E portanto de ler coisas bem escritas (será um dois-em-um).
- De automóveis, essas coisas bonitas que me fascinam desde o tempo dos calções, assumindo sem vergonhas que sou um maníaco deles.
- O lado feminino da humanidade, em todos os formatos possíveis. Simplesmente maravilhosas e viver sem elas é razão basta para suicídio. Five Stars, desde a misteriosa e fascinante cabeça até aos delicados pézinhos.
- É doentio mas gosto muito da solidão. Nem me atrevo a tentar justificar… se a ela juntar muita água, o mar, chego a imaginar-me feliz.
- Sonhar. Muito. Esse é o meu universo.


5 coisas de que não gosto:

- A primeira de todas, esse diabo chamado televisão. Os dias mais felizes são aqueles em que não nos cruzamos. Sou um gajo de fases, e nesta ela é o meu ódio de estimação.
- Os radicalismos de todos os cheiros e tons, com excepção às paixões amorosas; essas, sonho-as sempre como radicais, querido dilúvio que afoga tudo o mais e onde adoro esbracejar, fingindo que sei (nela) nadar.
- Discutir. Abençoado silêncio e maldita essa sua interrupção…
- Sair à rua, isto lido na variante do tal socialmente exigível como serviços mínimos para não se ser considerado um antipático ou bicho do mato. A conversa de circunstancia, o cardápio das doenças e das agruras, o lamento e as queixas, toda a conversa da treta que, se não a ouvirmos nem que seja por três minutos, somos apelidados de esquisitos ou malcriados. E reparo que há aqui fios a ligarem respostas, neste gosta/não gosta; afinal concluo que sou um proto-eremita e não sei se estou a gostar da conclusão!
- Falta de dinheiro, obviamente. Por vezes fico triste por não poder comprar algumas pequenas coisas que acho que mereço. E não falo de carros, por aí tenho o papo cheio pois tenho a melhor garagem virtual do mundo: já rondam as 130.000 as fotos em arquivo no meu pc.


5 álbuns + 5 músicas:

(era para responder em separado, mas abaixo está a explicação do porquê de ter juntado as respostas, simplificando-me neste suar fininho...)
Não sou, nem de longe, um melómano. Confesso até que a minha música preferida é o silêncio, e normalmente uns acordes que soem por perto desconcentram-me totalmente, até chegam a irritar-me pois fico nervoso, inseguro pois afecta-me o raciocínio – ‘disperso-me’. Para isso muito contribui eu ter parado na música dos 60’s e 70’s. Os primeiros anos em Portugal, bolso vazio que não me permitia luxos como comprar um lp e, muitas vezes, inconstância de casa para permitir à trouxa acumular coisas que se tornaram acessórias como um gravador ou um gira-discos, criaram um fosso que se foi alargando com o tempo e hoje é irrecuperável.
Explicada a restrição temporal, aqui fica a minha escolha:

- O duplo do ‘Woodstock’; pelo que para mim representou, naquela altura…
- Intimamente ligado à emoção que senti ao ver o filme, o duplo da banda sonora do ‘J.C. Superstar’;
- ‘Imagine’, do John Lennon; A mensagem perfeita?
- ‘Il n’y a plus de rien’, do Léo Ferré ( e mais algumas dele); garra, emoção, denúncia, arte. Tudo junto.
- Os álbuns dos ‘Genesis’, hesitando entre o ‘Foxtrot’, o ‘Nursery Crime’ ou o ‘The lamb lies down on…’; ouvi-os à saciedade e em momentos que eram especiais, fazem parte das minhas memórias quando me sonho noutro tempo e idade.

Bem, terminei. Chegou a hora de fazer maldades.
A alguns que gostava de mandar o presente, sei de antemão que não são fãs da coisa. Por isso não o faço, e risquei já dois nomes da lista mental que me surgiu quando cheguei a esta fase. Outros, já a malvada da remetente da encomenda brindou, safando-se na boa.
De rajada, tomem lá Maryluh, Jass, Theo, Xarim e Miguel. Safem-se como puderem.

