Xicuembo (versão 3.0)

memórias & resmungos do Carlos Gil

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quarta-feira, novembro 30, 2005

Carpo, metacarpo e falange Vs o problema orçamental do Estado

Não ando satisfeito com a arrumação da lista de links. Não se trata da tributação individual deste ou daquele vizinho, pois, soberano no meu blogue, taxo e arrumo como entendo, merecendo a cortesia e a boa educação uma notificação explicativa ao tributado quando não se trate de boa nova fiscal.

O problema está na escalonagem. Via excepções e benefícios especiais saltito demais nos clicks, quando por sua frequência de uso e igualdade de prazeres de leitura tal incómodo não deveria existir. Se são vizinhos no uso a taxa devia aproximá-los e poupar a minha mão destra, com pele, epiderme e nervos já visivelmente afectados pelo abuso de rato, a uma próxima e temida visita a um neurologista mais os inevitáveis tratamentos que, suspeito, passarão pelo apertar de cinto na utilização temporal dos fundos tributários. Isto dos remédios é sempre chato pois costumam ser amargos e privar-nos dalguns prazeres. Do tipo usa menos se te queres curar, aperta lá o cinto. E tributa. Tributa com taxas que gerem receitas conforme as despesas que tens, para não ires à falência. Mais coisa menos coisa será assim, pois suspeito que não haverá pomadas que dêem resultado se o tratamento não for à raiz da comichão e do tremer contínuo da mão que utilizo para prover-me de tanto que preciso.

Há um lado do problema que é o dos direitos adquiridos pelos tributados. Não se retira um subsídio que foi concedido prenhe de justiça por dá cá aquela palha; nalguns casos até tardiamente, pois até antes reivindicados com gravidez de razão que não pude mais ignorar após denunciada; mesmo protelando parto à satisfação dos protestos. Há razões sociais argumentadas e de valor que repugna discutir, normalmente para reduzir taxas pela instauração daquela coisa chamada caso especial ou excepção, que, perseguindo critérios equitativos, rapidamente junta uma equipa de futebol à volta da lógica do argumento em prol do benefício fiscal.

Aqui na tasca as causas estão ligadas a razões regionais, globalmente, também com pitada às históricas e polvilhado de sentimentais. O que está a resultar nisto, pois há outro lado do problema e que é o de que me dói a mão cada vez mais. A minha consciência social pariu taxas e taxinhas, sub-divisões para baixo e para cima na coluna de links, que me obrigam a maior uso de recursos físicos com a mão direita, a do rato, agravando ainda que o aumento de esforço veio com menor receita fiscal. A continuar assim adivinha-se que em breve não dará para a despesa.

Que fazer? Criando germens de (filosoficamente justa) revolta, servir a mesma receita ‘ao contrário’ e disparar taxas, integrando à força em escalões agravados quem não tem nem culpa de escrita nem proveito de visita? Criar impostos especiais por acréscimos aos que pagam, fazendo remunerar os meus pecados a quem deles não vê nota? Ser um déspota socialmente injusto, só porque tenho um blogue e dói-me a mão? Como compreenderão estes não são caminhos aconselháveis a quem quer viver muito tempo com boa fama num bairro, net-bairro ou qualquer outro. Assim acontecendo, se a gerência do blogue dependesse de eleições mal viessem as primeiras era corrido com carta de recomendação tal, que não me permitiria, sequer, deixar um mero comentário no blogue mais deles carente, assim tipo vedeta espelhada ou campeão inseguro. Bloqueavam tudo mal me aproximasse e reconheço legitimidade ao previsto asco, pois dos actos do Poder que lesam terceiros a memória pública não se deve apagar facilmente. O aumento de impostos no meu blogue nada resolverá, é placebo enganador quer já perante o amanhã quer mais com o que virá depois.

Há que decidir. O dedo dos cliks e da roda dentada perdeu já muita da sua sensibilidade, dói-me a palma da mão de forma que parece crónica (é moínha que dura a tempo inteiro) e, agravado pela magreza do espécime-eu, até nela tenho ossos que doem. Acuso nomeadamente as falanges do indicador e polegar, e o carpo, lado interior e que assenta no tampo da secretária; entre eles, o metacarpo, que ainda não se queixa. Além dum crispar e dum tremer, contracções e espasmos de nervos que não denunciam saúde ao clic-clic membro.

Tendo o poder legislador não posso assumir uma pose de irresponsabilidade e esconder a mão no bolso, fazer que o problema não existe porque lhe viro a cara e faço que não o vejo. A mão dói, ontem doía e amanhã doerá. E sou destro, não tenho ‘artes mágicas’ que levem a outra a mais habilidades que pegar um objecto ou segurar um cigarro. Utilizá-la para o rato é-me impensável, em nada viável pois ela não recebeu os anos de formação que esta, a malandra, a ora queixosa, teve nesta função de clic-clic, aponta seta e clic. Enfim, resume-se em ‘não dá’, e até aprender para ‘dar’ a net-vida não pára lá porque eu criei um monstro fiscal que me faz doer a mão.

Uma emenda pior que o soneto era taxar tudo por igual e ordená-los por via alfabética; penso que, por onomástica felicidade criativa dos autores que visito, rapidamente ia parecer o elevador da Nazaré, clic-clic em cima, clic-clic em baixo e clic-clic sei lá onde mais. Coitada da mão, então obrigada a maratonas quando o que ela precisa é do descanso e curtas deslocações da roda dentada nas visitas de assiduidade. A igualdade fiscal é uma treta pois se há muitos Antónios também há os Zacarias, não tendo nem mãe nem pai nem padrinho ou oficial de Conservatória culpa de o registando vir um dia a tomar-se de brios e primores nas letras, e criar um blogue.

Não tenho competência para resolver o problema orçamental nacional, coisa de dinheiros graúdos, maquias que tratando-se do Estado passam-se a escrever e a ler com grafia fiscal. Para isso há consultores e deputados, secretários e ministros, conselheiros e figuras pardas. Eu só tenho um blogue, e já agora uma mão que dói avisando que há um notório desajustamento qualquer, réplica dolorosamente pessoal mas felizmente menor dos célebres buracos orçamentais.

Finalmente:

Estabeleço as seguintes medidas privadas, e enfie o garruço quem do seu tamanho tire bom proveito, estatalmente estruturado ou não: por restrições orçamentais e dores na falange do indicador são suspensas as visitas de cortesia ou de pura mangussagem – melhores tempos virão e eu ainda sou um rapazinho; pelo incómodo ardor do carpo as viagens diplomáticas são mantidas exclusivamente junto dos links de mais antigo e sempre fiel fascínio – não é pela dor numa mão que privo todo o eu de tais prazeres entre tantos meros agrados, estes quantas vezes ilusórios e passageiros; relativamente ao treme-treme e a seu pretexto são estabelecidos e são para cumprir horários de visitas que façam esquecer este afã do ‘vai lá espreitar, que sicrano já deve ter postado’ ou de cuscar as pitas e as suas conversas de toilette para ver o que contam e o que mostram dos folhos e rendados das suas intimidades – haja calma que ninguém vai morrer: os textos não fogem excepto em caso de trágico blogo-suicídio, e elas muito menos pois são vaidosas e exibicionistas natas.

É mais justo penalizar o profícuo legislador, o mãos largas, insensato e despreocupado linkador, emagrecendo a despesa do monstro de longo rabo que fez crescer na coluna da esquerda. Dar repouso revitalizante aos dedos do clic-clic, em dor reclamantes de receita e de receitas que de lá, coluna de links, não vêem; ou, se vêem, não o fazem em assiduidade compensatória. Mantêm-se em vigor os benefícios fiscais mas a fiscalização andará de olho atento à evasão produtiva de qualidade, com expulsão do quadro de benefícios a quem deles não justificar: é maior e mais satisfatório o meu ronronar à seda da qualidade, mesmo que tão parca que apenas permita estender mão dorida mas gulosa por afago do bem escrito, que o olhar impaciente para enormes lençóis lisos, pano-cru sem bordados de qualidade, clic-clic perdulário, rre-rre da rodinha do rato.