As colinas do teu corpo


Nelas mergulho as minhas ânsias e no conforto da sua textura que em carícias procuro, lavo as inseguranças que em mim nasceram desde que as descobri.
Seios, mamas, colinas de fogo que me arde e me queima, alçando-me em colunas de ego que invadem o meu céu de sonhos privados, fazendo-me crer senhor de seus segredos. Vã ilusão, filha do fascínio que turva o olhar duma criança ante o brinquedo desejado e prometido, e que as suas mãos ainda não moldaram no actor de amor que é brincar.
Seios, mamas, colinas de amor que piso inseguro, mascarando em murmúrios tremidos o gole de vida por que se suspira, adivinhado nos beijos com que vos escalo, colinas que saciam solidões e no seu relevo encobrem a verdade de que não são nem nunca foram mistérios assim tão mágicos como os que imagino neste tremer.
Louvo-vos por assim me mentirem, piedosos do outro engano que é eu insistir em vos sonhar mais além da simples naturalidade de serem, afinal, só belos, belíssimos até...

Post Vrum-Vrum (já tinha saudades...)

Informo os meus Amigos e V. Exªs em geral que fechei a lista de compras para quando a Europa me der os Milhões a que me candidato fielmente todas as semanas.
Para aqueles que viram uma certa lista que em tempos muito remotos divulguei, concordem que me tornei um moderado, um asceta, quase um reles avaro.
É very british e tem meros quatro itens, a saber e por ordem alfabética:
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..................................................................
Porém não suspirem ou desesperem pensando que me curei, ou que deixarei com esta parca frota de namorar (mais) a sorte. Como não há uma sem duas, para a segunda rodada que pacientemente esperarei, salvo imprevista e sedutora novidade a nota de reserva reza assim:
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..................................................................
Muito feliz mas não saciado, antes de me enforcar numa viga da garagem ainda tentava de novo a sorte, pois não há duas sem três. O apogeu final, a glória e a ruína:
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Algumas palavras finais, à guiza de explicação de (primeiras) escolhas:
- O Aston Martin, porque já deixou de ser 'o camião mais rápido da Europa' ou um bólide muito veloz a direito. Evoluindo do bem sucedido DB7, o meu escolhido DB9 pede dinâmicamente meças à concorrência directa, transalpina ou germânica. Com a vantagem de ser sobriamente mais bonito;
- Ter dinheiro para isso e não ter um 'Mulliner' é ser parvo. Ora, para esse passo primaz rumo ao Olimpo há que primeiro comprar um Bentley, pois 'Mulliner' são as suas versões sofisticadas, personalizadas ao gosto do dono, pagante é claro. O Flying Spur é um óptimo carro familiar, e esta é uma afirmação das tais indiscutíveis;
- Na mesma senda tribal há que arejar ideias e esvoaçar cabelos em são ambiente familiar. Para tanto é necessário um descapotável espaçoso e confortável, também elegante e distinto. O Daimler Corsica dar-nos-á tudo isso com elegância e segurança;
- Sou um egoísta, ávido de prazeres individuais. Ser assim e ter um Morgan é a combinação perfeita, pois se ele me proporciona os carinhos de ego que reclamo, o seu antiquado desconforto penaliza e castiga tais defeitos tornando-me mártir dos meus prazeres privados. Um suplício adorável que nunca dispensarei, e daí a opção pelo encantador e irascível Plus Eight, dor de cabeça mecânica e má massagem muscular ambulante, também por isso um carro com um charme único.
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Sobre os outros não me pronuncio agora. Brilham-me demais os olhos para poder escrever com coerência, e há também que dar tempo a que fechem as vossas bocas à minha desfaçatez.

terça-feira, setembro 06, 2005

"Fálico"

Penetrar-te é contar-te
investida a investida
murmúrio a murmúrio
que estou nu e tremo de frio
quando não sou teu

Aceitares-me é dizeres-me
que além do viril dito
que te sonda húmidos humores,
vestes de ti os meus tremores
dás-me em vulva a razão de ser macho
e ser teu

Estremeço sempre que te rimo

Frei

Poesia Moçambicana

"Subúrbios by night"


Lá no beco da ti’Juliana
logo logo tem a cantina do Dias mulungo
e há uma árvore que sabe das coisas
ela viu tudo, tudo.