Lamento se até determinada altura do texto o caríssimo leitor, crédulo e bem intencionado, acreditou ser possível vir a ler cura milagrosa para buracos orçamentais. Eu sou só um gajo que é bloguista viciado e a quem dói a mão direita, falanges e carpo, ainda não o metacarpo. Se o induzi a tal inocência permito-me a presunção de que nesse momento fui um bloguista realizado. Liam-me e confiavam em mim, dávida dum deus dos blogues e tão discreto que ainda incógnito, que apiedou-se e lembrou-se deste seu devoto. Ajudou à oração a mão que dói e também o olhar socialmente preocupado para uma coluna de links que cresce, cresce, eu um único para lê-los, todos especiais por uma razão, um momento, nalguns até por um post que nunca mais se repetiu mas por ele ganharam taxa, assim justa.

Oxalá um orçamento de Estado dispusesse de tantos links, carpo, metacarpo e falange. Diplomaticamente, acho que já escrevi demais.

segunda-feira, novembro 28, 2005

Mais vale tarde que nunca

E não é a más horas. Descobri-o hoje, via links que valem sempre pesquisa atenta.
Meia dúzia de palavras e uma imagem. Andou-se para aí nos jornais e nas TV's, por cá nos blogues, a gastar latim que, de tanta gritaria e exarcebamento, se torna ininteligível ou pelo menos perde sonoridade acutilantemente explicativa.
Link a guardar para tributação.

sábado, novembro 26, 2005

2005 em leituras

A minha selecção do ano de 2005 não é sobre livros lidos ou assim ditos mas abandonados, ou de blogues linkados à saciedade e outros cuja perenidade descobre-se extinta meses após terem dado o triste pio. É uma selecção de cronistas, este alter-ego dos bloguistas.
E como tudo tem nome, aqui vão eles de rajada: António Lobo Antunes (Visão), Eduardo Prado Coelho, Faíza Hayat e Vasco Pulido Valente (Público), Clara Ferreira Alves e Rui Henriques Coimbra (Expresso), e José Luis Peixoto (JL).
Todos os outros que comigo se cruzam pelos locais que frequento merecem-me um aceno de cabeça de reconhecimento mas são estes que comigo se sentam à mesa; leio-os e penso-os, que não é exactamente o mesmo que lê-los en passant.
Era estúpido montar pódium pois o ano é uma continuidade de provas e ninguém consegue ganhar todas. Há competição semanal, em mínimo, e até há ali atletas que tomarão esteróides anabolizantes para fazê-lo diariamente. Portanto ficam todos ao molhe e haja é fé em que as suas penas continuem felizes, esqueçam-se as taças.
Aproveitando boleia, a eles e a todos os omissos desejo um óptimo ano gráfico de 2006, cheio de crónicas de deixar em angústia de êxtase qualquer bloguista que se preze.

Repristinar Portugal

A repristinação é um conceito jurídico que significa voltar a pôr em vigor uma lei que antes perdera aplicação prática. Fui ver ao dicionário de Ana Prata e diz exactamente assim: “renascimento de uma lei revogada com a revogação ou caducidade da lei que a revogara”

É preciso repristinar o país. Não por mais abundância legislativa, autêntica diarreia de boas intenções paridas com a má fé de quem sabe não serem exequíveis. E não enquanto outras ainda em vigor social não forem revogadas, as tais asfixiantes à repristinação de Portugal. Nestes casos o acto legislativo é o verdadeiro criminoso moral.

As atitudes, o relacionamento social. Direitos e deveres, visões e obrigações de “maiores de 21” para juvenilmente viver-se até ao ocaso, mais felizes. Orgulho. Orgulho em fazer bem e ser decente. Não deitar papéis no chão, pagar o condomínio e os impostos. Queixar-se sem medo se os baloiços do jardim não estiverem capazes, e saber que deve ir de táxi para casa depois dum concerto rock. Ser decente consigo e com os outros e extasiar-se por também o serem com ele.

A repristinar em memória para os actos nascerem e porem em vigor. Uma a uma pois se fossem todas de uma vez não nos reconhecíamos e pensávamos que tínhamos acordado no Paraíso, e isso tem um lado mau. Somos latinos e vivemos as emoções com especial intensidade e Portugal pode ser tudo mas que não seja nunca mais um jardim à beira mar plantado.

Penso que é esta a missão principal dum Presidente da República: repristinar valores e conter com sapiência a verborreia estatal-partidária. Mais o pater familias do Direito Romano que um sargento-intendente que se acredite iluminadamente generalado. Mais humano que mero preceptor de adultos.

Neste perfil não se me reluta e até me agrada que um homem sonhador, um poeta, vá para Belém. Ele não é um sonhador de delírios ao ritmo de trovas que passam, é um sonhador coerente que trovou os momentos marcantes deste país, antes de em letra com o corpo presente. Ar de marialva intelectual mas isso é charme de quem nasceu para de mangusso fazer arte e dedicar fés, e eu tenho isso por qualidade, abençoada latinidade!

Nas alturas em que o País dele precisou, como soe dizer-se para se escrever formalmente que ‘teve tomates’, ele esteve presente. A luta contra o fascismo, incluindo o exílio. A guerra colonial. A Assembleia Constituinte desta república democrática e a luta sem tréguas contra a outra ditadura que espreitou (calha bem este post a ’25 de Novembro’ e assim deixo a minha homenagem à inversão nele praticada: todos ganhamos, vidé História) Manuel Alegre sempre foi coerente e disse presente quando há crónica falta de presenças. E isso tem muito valor e fala pelo carácter e pela personalidade.

É um excelente poeta: venha um não siamês do fel de Vasco Pulido Valente que não acorde neste mínimo. Não lhe conheço a obra toda, menos ainda a narrativa que a poética. Mas cresci lendo e ouvindo a sua poesia mais conhecida – e é tanta e toda tão boa! que dele não tenho pejo em chamar-lhe Senhor das nossas letras. O sonhador que epicamente chora ao escrever(-nos). O lutador que epicamente galvaniza para causas, trovador do amor mas igualmente a voz irada contra a injustiça e a opressão. Um poeta da e pela Liberdade.

Um poeta em Belém é uma boa ideia para o País. Este tem perfil insigne, se olharmos com um piscar de olho essa salutar ideia de ser como nós, mangusso no viver, o tal toque de bom marialva e tudo. Só um poeta, - e um assim, luso, genuíno - pode galvanizar-nos para repristinar o país. Com currículo político lúcido e equilibrado, e sempre com os melhores valores humanos presentes: liberdade, solidariedade, as muitas igualdades que não cabem numa única palavra. Lê-lo ou ouvi-lo é sentir-se que ali há sensibilidade.

E eu gosto de saber da existência dessa qualidade, quando há que decidir se ‘aquela’ lei deve ser servida ao gáudio e gozo daqueles senhores do Tribunal Constitucional, sempre mal dispostos e de verve afinadíssima mas em regra muito bem pensantes, quando está na cara da dita que é uma parvoeira pegada legislada por lunáticos, evadidos da realidade a tempo inteiro.

Neste campo, sensibilidade social, confio mais num poeta-escritor que também é um político que num ex-governador bancário com um perna ambiciosa na política. Ou ainda que num político profissional que fez vida e carreira tratando os corredores e os bastidores do Poder por tu. Este, que uma vez meteu a ideologia na gaveta, revogando sonhos e esperanças que, tantas! hoje urge repristinar. (E que me papou um subsídio de Natal dum momento para o outro, sem eu e milhões percebermos bem como foi o assalto fiscal duma entidade que deve(ria) gozar de fé pública na sua relação com o cidadão-contribuinte, o Estado. Eu sou um gajo bera para estas merdas e não me esqueço por dá cá aquela palha)

Na esquerda clássica as escolhas erradas são nítidas e mostram-se fáceis de apontar. Entre o folclore para um dia escrever memórias e contar aos netos, ou ser parte duma estatística de curiosidade histórica, i.e. votar Francisco Louça ou Jerónimo de Sousa. Depois vem a outra opção, se resiste um fraco por manif’s bem organizadinhas, e com hora, trajecto e palavras de ordem pensados superiormente, aí vota-se Mário Soares - e paz à tua alma militantemente de funcionário público. Talvez um dia esses venham a ser felizes, mas deles será o reino dos céus pois este não é certamente: olho à volta e não vejo nenhum contente, repristinadamente ou não.