A luz do jeep cinzento
as fardas pretas e os bastões
viu as botas ouviu os gritos
ela viu tudo, tudo

lá no beco da ti’Juliana
onde o caniço está partido
eles bateram, bateram, bateram
no fim das luzes ficou um corpo caído
mais o caniço, tudo partido

nem o Dias nem ninguém
abriu uma janela, uma porta, um grito
a ti’Juliana dormia sem sono
a árvore viu tudo tudo.

Foi lá no beco escondido,
as fardas pretas arrombaram o caniço;
as botas pisaram, os bastões bateram
e a árvore viu tudo tudo

De manhã passos de criança
sob a árvore que sabe das coisas
misturaram areia ao sangue caído
lá, onde o caniço está partido

os pés correram as mãos brincaram
lá onde o caniço está partido
onde está a árvore que sabe das coisas
ela que viu tudo, tudo

Um dia crescerão e
eles sabem tudo, eles sabem tudo



José Alberto Sitoe

segunda-feira, setembro 05, 2005

Etapas

Trago sempre comigo um caderno onde escrevo, escrevo, escrevo. Porque gosto de escrever à mão, porque os momentos mortos surgem quando e onde menos se espera, e também porque, esteja a fazer seja o que for, há uma parte do meu cérebro que ‘escreve’ continuamente e há que tentar registar o possível.

Os textos variam e a maior parte fica como ruínas de ideias que nasceram gloriosas e definharam ao virar da folha, contos inacabados ou delírios de pretensão filosófica. Por vezes, bastantes até, são reflexões íntimas, conversas comigo mesmo e em acta escrevinhadas.

Este sábado estava numa esplanada nos arredores de Lisboa aguardando uma amiga para jantar e, claro, o caderno não demorou a abrir-se sobre a mesa e, na passageira solidão, eu a abrir-me nele. Só foram nove linhas e meia pois ela chegou e surpreendeu-me perdido no quadriculado da folha, e antes de o guardar li-lhe o que tinha escrito. Porque confio nela. E porque ela sabe o conflito que vivo, eu e as linhas. Era disso que as nove e meia tratavam, abusivas nas dúvidas, excessivas no lamento. Disse ela. Pediu-me a caneta e dei-lhe um lápis, e escreveu: “censurado/apagado”.

A seguir falamos disso sabendo eu que naquele momento decidira largar este vício das quatro páginas, este culto da facilidade, e começar a escrever um texto digno doutro nome. Como se diz estou a “magicá-lo”, a cruzar e acasalar as tantas ‘quatro páginas’ que por aqui habitam inacabadas, estórias começadas e nunca terminadas. Tenho as personagens, faltando mascarar as reais para que delas não me venha especial incómodo ao sair de casa. O ambiente, os cenários? o mundo é vasto e se mesmo assim não chegar, imagino-o. Falta uma trama central que tudo ligue e lhe dê sentido, dando unidade ao tanto que, disperso, já tenho escrito.

Uma coisa eu sei: desta vez não será autobiográfico pois essa etapa iniciática já foi cumprida com o primeiro. Quero ficcionar a minha chamada ao quadro para fazer a prova real, quero melhorar a nota ou levar palmatoadas, saber se passo de classe ou abandono os estudos. Está e fica prometido.

Parece

... que me* retirei do mundo**, poucos ecos, raros links, evadido no irreal e às voltas comigo e o meu umbigo.
Não, ou parcialmente não. Estou de olhos abertos mas em silêncio. Afio lápis que não uso, inúteis que são nas manchas de tinta que, e que, e que.
Uns porque tanto dizem, e bem, nada havendo a acrescentar; outros porque o seu erro é de cisma e eu nem sou doutrinador nem profeta.
Poucos ecos, muito poucos, raros links, ainda menos. Evadido no irreal e às voltas comigo e o meu umbigo.
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* blogue
** social e político

Infusões com letras

Sejam da China ou de Ceilão, aromatizados por frutos ou com extractos de canela e cravinho, neles bóiam farripas de letras e sorvem-se sempre devagar.

Os chás estão na moda e os cardápios de infusões já não são a curiosidade exótica que, alguns, poucos, cafés e pastelarias apresentavam há meros anos atrás. Assim como os fiéis, sendo hoje mais ou filhos e as filhas das ditas que elas in self, as mães e as tias de outrora que se juntavam à mesa e a pretexto do bule fumegante, prato de duchesses e de pastéis de nata ao lado. Nalguns casos em que conheço ambas as gerações, não concedo especial hesitação em atribuir o rótulo de aficionada das infusões à mais nova, evadida aos tradicionais ‘preto’ ou ‘cidreira’ mas seduzida e alargando pesquisas e gostos por variantes ‘menta verde’, ‘maçã e canela’ ou ‘cereja japonesa’.

Fazendo agulha ao título, às folhas e flores boiantes vou juntar as letras. Porque o chá além de palavroso – a herança genética das ‘tias’ e do ‘chá das cinco’ – trás para a mesa o seu ritual próprio bem diverso dum café que só se adoça e sorve, banalidade gestual que entra em hábito com a visita aos primeiros cafés ainda em criança, “anda ali para o pai tomar uma bica”. Ele apela à palavra, seja ela lida ou contada, às vezes e para quem dela gosta também a escrita. No chá, seja ele “earl grey” aromatizado com óleo de bergamota, flores de jasmim e uma qualquer variedade de citrinos, ou um enigmático “sencha japonês kkh-5” (néctar límpido e aberto com o típico e delicado sabor japonês – ipsis verbis), vem para a mesa a parafernália adequada, o bule com o penduricalho da variedade a degustar em laço à asa, o açucareiro e a chávena larga. E assim se inicia o culto do chá, sempre vagaroso e sempre com direito a uma repetição pois não é dose cafeínada que em dois goles se lhe veja fundo e fim. Nas infusões das ervas há o lento gole que se prolonga fazendo render e apaladando as conversas, aromatizando-as com laranja e canela, estranhos rooibos verdes, flores de cacto e de centáurea azul, prometedoras folhas de morangueiro que arrolam recordações de infância, antes do tempo que só os vê em caixas de supermercado, etiquetados e sem as folhas, nus de tanto do seu sabor.

E as letras? Nascem assim, ao lado do bule e da chávena fumegantes, chá preto do Ceilão com aroma de cacau e menta africana, laranja-cenoura, flores de hibuscus, bagas de sabugueiro e muitas, muitas, raspas de letras que da chávena pingam na folha, assim.
Tchim-tchim.

domingo, setembro 04, 2005

Pornográfico


Há palavras que não se usam senão quando a lascívia nos domina e na posse copulada as vozes enrouquecem e o ser-animal, cego na ânsia faminta do corpo por outro corpo, solta proibições e ruge o seu desejo na intimidade do acasalamento, libertando as palavras que então soam como as certas, pornograficamente certeiras, extensão oral duma pele que se dá e que recebe na doce refrega sexual, fluído da vida, elixir do sorrir.

Nos murmúrios segredados, nas confidências partilhadas e nos pedidos mais íntimos, a palavra pornográfica transmuta-se e soa dentro dos amantes como terna e estimulante, janela que se abre ao reino do inconfessado, vitamina extra que é complemento no festim das carnes que se seduziram e encantaram, ora livres de trapos, medos, inibições, entregues à sua mais terna missão, o prazer irracional do beijo dos corpos.