À direita ora unida, e em preparo para Fevereiro pois nessa altura falaremos melhor, lembro o que vai ter em jogo dentro de si pois não vejam assim tão fácil uma decisão responsável. Sim, Cavaco Silva é um ícone. Há valorações intelectuais para quem ele representa modernidade e (também) rigor. Donde vem essa memória? foi há quanto tempo? e o legado? Que sobrou para além das ruínas do dinheiro, estas em que esbracejamos? a fobia pelo dinheiro fácil, esta ambição cega e este desajustamento de valores que equipara moralmente a evasão fiscal ao estacionar o carro em cima do passeio, quando nasceram ou, mínimo, quando levaram o grande alento que hoje nos asfixia, maximizados de cima a baixo na nossa sociedade? Quando é que este Inferno autofágico nasceu? Mas em Fevereiro conversaremos com mais tempo e em melhor oportunidade.

Há que revogar uma maneira de pensar o social antes do país caducar por não repristinado. Acto que eu, pessoalmente, prefiro embrulhado em sensibilidade pois a arte poética é inventiva a amenizar dores e a legislar trovões, e escreve-os a todos com ternura pelo leitor, em lei nós cidadãos que urgimos repristinada a cidadania. Nem se trata de escolher o menos mau nas opções: simplesmente Manuel Alegre é o candidato certo deste momento nacional, fossem elas ainda outras que não as más alternativas acima expostas.

E termino com outra transcrição, em prol justificativo da necessária e urgente repristinação de Portugal. Ainda fazendo fé do dicionário jurídico de Ana Prata “este efeito (repristinação) só se verifica se for expressamente previsto por uma disposição repristinatória” Eis o mote. É o que faremos colectivamente em Janeiro, Fevereiro, meses da nossa fé e da nossa esperança, meses para repristinar a alegria de ser português em Portugal.

sexta-feira, novembro 25, 2005

Fibrilhador de Palavras

Há um finalista pré-anunciado que olha para o lado e faz que nada vê e ouve, preocupado com contas de muito incerto resultado. Ao lado, esbraceja um veterano que não lhe dão a importância que lhe seria devida, e alega indignações de antiguidades. Por baixo, a raia miúda pela-se de ciúmes e briga às migalhas, pequenina, ralha, invejosa e canibalesca.
É suave a luz de quem segue o seu caminho, sereno como um poema que nasce com o Sol e em rimas de vontades derruba noites que se ameaçavam árcticas.
Há momentos que se prometem vividos como perfeitos, paridos pela esperança, iluminados em fé e moldados em coragem. Constróiem-se. Também pelo soletrar diário desta palavra nova que aprendemos e da qual gostamos, cidadania, som musical que revigora viveres pardos de desânimos.
São-nos assim, bonitos, seja na reconstrução dum país de que gritemos com orgulho "é meu!", na entrega a um amor que empolgue ou no simples olhar do voo dum pássaro, na poesia duma palavra bonita ou em tantas pequenas coisas que fazem grande e importante o nosso viver. Como até na insuspeita política.
Basta soletrar a vida com rimas de esperança e de vontade, gritos de luz que se ensaiam até Janeiro e se declamarão em coro lá para finais do mês seguinte, Fevereiro, desfibrilhador deste meu país.

quinta-feira, novembro 24, 2005

Lançamento do livro "Pedaços de Mim"

Dia 26, às 18 horas e no Palácio Beau Séjour, Estrada de Benfica nº 368 (tem Metro perto), haverá o lançamento do livro "Pedaços de Mim" de Manuel Moraes, pseudónimo do luso-moçambicano Victor Ribeiro. Na Nota Biográfica lê-se:
"Manuel Moraes, pseudónimo do autor Victor Ribeiro, nasceu em Moçambique, nos idos de 1960. Filho de Maria Amélia Ribeiro da Livraria Progresso, onde o autor começou a ganhar o gosto pelos livros, e de Adam Ribeiro, o "Linda" do Malhanga.
Com a revolução dos cravos veio para Portugal, onde viveu e vive, até hoje. Tem três filhos, um rapaz e duas raparigas, Mafalda e Beatriz. O rapaz, Filipe Miguel, segue a tradição familiar e joga basquete nos cadetes do Sport Lisboa e Benfica.
Licenciou-se em Direito na Universidade Clássica de Lisboa em 1990, mas nunca exerceu advocacia. Nem teve qualquer outra profissão na área do direito.
Em Lourenço Marques, hoje Maputo, deu os primeiros passos basquetebolísticos no Ferroviário, obviamente pela mão do pai, embora depois tenha feito todo o percurso "mini" com o Tomané, na altura jogador do Sporting Clube de Lourenço Marques. Depois, já como iniciado passou a treinar e a jogar no Sporting Clube de Lourenço Marques, tendo sido também seu treinador o António Morais, até ao dia que deixou Moçambique, já em 1975.
Em Portugal esteve duas épocas e meia sem competição a sério, "brincava" ao basquetebol nas equipas do liceu. Em 1978 ingressou na equipa de juniores do Sangalhos e dois anos mais tarde subiu ao escalão maior, também no Sangalhos. Por aí praticou a modalidade mais querida durante duas épocas, que largou com tristeza, sabendo que um dia voltaria. E assim foi. Tornou-se treinador dos escalões de formação do Atlético Clube de Portugal durante quatro épocas e meia.
Por razões de índole profissional suspendeu temporariamente essa actividade, mas o "bichinho" vive e recomenda-se, e um dia provavelmente voltará ao basquetebol. Começou a escrever ainda jovem, histórias e poemas, coisas de adolescente. Mas se o gosto cedo se revelou, somente a maturidade e o conhecimento o levaram, já depois dos trinta, a levar a escrita um pouco mais a sério.
Manuel Moraes é essencialmente um poeta, embora se divirta a fazer outras coisas, em especial histórias para crianças. No início do próximo ano será publicado o seu primeiro livro para crianças, a saber "As dores de barriga da dona Terra". Trata-se de um conto sobre a escola e a aprendizagem, belissimamente ilustrado pela Kala, artista plástica de Coimbra.
Tem outras duas histórias para crianças já escritas, mas ainda não publicadas. Uma, "O Velho velhaco" trata-se de um conto clássico escrito em trinta e cinco estrofes de cinco versos; outra, "Odisseia de Natal", igualmente um conto clássico, mas escrito em prosa, pleno de aventuras e com a preocupação de ensinar às crianças as tradições de Natal, os seus valores morais e religiosos.
Actualmente entretém-se a escrever um livro de contos do absurdo, em que a realidade e o imaginário se entrelaçam, o espaço e o tempo perdem o seu sentido próprio, e os personagens existem não existindo. Não sabe quando acabará de o escrever, mas isso não importa. O que importa é mesmo escrever!"
Será uma tarde bonita, mais ainda se por lá aparecermos. 'bora lá?

Falam as sondagens

O tempo passa e os candidatos vão-se mostrando, que outra solução não têm pois não há entronizações mas sim eleições. Mesmo para aqueles a quem é penoso mostrar a sua hirta vacuidade ou a sua vetusta falácia.
E conforme eles falam e aparecem são mais os promitentes eleitores indecisos, e são eles que vão decidir esta eleição capital para o nosso futuro colectivo. Incluindo se haverá 2ª volta e, havendo-a, quem no voto da esquerda a ela ascenderá.
Lê-se aqui, sondagem hoje divulgada no Diário de Notícias. Para os Trimaspeanos reflectirem, enquanto ainda vão a tempo...

quarta-feira, novembro 23, 2005

Ora vocês pensem...

Admitam a seguinte hipótese, meramente académica e só como exercício para os neurónios: há 2ª volta nas eleições presidenciais (olha a novidade, dizem... calma!), e quem passa são.... Manuel Alegre e Mário Soares. Vamos ao resto.
Em quem votará a direita que não se abstiver?
Pois é, pois é...

Vaticanus lapsus homo inteligentsiae

Uma espécie de aspirinas para tratar um osso partido...

Coisas de velho

Apeteceu-me recordar O Meu Pipi. O falecido e "decano" blogue nº 1 de audiências - veja-se o número de 'comentários', brejeiro e bem disposto, bem escrito como poucos: tentem escrever o tema, assim, e depois digam qualquer coisinha...
E dei por mim a ler aquele que ainda recordo como o mais 'épico' de todos os seus posts: "...a pinocada que dei numa crica virgem de 72 anos...", sic, este post de topo de página clicando aqui.
Coisas de velho, velho mas não esclerosado na memória de como é possível escrever bem, seja qual for o tema.

terça-feira, novembro 22, 2005

Os vrum-vrums: o "amarelinho"

Quase que o poderia considerar como o meu primeiro carro em Portugal, não fora antes uma rápida passagem por um VW Bettle exactamente da minha idade, a 6 volts e com um pau para medir a gasolina no depósito. Mas se esse tem pormenores por historiar são para maiores de 30, e rodados.

"o amarelinho" foi uma das minhas primeiras remunerações como aquele outro lado que sou. O pai do Mário, o sr. Amílcar Rebelo, um castiço de primeira apanha e que era irmão do dr. Jaime que teve um programa no Rádio Clube de Moçambique chamado “A Palavra é de prata” e também foi dono dum colégio lá para os lados da antiga Av. Massano de Amorim, LM, teve a infelicidade de morrer. Havia saias de voltas posteriores às originais (era um fiel, um aficionado!) e tinha de haver partilhas. Ora nos bens estava o amarelinho, um Datsun 1200 da cor do crisma e de volante ao contrário, "à LM"... E cá o mangusso, que então andava de Casal Boss, a olhar para ele, pois está claro. Enfim, lá lhes fiz as partilhas e depois houve a conta, as chatas das despesas e os famosos honorários. Pois não é preciso adivinhar muito... trouxe as chaves do 'amarelinho'. Carta de condução claro que não havia (os papéis são uma chatice e em casa de ferreiro a malta sabe que o espeto nunca é seguro) e o amarelinho era a menina dos meus olhos. Bem, uma maravilha: para ultrapassar era uma alegria pela emoção de “jogar às escuras”, e na cidade não raras vezes via caras espantadas por não verem ninguém no lugar do condutor e um gajo com cara de alucinado no lugar do pendura. Até aqui compreenderão que o recorde com saudade legitimada...

Meti-lhe um autocolante da tal discoteca espanhola com a gaja de chapéu, assim como umas letras em autocolante cortado por mim com as minhas iniciais, preto baço, mais uns extras de tuning de hiper mercado (até tinha ventoinha!), enfim, o amarelinho parecia uma extensão da feira de Almeirim. Até que um dia me disseram que o carro, na auto estrada, passava pela humilhação de ir desde Aveiras até Lisboa ao despique com um Fiat 126 e, ai ai, já em extremis e junto às bombas da GALP na 2ª Circular é que a coisa se safou para o nosso lado, enfim, que era também pelo excesso de peso que passávamos por tais vergonhas, e lá se foi o tuning em apressada cura de emagrecimento. Pois havia por ali traquitana de toda a espécie, bússolas, lanternas para ajudar a ver mapas, a tal ventoinha, suporte para maço de tabaco, antena de dois metros, uma bilha daquelas de cheiro, um emblema do Belenenses pendurado no espelho, um boneco das Cerci's que têm uma fitinha pendurada, e, claro, la créme de la créme, pedais em alumínio. Não andava nada, até porque o radiador perdia água, mas tinha boa brecagem, valha-se... além do aspecto que V.Exªs imaginarão e vos faz roer de inveja, a mim a apelar a uma lágrima e um sorriso de saudade.

Mas a melhor com o 'amarelinho' ainda não foi contada. Bem, uma vez uma porta da frente avariou e não fechava. Eu, na altura, coleccionava ferramentas. Ia às lojas dos '300' e vinha de lá com sacadas de tudo e mais alguma coisa e até por catálogo as comprava. Parecia um construtor civil. Tinha coisas que não sabia como trabalhavam, outras de utilidade tão improvável como uma serra apta a trabalhar em Yellowstone, um machado grande e um pequeno, um pulverizador para curar árvores, etc etc. Fio eléctrico, chaves disto e daquilo, uma alegria. E dois tornos, lembro-me bem. Portanto fui equipar uma caixa com ferramentas (tinha duas) e fui-me a ele. A Paula ia espreitando pela janela da sala: morávamos num 2º andar, Santarém, e o carro estava mesmo ali em baixo. Desforrei a porta e tudo. E não consegui soltar o fecho que estava preso e não permitia que a porta se fechasse. Assim fui experimentar o funcionamento da do outro lado, luminosamente esperançado em, por cópia, resolver o caso bicudo e desimpedir o passeio que parecia um local de assistência dum rali.

Aqui começo a corar.... a outra ficou igual! E agora? e ela, Paula, lá em cima à janela, que ia dizendo e repetindo "ó Carlos deixa isso! é melhor chamar-se um mecânico, tu vê lá...", etc, as coisas sem jeito que as mulheres se lembram de dizer para amesquinhar o nosso brilho e orgulho macho. Bem, mais uma caixa de ferramentas para o passeio e passei a atitudes mais drásticas... já quase que ia à martelada e eu suava.... até que me ‘passei dos carretos’ e disse-lhe assim mesmo que, se não ia a bem e com a finíssima tecnologia do meu arsenal de ferramentas de precisão, ia a mal e com uns valentes empurrões a puta da porta ia fechar-se, ai ia ia.... E vou-me a ela, e ela cede a encontrões e golpes de cu, entra bem aconchegadinha com o ‘calor’ que levou, a Honra está salva! Mas há leis da física sacanas, é o que vos digo e já conto.... o volume do ar forçado para o interior com o empurrão que a porta levou faz a outra porta abrir-se, assim a modos que suavemente, coisa filha-da-puta mesmo, tipo um humilhante peidito que me fazia desesperar... Senão reparem: fecho uma mas abro a outra... dou a volta e acontece o mesmo... e repeti, e repeti... bate dum lado, peida-se do outro... vou-me a ela, abre-se a do outro lado.... Só percebi o buraco em que a minha vidinha estava a cair quando ouvi um riso abafado e olhei para a janela, e a vi a ela, perdida de riso, amoitada a vigiar o espectáculo. O traumatismo psicológico resultou em que hoje vejo-me à rasca para encontrar cá por casa um simples busca-pólos.

Estava eu assim, já descamisado e passado de todo, a fazer figuras tristes com o meu amarelinho, quando me visita o Costinha, um gajo que é da Beira (tocava lá num conjunto, 'Os Romanos') e que vive aqui numa quinta dos Paços Negros, bem perto. Pois o bom do Costinha vê-me naqueles preparos, apieda-se do seu amigo, pergunta e olha, e trás trás. .... Com um único dedo e um sorriso de sacana resolve o problema, mais a puta da porta – que já eram duas! que não fechava de maneira nenhuma. O fecho que estava preso, o tal (grrr!!!), soltava-se simplesmente fazendo nele pressão para cima, fazia clic e pronto, ficava solto! A minha cara, vocês imaginam não é? o passeio cheio de ferramenta espalhada por tudo o que era sítio, uma porta com as tripas à mostra e já com a almofada com marcas de encontrões, eu descamisado, a Paula a rir-se armada em sacaninha, e o bom do Costa - com 1-um-1 dedo resolve o problema!

Esse 'amarelinho' foi fixe. Corri seca e meca com ele, Nazaré, Foz do Arelho, Lisboa pargas de vezes, foi uma maravilha. Quando o troquei até andava a pensar em pintar-lhe umas faixas pretas longitudinais e não alinhadas com o centro, duas paralelas. Ia ficar bem porreiro. Mas depois troquei-o num stand por um AX, mais uma data de aventuras, até porque a minha história com esse stand é de antologia. Se arranjar maneira de a contar sem quebrar segredos profissionais, contem com ela. Mas aqui, fase do AX, parece que já tinha carta, não me lembro bem mas acho que vivia em pleno uma fase de legalidade na minha vida.

Constância, acto de cultura; Entroncamento, acto político

“Hoje vi e ouvi o Candidato. Não foi um ‘momento transcendental’, e até digo que nunca me sinto à vontade nestas ocasiões cheias de efes-e-erres, não é o meu mundo. É que por muito informal que o ambiente se apresente há uma solenidade latente, afinal está-se a viver um momento especial da nossa democracia, a rebeldia partidária assumida com ânimos de exercício activo de cidadanias até agora insuspeitos, vigor acalentador de esperanças, como, dê por onde der e por muito que o personagem seja e mostre ser ‘um dos nossos’, está-se em presença dum candidato a presidente do país. Em acréscimo que não é despiciendo é o nosso candidato, o meu candidato, que a tantos fez sair do conforto de concha e puxar lustro aos botins para, em Janeiro, os passos não só não se perderem em vaus de desilusões*, ou engelharem hirtos no engano sebastiânico, como serem dados com brilho que perdure para além das vãs e tristes desilusões que se (me) tornaram santo e senha. Chamo-lhe enamoradamente “acreditar”, e essa é uma alegria que já ganhei.