Eu sou pornográfico, ia acrescentar 'felizmente' mas não se dizem evidências, sussurram-se nos momentos que as merecem.

sábado, setembro 03, 2005

"Pluma Caprichosa"

O que me ri com a crónica da Clara Ferreira Alves desta semana ("Expresso"), 'Brasilês'... Se aquele mundo de bem saber escrever e eu nos cruzássemos não hesitava e pedia-lhe um beijo à conta de autógrafo, sonhando que minúscula saliva na minha pele germinasse e eu um dia também soubesse chorar, sorrindo assim. Sou um invejoso.

sexta-feira, setembro 02, 2005

Alegre/Soares

A vingança serve-se fria, e Fevereiro é mês para encasacados.
É, é isto a política pois é feita por humanos que, sabemo-lo, têm sentimentos.

quinta-feira, setembro 01, 2005

Poesia na lezíria

A 1 de Outubro, um sábado e lá pelo meio da tarde, no simpático espaço da 'Copo com Texto', Almeirim city, vai ouvir-se poesia. Sem tema, cada um declama o que quiser, seu ou alheio.
Confirmados estão Elsa de Noronha, Delmar Maia Gonçalves, Jorge Viegas, Renato Graça, Nora Villar e José Alberto Sitoe.
Por confirmar mas bem encaminhados Gilda de Vasconcelos, Fernando Grade e Pedro Laranjeira. Eu vou recebê-los o melhor que consiga.
Apareçam.

Devagar

"Não dá grande jeito escrever com uma agulha de soro nas costas da própria mão da caneta. Qualquer movimento mais tenso é incómodo, e os cuidados naturais que da dor advêm tornam a escrita diferente, mais lenta e com as letras-palavras desenhadas com um cuidado de que não tinha memória. A pressa está ausente porque nos traços, falem eles do que quiserem, está sempre presente a veia violada, moínha persistente com picos que são um travão físico à abstracção favorita. A este inesperado vinte à hora vai-se juntando uma imagem que se forma e que se assemelhará, pelo menos vejo-lhe semelhanças no cuidado do desenho das palavras, na lentidão das frases: estou noutro século e escrevo com uma pena de pato naquele lento desenhar de peças únicas, textos sem gémeos pois de cada um há sinais próprios identificadores feitos pela mão que aqui alonga um arabesco, ali faz um floreado diferente na mesma letra. Para além do texto, da sua 'mensagem', a forma como são escritos torna-os únicos, copiados uma e outra vez mas nunca iguais. O molhar da pena no tinteiro, antecessor natural da pausa reflexiva no matraquear no teclado de hoje, maldito autor de tanta vírgula írrita, esse beber de tinta dum para outro texto desenhado nunca era igual, imagino, e só por aí não se encontravam duas cópias iguais em desenho do mesmo texto, "bolds" sem nexo que oscilavam ao longo das frases como hoje se suspira na inacabada que dá luta, ou como eu agora numa pontada de dor com que a agulha me força a interromper uma frase"
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Não é nada de preocupante, mas entre exames e longas esperas pelos resultados e sua análise passei hoje a tarde inteira no hospital. Trata-se duma infecção urinária que será facilmente debelada com antibióticos, e recorri à assistência médica por precaução; embora sem nenhuma dor estou há dois dias a perder sangue na urina, sinal duma lesão interna. Como dei uma queda violenta recentemente (desmaiei provavelmente por quebra de tensão pelo muito calor), temi que algo tivesse avariado. Felizmente não, mas esqueci-me de pedir à simpática enfermeira que me deixasse livre a mão direita, enxada que me cava a distância sempre perfeita entre o que quero e o que não quero viver. Mesmo assim, acho que me desenrasquei e terminado o livro que comigo levava, entre um e outro esgar lá fiz o gosto ao dedo e à imaginação.

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