Tem presença robusta, o chamado carisma, e flutua na Palavra como se ela dele fosse simples maré, donde as ondas flúem num marulhar poderoso e elegante, forte e também emocionado. Ouvi-lo e vê-lo simultaneamente é acreditar-se que se está em presença dum homem sincero e bom, com uma visão clara e profunda da actualidade e das nossas necessidades, que nos olha com emoção e ternura, e – acredita-se! sente-se assim armado com o melhor exército de todos os exércitos partidários, o daqueles que dentro de si encontraram reservas do elixir que, outrora, medrou sonhos e esperanças. Não, não recuei no tempo em flashback revolucionário: lá fora chovia e todos temos consciência de que as nossas galochas têm meias-solas diluídas no agreste tempo que passa, sem que delas se preveja reforma. Sabemo-lo todos e por isso estávamos lá, junto dele, lábios sorrindo a este passo para a barca da Esperança.

A sessão em Constância, – abreviando sensações e comoções pois delas cada um sentirá as suas, foi simples e marcante. Claro que as palavras aliçadas soaram na homenagem ao maior dos nossos vates, Camões, pai da língua portuguesa como hoje a entendemos e nos encanta, como lembrou o poeta candidato. José Niza, em breve improviso, Nuno Júdice na leitura da palavra trabalhada como ele tão bem sabe, Diogo Dória emprestando a sua emoção declamatória aos versos dos Poetas e, finalmente, Manuel Alegre em pequeno mas muito sentido improviso; todos eles da Palavra fizeram preito a quem a reinventou e no-la deu na mais bela das cascatas da nossa pátria: a poética. Houve momentos em que estremeci e pensava que na sala estava mais um: ele, o poeta maior, Luís, o boémio, globetrotter de muito mais que do Mundo pois foi-o da nossa Palavra, mago mestre da nossa língua comum. Foi bonito recordá-lo e ouvi-lo, e a homenagem a quem tanto de encanto nos legou nunca soou a loatoriamente excessiva ou friamente protocolar, pois quem dele falava ama e honra o seu legado.

Manuel Alegre foi parco nas palavras em Constância. Disse as necessárias, aflorou o acto político mas sobrevalorizou o cultural. São estes toques de sensibilidade que fazem acreditar na diferença, na presença dum futuro presidente que não olhe os cidadãos só como eleitores e NIF’s, palmadinha mui solidária nas costas e aguenta-te sozinho à bronca, daqui a xis anos voltamos a desconversar... Mostrou que é um homem sensível e preocupado, e que nunca será indiferente ao outro lado das situações – maldita, maldita economia mais a visão economicista das nossas vidas que a diabolizou a quotidianos cansados de tantos céus cinzentos! Ouvindo-o, bebendo a sua visão duma presidência atenta às valias culturais que podem ser mais um húmus revigorante ao porvir nacional, em instinto ergue-se a espinha e alça-se a vista ao futuro. Sem medo, ou pelo menos com menos medos pois passa-se a acreditar que não se está só. Não se extraia que o discurso de Manuel Alegre foi extraordinário e empolgante. Não, nada disso. Provavelmente se fosse pronunciado num dos países ricos do nosso Norte e com uma plateia com únicas preocupações intelectuais, receberia as devidas palmas qb e os cumprimentos de praxe finais. Mas não foi pronunciado em Reijkavic ou em Malmoe, à beira de fiordes de escarpas forradas a superavit económico e com calmas águas sociais. A oração foi dita em Constância, olhando um Tejo minguante à medida duma terra-país seu leito, e nem as Tágides se vislumbravam para conforto de guerreiros de dias cansativamente cinzentos. E nós, portugueses eleitores que prezam pensar futuros ao seu País, fartos de beber deste fel que nos turva o viver e atormenta pensares, nós ouvimo-lo com olhos brilhantes e pensamentos desarvorados nas velas da esperança. Assim e com tais motes, as suas palavras soaram como as que mais precisávamos de ouvir, todos, um país inteiro, as únicas que aplacam o tremer involuntário quando nos pomos a pensar em amanhãs, e mais amanhãs, e mais, e mais, e mais, tantos ais de quem está cansado e farto.

O Entroncamento aterrou-me. Assim sem mais nem menos. Porque está claro que me perdi mal cheguei às rotundas. 3? 4? sei lá quantas e todas de enfiada mal entrei; por aqueles lados as autárquicas devem ser bem disputadinhas, rotunda a rotunda. Bem, lá ganhei norte, e era já noite mas ainda eram sete e dei por mim desconsolado a olhar para um restaurante com um ar gélido que metia dó. Filas de mesas postas como se aguardassem um jantar de empresa, não vi flores para pensar em casamentos. E cá fora a chuva caía miudinha num parque de estacionamento às escuras, assustador de enorme por estar vazio. Assustei-me quando me perdi nestes medos e voltei a assustar-me quando foram vencidos, e é pelo triplo susto que digo que o Entroncamento me aterrou. Pois, passada uma meia hora de divagações exploratórias dos consumismos locais, retornei à sala que, enchendo, fazia adivinhar tantos quereres para ali caminhantes e recordavam Constância como um encontro de amigos da língua e da palavra, mas ora também o sempre presente rush das multidões em mim começou a fazer estragos: eu não sou muito sociável. Estabeleci os mínimos e evadi-me, talvez inspirado por Constância poema à palavra, antes, procurei o meu canto. E aqui, como se faz nas estórias, escreve-se “durou até ao dia, até ao momento em que...”

Foi o político que esteve no Entroncamento, e não foi parco. De poucas vírgulas pois nestas ‘conversas’ todos nós sabemos do que se fala e do que se precisa falar. De que magistratura se precisa e de como se pretende exercê-la. Das esperanças que se vão tentar cumprir, e das necessidades que são tão imperiosas de vencer que delas não há tremor de hesitação ao se lhes prometer combate duro e de frente. Em suma, das razões da candidatura que lá nos levara, a tantos. Ele, o candidato poeta de Constância, mostrando que cohabita com um político experiente, também orador brilhante e de palavras hipnotizantes. Ele, antes insuspeito em lidar à vontade com mais números que aquelas contas que se imaginam os poetas fazendo às rimas – já li que se o poema nasce musicalmente belo há que passá-lo à pauta equilibradamente. Ele, candidato, no Entroncamento mostrou serem a causa pública e os seus números suas preocupações habituais e leituras não estranhas. Foi um discurso político que não teve um conteúdo intimista como o à beira Tejo, mas feito com a arte e o saber de quem domina a oratória pública há muitos anos. Prenhe dos nossos anseios colectivos. Empolgou. E se tanto me perco na forma é porque, do conteúdo, a esperança e a fé das suas palavras esvaziaram as minhas, varreram-me as letras do teclado e não sei como escrever este crescer que senti dentro do peito. Sou muito reservado e em certo não houve lágrimita a escorregar, indiscreta. Mas que as vi, las hay e houve, que isso eu vi.

Raspei-me logo a seguir à sobremesa, saí dum parque ora lotado e fiz a viagem debaixo de temporal mas invulgarmente confiante. Ainda bem, e correu tudo bem. Ainda bem que em Janeiro vamos eleger um Presidente de Palavra e das Palavras, e vai tudo correr bem. Eu acredito – estive nos dois lados, Constância e Entroncamento. Nenhum dos outros candidatos (me) fazia assim um pleno.

* Dr, teve o seu tempo. Compreenda-o, compreenda que já não empolga nem faz sonhar – recorda-se que sonhar é preciso?, e coloque tantas energias e vontades ao lado de quem consegue acender chamas que, outrora, V. Exª tão bem acendeu. Porém hoje é hoje, não é ontem. Seria magnânimo e elegante, até. Além de lúcido e politicamente correcto, para não falar em mais um favor que o país lhe agradeceria por muitas e tão boas razões: nós, V. Exª incluído, dr. Mário Soares."

20/11/2005, Constância e Entroncamento, terras belas do meu sentir.

domingo, novembro 20, 2005

O ficheiro dos carros - "A" (1)

Irei relatando dados pouco a pouco. Sendo que é um arquivo vivo, é diariamente actualizado e acrescentado, por vezes até com sub-divisões de pastas quando uma versão dum modelo passa a merecer pasta exclusiva.
Começando, a primeira marca é a A: Level (herdeira moderna da mítica policiesca Volga), cuja pasta tem outras duas internas num total de 84 ficheiros; ou seja 84 fotografias. Os modelos são o '2d', que não é outro senão um Mercedes SEC tunningizado e com um motor V12 de 850 cv. Mas o outro, o 'V12 Coupe', é que é o carro que me fazia perder estribeiras e carteiras, se as houvesse. Aqui podem ver fotos da beleza sinistra, junto com o ancestral que lhe inspirou linha e deu-lhe os genes de carro de mafiosos - o soviético Volga que na letra certa tem pasta própria.
Depois há a pasta da A. Clement que só tem 3 fotos, é marca que ainda não explorei. A da nossa vizinha espanhola A. D. Tramontana tem 24 fotos do fabuloso hot rod legalizável que apresentaram este ano. Tem frente de tubarão-martelo, esguio como um fórmula, dois lugares em linha e lá atrás um V12. Em peso que deverá ser 'pluma'. Uma perdição.
Vem a seguir a da marca inglesa de pesados A.E.C. mas só tem 9 fotos. E abri-a para algumas fotos de camiões antigos, da década de sessenta, pois recordo-me bem desta marca que, então, era popular fora da ilha. Tenho uma foto dum A.J. Watson com motor Offy, das Indy norte-americanas, e para já é o que há. Em AAR tenho 5 fotos duma versão de 1966 dum Eagle, também Indy, tão diferente do original que merece pasta própria. Correu com o azul e o amarelo da Sunoco.
Segue-se a Aaron com 4 ficheiros, e vem a AAT com 17 fotos do esguio Heldo, motor Cadillac de 350 hp. Bonito, e pouco conhecido. A esquiva espanhola Abadal tem 2 raríssimas fotos do modelo 18-24 hp pré WWI e uma dum Abadal-Buick de 1923, estilo racer. E chegamos à primeira pasta de vulto da letra "A", e por aqui me fico hoje: a Abarth tem 645 fotos agrupadas em 38 pastas diferentes*, sem contar as mais populares derivações Fiat e Lancia, Autobianchi ou Simca, e o '356 Carrera GTL' da Porsche ou o Abarth-Ferrari num chassis '166 MM', todas nas pastas das marcas-mãe. Já dá 'pica'...
Outro dia continuo.
* 200 Pininfarina, 205 A, 205 A Vignale Berlinetta, 207 A Boano Spider, 209 A Boano Coupe, 210 A, 232, 750, 750 Zagato Corsa, 750 Recorde, 750 Spider Allemano, 850 S, 1000 Bialbero Coupe, 1000 GT, 1000 OT Spider Pininfarina, 1000 SP, 1300-2000 OT, 1300 Lufthansa Coupe, 1300 OT, 1300 OT Corsa Periscope, 1300 Scorpione, 1300 Sport Spider, 1600 Coupe, 1600 Spider Allemano, 2000 Coupe Speciale, 2000 Formula, 2000 Sport Spider, 2200 Allemano Coupe, 3000, Barchetta Fiat 1000, Abarth-Simca Coupe, 'Diversos', FL, Lombardi Scorpione, Lombardi Scorpione Racer, Sport Spider Tubolare e Stola Monotipo.

Simples

Quero chamar a atenção para este post. Especialmente para a caixa de comentários, o segundo. Está lá escrito assim:
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Tirsa said...
.....
Outro dia,
Quietinho
num canto,
Olha só
O que eu
pensei:
A paz é
Tão boa,
Mas
Tão boa,
Que devia
Ser lei.
.....
By Lalau,
.....
Wise words!
.....
6:39 PM
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Simples. É um link que achei dever divulgar.

quinta-feira, novembro 17, 2005

Manuel Alegre em Constância

Como fiz eco aqui, o homem que nos despertou a voz emocionada da esperança vai estar em Constância no próximo domingo, para uma acção de Cultura e Cidadania.
Soube à momentos mais detalhes sobre o programa (inclusos no link retro). Pelo final da tarde, 17 h, na Casa Memorial de Camões a sua e a nossa voz unir-se-ão para falar do tanto que nos preocupa e que o motivou a aceitar encabeçar a Candidatura da Esperança. Não fosse pelo local - de todos o mais elegível..., mas é certo que a voz forte da poesia soará, adorno magno duma candidaduta dum homem da Palavra. É também assim que se constrói a Cidadania.
Mais tarde (20 h) e ali bem perto, no Entroncamento, nós, todos, o fenómeno que nos trará de volta ao amanhã o sorriso de acreditar, iremos jantar.
A ementa? a alegria da Esperança reencontrada; o prazer de sabermos - estaremos a corporalizá-lo! que a participação política dos Cidadãos não se extingue no aparelhismo e nos intrincados acordos políticos que deixam em rodapé valores de que deveriam ser servos e não senhores.
Nós não precisamos dum contabilista em Belém; mal por mal que seja em S. Bento - mas dos bons. Nem de quem olha com sobranceria e altivez os seus pares - como fará connosco, vulgus? Precisamos dum Presidente que saiba e defenda que cada um de nós, a nossa família e os nossos amigos, até os nossos inimigos, não somos simples números de contribuinte. Precisamos dum Presidente que dignifique e eleve a palavra Cidadania, e que a defenda. Manuel Alegre jurou fazê-lo e contém em si a hombridade e a força para cumprir, a nosso benefício.
Vem. Vem, e como se diz na canção "trás outro Amigo também". Que este domingo seja uma mancha de luz no cinzentismo que nos castra e castiga, neste já longo arrastar de pés para mesas de voto nuas de convicções. Vem com ele soltar o peito dorido e gritar "há sempre alguém que resiste, há sempre alguém que diz não".
Vem dar-lhe o teu abraço, vem soltar as emoções há tanto silenciadas.
... até porque, a 22 de Janeiro, vamos todos cantar em coro:
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(...)
Quem vai tocar a rebate
os sinos de Portugal?
Poeta: é tempo de um punhal
por dentro da canção.
Que é preciso bater em quem nos bate
é preciso enterrar el-rei Sebastião.

Prevaricar - I

Ao serão fui ao meu café habitual e estava lá o Roque. Com uma bezana do caixão à cova como se costuma dizer. Nada que não seja habitual nele, vou acrescentando. Como tinha levado o portátil fui escrevendo enquanto pelo canto do olho o mirava, não fosse embirrar comigo pois o Roque, às vezes, tem "mau vinho".
E fiz um texto, claro, razão deste primeiro prevaricanço ao mui douto despacho de silêncio que recebi a fls. do blogue. Como o grosso do trabalho está feito - só faltava esta nota introdutória e justificatória - é sem grandes conflitos de consciência que meto um novo post, neste caso sobre um "cromo" cá da terra, afinal só um igual a milhares que há por aí; não há aldeia ou lugarejo que não tenha o seu... Aqui vai:
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As vidas do Roque

21:47. Ao balcão está o Roque que eu já não via há meses. Está completamente bêbado e oscila perigosamente, os olhos vítreos vagueando pela sala quase vazia em busca de quem lhe dê atenção. Por vezes eleva o seu falar sozinho e o seu tema recorrente percebe-se na algaraviada bêbada em que se perde: a guerra colonial. Há mais de vinte anos que conheço o Roque e até já lhe aturei algumas bebedeiras e o tema não varia, sempre a guerra colonial. Diz-se por aqui que ele veio de África maluco, apanhadinho da cabeça. Que começou a beber desalmadamente quando foi desincorporado após quatro anos de Força Aérea. Eu, que vim depois, já o conheci assim. Bêbado e louco. Quantas estórias há para contar acerca do Roque, das maluqueiras do Roque…

“Sentido! É pá! Sentido!” o seu vozeirão eleva-se e a sua mão volta a agarrar o copo de cerveja que morre aos pinguinhos em cima do balcão. Ele não precisa de beber mais para ficar bêbado. Será um dos tais doentes do álcool que com dois copos ficam logo estragados, alcoolizados. E, hoje e pelo que nele vejo, a conta já se perdeu muito para além do que os seus passos dançantes saberão tropeçar.

Antes de estar reformado foi funcionário público e trabalhava em Santarém no Instituto de Emprego. Calhava que, querendo falar-se com ele no período pós almoço, esse intuito só era possível de se atingir indo ao seu gabinete nessa parte nobre do horário à causa pública: a taberna do Quinzena, sita perto do IEFP, onde ele e o Madeira, seu colega de ofício e de amores líquidos, almoçavam religiosamente todos os santos dias de labuta, estendendo os digestivos ao correr do relógio de ponto. Era lá, no Quinzena, entre pataniscas e jaquinzinhos, mais um jarrito de tinto, que se tratava de certidões, etc. Depois reformou-se, e o Madeira, consta, não lhe resistiu muito mais e tornou-se abstémio por falta de quórum, sucedendo-lhe ao fim duns tempos como fiel leitor de correspondência da Caixa Nacional de Pensões. Há quem diga que a sorte do Madeira foi o Roque ter-se reformado, assim curou-se desse afogar inevitável para que caminhava todas as tardes de segunda a sexta-feira. E a sorte do Roque, onde é que se perdeu? Em que savana ou picada a deixou? O Quinzena lá continua, a mobília e a fauna renovam-se mas sempre com aquele ar de tasca e de bêbados castiços que faz as delícias dos turistas pelas bandas scalabitanas. Certa vez até mereceu honras de visita e de almoço dum Presidente no activo, por acaso o tal que agora quer repetir dose sem que colha muitos entusiasmos à volta da ideia. Quem sabe se com uma visita ao Quinzena, um magusto à maneira e meia litrada no bucho, não reconsidera intentos e torna-se de vez colega do Madeira e do Roque – falo de reformas, é claro.

Que me lembre a última vez que me rira com o Roque foi logo após ter saído no jornal local uma reportagem sobre o seu julgamento por condução embriagado, pluri reincidente, com uma daquelas taxas que faz as delícias de jornalistas desocupados. Dizia o ilustre libelo que o dito cujo se arrependera de todos os males cometidos aqui e aquém mar, jurara pelos netos que ia deixar de beber e comprometera-se a deixar de conduzir durante os meses de castigo que, sabia-o e declarava aceitar, lhe calhariam em sentença. Ora bem, estava eu naquela tarde de domingo no passeio em frente ao café a remoer o almoço e no dolce fare niente, quando passa à minha frente o Renault 5 do Roque com o próprio, claro está, ao volante. Pelo caminho que seguia ia para a bola e a gargalhada foi geral em todos os que assistimos à sua gloriosa passagem, indiferente aos trânsitos em julgado de sentenças que ignoram os grandes e os pequenos prazeres da vida. Sabendo nós que o campo de futebol estava e está entrincheirado entre as tascas do Batista e do Botas, pelo sim pelo não servido com bar interno e com mais uns outsiders bem localizados na vizinhança, o resultado do jogo era público e não constituía segredo: a pretexto de vitória, derrota ou empate, a bebedeira era certa e o Roque não abandonaria o campo sem ser em glória e ao volante do velho chaço.

Neste entretanto em que conto o que dele me vou lembrando ele já recolheu à rua, pelo sentido dos passos vai para casa. Se não houver desvios não há riscos pelo caminho pois são ruas de pouco movimento e ele não mora longe. Nem há mais cafés ou tabernas no trilho mais directo até casa. Poderá aproveitar a passagem pela igreja e nela recolher cansaços e montar apeadeiro até chegar à cama. Sei lá. O Roque é maluco, sabe-o qualquer um que por aqui more, e os caminhos dos loucos são tão imprevisíveis como criativos.

Conta-se, - de tal não sei pois sou ainda novo por aqui – que, certa vez, vinha o Roque de Santarém montado no seu belo carrinho e numa bebedeira não menos bonita, quando à saída da velha ponte deu de caras com uma operação ‘stop’ da GNR local. Ora a última das suas vontades seria parar e portanto esmerou-se em acelerar a caminho de Almeirim, crente nas delícias da protecção da sua terra de sempre e, também, em que facilmente venceria o despique como o tradicional velho e gasto jeep dos gêeneérres. Dito e feito, cortou meta isoladíssimo e assim passou em frente ao decano dos cafés da terra, o ‘Império’, onde nas noites de verão se juntam na sua esplanada os grupos de sempre, clientes da casa desde o tempo em que lá iam comprar pirolitos. O Roque achou que a vitória estava insonsa e não foi de modas: mesmo em frente à esplanada tratou de fazer um vistoso peão e sentou-se em cima do capôt, de braços cruzados e cara patibular fixa na linha negra da estrada que vem da Tapada, à espera dos derrotados, os eternos segundos classificados desta sua velha competição. Não me lembro se me contaram o desfecho mas ele também pouco interessa. Não é uma multa ou uma noite mal dormida que destrói o mito dum cromo local. A pequena história desta terra também passa pelas suas figuras típicas, ‘os cromos’, e o Roque é um deles para uma geração inteira. O pormenor da guerra colonial, infelizmente, pouco é referido. Justa ou injustamente não sei, pois também não há quem possa garantir que se ele tivesse feito tropa na Ajuda ou no arsenal do Alfeite não seria o que é militantemente hoje. Mas estala-me a dúvida sempre que o vejo em seu estado de graça, o linguarejar de bêbado gritando: “Sentido! É hoje!” e o olhar perdido não sei onde, os olhos brilhantes e fixos, alcoolicamente fixos na merda do passado que teve de gramar.

Boa sorte Roque, que encontres sempre facilmente o caminho para a tua cama, para o teu sossego. Mata de vez a tua guerra e esquece a outra por favor. Terão sido siamesas, acredito, mas tantos anos e copos depois está na altura de enterrares ambas.

quarta-feira, novembro 16, 2005

A candidatura da Cidadania no distrito de Santarém

Soube por aqui que Manuel Alegre estará no próximo domingo em Constância.
Para além do contacto com o candidato de Palavra e das Palavras, que nos fez renascer a esperança num futuro onde o Cidadão seja olhado mais além dum redutor e abusador número de contribuinte, o pretexto para esse abraço será "uma sessão cultural de poesia e democracia"
Vens também?

segunda-feira, novembro 14, 2005

Despacho

Por inutilidade superveniente da lide desçam o blogue e os autos à 1ª instância e aí aguardem melhor produção de prova, sem prejuízo do disposto no Cód. da Coerência e Decência Individuais. Extraia-se certidão para memória futura.
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Registe, e notifique as partes incluindo terceiros intervenientes acidentais.
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Almeirim, 14 de Novembro de 2005 (por acumulação de serviço)

domingo, novembro 13, 2005

Leituras & Bulhas

Isto está engraçado. Sei pelo “Comendador Marques de Correia” o que já uns zum-zuns me faziam suspeitar: literária e cronicalmente, Eduardo Prado Coelho e Vasco Pulido Valente andam à estalada. Dois cronistas que parecem donos de blogues pegaram-se e a bulha promete levar-me às lágrimas, ámen.

Uma coisa tenham ambos em aviso, que as audiências estão reforçadas pois passamos todos a voyeurs regulares: têm de se esforçar e bem, para conseguirem impressionar. Porque a malta, por aqui, embora esteja sempre pronta a gargalhar-aprender, já viu muito. De vez em quando, naquele outro mundo menos polido das caixas de comentários ou descaradamente em posts esmerados a fel, há ensaios de pancadaria à velha maneira, caneladas e cabeçadas incluídas com e-bruás da multidão.

Mas venha a briga, pois pelo que leio o palco está montado e ai de quem se corte. Tenham o cuidado de não se aleijarem muito, mas uma boa sessão de estalada por quem dela sabe faz-me puxar cadeira. Prado Coelho, já o disse por aí atrás (acho que no Xicuembo 2) é persistente e profícuo dono dum blogue de muita qualidade na imprensa. O homem escreve p’ra caramba e são mais as que acerta que os tiros longe do porta-aviões. E o Pulido Valente é aquele tipo que imaginamos como odiando o começo do dia, “ai as ralações que vou ter só de ser obrigado a olhá-lo e pensá-lo...” E com verve, sibilino, sarcástico, mau como as cobras. Daí o fascínio pelas suas crónicas.

Já agora: quando é que estes dois se dignam aparecer por cá? Não lhes conheço links, mesmo antigos. Acho que o EPC esteve ligado a um blogue dos primeiros, mas nem disso tenho a certeza. Venham, venham, que pelo menos levam 5% de imposto e holofote enquanto se esgatanharem para risota de todos. Eles incluídos, claro está. Ou alguém duvida que eles até salivam quando afiam o lápis, ‘n’ vezes ao dia? Que ricos posts se estão a perder, tss tss...

"Os empatas", de Faíza Hayat

Desta vez vou mesmo dar-me ao trabalho. Já há algumas semanas que leio com muito interesse as crónicas de Faíza Hayat na revista 'Xis' do Público de sábado. Escrita bonita, escorreita e muito perspicaz. A desta semana, "Os empatas", fala no porquê de a tal integração não estar a ser bem sucedida. Da má vontade em fazê-la de quem depois se vem queixar/chorar que ela não acontece. Nós, país de acolhimento. Nós, país de queixas. Nós, país sem espelho, nós, os empatas. Aqui vai:
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Na minha última visita a Lisboa, um amigo convidou-me para assistir com ele a um jogo. "Se você tiver tempo, claro", explicou Milton. Tenho tempo sim. Uma ou duas horas sempre se arranjam. "Talvez leve mais tempo, meu amor. Você pode guardar um dia inteiro só para isso?" Milton acrescentou também: "Tem vez que o jogo interrompe no final do dia e continua na manhã seguinte". 'Tá bom, Milton, "'tamo aí". Quem joga? "Olha, acho que o time é português mas o treinador não dá as caras. Brasileiro eu sei que ele não é não". E contra quem joga Portugal? Milton disparou a rir: "Contra o time do Resto do Mundo!"
Fui convocada para estar na Praça dos Restauradores às cinco da manhã, "nem um minuto depois, ou vai perder bilhete", junto à Loja do Cidadão. Mesmo àquela hora, ainda noite cerrada, já havia pessoas. Faziam fila, na rua, sob a chuva miudinha mas persistente de final de Outubro. "Esses aí são os primeiros jogadores de hoje", explicou Milton ainda com os olhos pequenos do sono, "o que quer dizer que o jogo deles já começou ontem. Hoje vêm jogar o segundo tempo".
A fila, perceberia ao longo do dia, era, efectivamente, uma selecção do resto do mundo não-comunitário: muitos africanos, ucranianos, moldavos, búlgaros, vários brasileiros, dois paquistaneses e, dispersos, solitários, imigrantes algures da América Latina e do Sul da Ásia. Todos em busca de um carimbo, de um apêndice no passaporte, de uma prorrogação no visto, esperando, de madrugada, a "abertura de portas" do Serviço de Estrangeiros e Fronteiras. Marija, a companheira de Milton, é uma das "jogadoras". Originária de um país de Leste, é doutoranda numa universidade portuguesa. Como ainda não tem estatuto de residente, tem de renovar mais uma vez o seu visto de estudo. Já na véspera tinha perdido o dia no SEF, inutilmente, porque havia "uma falha no sistema de informação" e apenas um punhado dos estrangeiros foram atentidos.
Hoje, de novo, horas e horas a fio, os altifalantes repetem, no primeiro andar da Loja, que "o sistema de informação não funciona". (Li algures sobre o enervante efeito acumulado das "informações" nos altifalantes públicos da Alemanha Nazi.) Outras coisas podem "não funcionar", por exemplo a máquina de distribuição das senhas, o que aumenta a incerteza na lotaria do atendimento do SEF (aconteceu ontem, conta-me Marija).
Milton, ao longo do dia, fala pouco. Apenas mantém "o relato do jogo": lê para mim, imitando um comentador desportivo, os painés com as senhas de vez. Às 10h10, a EDP (que tem cinco mesas de atendimento) já tinha atendido 95 pessoas; o SEF (que só tem UMA mesa), não conseguira ultrapassar a senha número sete - à hora que abriu, finalmente, a mesa de informações.
10h25: EDP-106, SEF-9.
10h35: EDP-125, Direcção-Geral de Impostos-65, SEF-9.
11h03: EDP-166, DGI-78, SEF (adivinhem?)-9.
A linha de informações estará, horas, congelada no mesmo ponto.
12h17: EDP-229, DGI-115, SEF-14.
No dia anterior, a esta hora, a senhora do SEF disse finalmente a Marija que ela teria de voltar na manhã seguinte. "Mas eu estou aqui desde as 7h30!""Não chega. Venha às 4h00. Venha às 2h00. Se fosse a si dormiria cá". "É frustrante, conta-me Marija. Dá raiva o tempo que se perde. Dá raiva a maneira como nos tratam. Pagam a um segurança para estar aqui de olho em nós mas não gastam dinheiro em pôr pessoas no atendimento". Hoje, Marija espera melhor sorte. "Estou no top10..." Corrijo: senha 15.
Compreendo a raiva. Eu partilho-a, misturada com vergonha de ser de um país que "acolhe" assim os estrangeiros. "Seria mais honesto fechar a Europa. 'Não há, kaput!, vão embora'. Isto assim, não". Concordo com Milton. Controlar a imigração é necessário. Humilhar os candidatos é gratuito.
O SEF na Loja do Cidadão exerce - sobre indivíduos - a degradação banal própria de um país degradado.
16h47: EDP-420, DGI-230, SEF... O painel indica "00". A última senha atendida foi a doze.
às 18h15, Marija é finalmente chamada. A senhora do SEF gastou não mais de cinco minutos com ela. "Você está com um ar tão cansado", disse ela a Marija, com um sorriso que dava vontade de a açoitar. "Deve ser a sua hora de dormir". Milton notou que eu estava a ferver. "Não vale a pena, meu amor. Violência no estádio não altera o resultado mesmo: o jogo do SEF é só empatar..." Relatório da partida: perdeu Portugal - em dignidade.

sábado, novembro 12, 2005

Ainda Cahora Bassa

Na edição on line do Expresso, o artigo de Jaime Nogueira Pinto "A venda de Cahora Bassa" só está disponível para assinantes, link impossível.
Não me vou dar à maçada de o transcrever, e só reclamo a sua leitura acreditando que muita boa gente que lê o Xicuembo é herege militante e também lê o Expresso.
Faço-o por uma boa razão: surpreendi-me concordando do princípio ao fim com o articulista, um conhecido politólogo da direita portuguesa. A lucidez descomplexada, vem, às vezes, de onde ela não se espera*.
* ... e julgando que ainda em tempo: o contencioso colonial é dos temas nacionais em que a direita revela-se como mais fechada em dogmas. Julgo ser isto pacífico.

A droga (do caderno)

Escrevo posts de rajada. Mini-posts, a ser rigoroso. Mas não consigo estar quieto, estou "há horas" sem acesso à internet mas escrevo mais do que quando estou nela. Na internet não se escreve, lê-se o que outros escreveram, às vezes e como ninguém está a ver-nos até se lê o que nós mesmos escrevemos.
É como apanhar uma paulada, tomar uma droga forte. Pensa-se maravilhosamente, sentimo-nos capaz disto e daquilo. Mas não se faz. No "depois" é que está a diferença, fazer ou não. Escrever ou não. Estou longe da internet e escrevo. O João saiu há bocado para ir à bomba de gasolina comprar umas sandes e estou sózinho, mentira: soa uma música que conheço e que me faz regredir no tempo até datas e eus que nem escreviam nem sonhavam internetes. Sim, o ambiente 'convida' - é assim que se diz? Mas há mais, há esta diferença: o caderno, a caneta. O caderno e eu, ligação especial (sim, é um 'moleskine' e depois? vocês não pintam o cabelo ou usam roupa da moda?), esta satisfação de virar de folha que o Word não dá. Letras corridas, linhas que desaparecem conforme mais escrevo, olha! agora mais um pouco, mais uma!
Lá, internet, é o passeio público, tu no teu canto vendo o movimento e de vez em quando colando o teu textosito no poste em frente, ou misturado na multidão que corre os passeios vendo as montras, lendo as novidades, seguindo links sem fim - ó marketing, feira de vaidades!
Posts acamados, linhas aos montes, folhas e folhas, meu património. Umas bonitas outras a que não desejo "um dia alguém lerá isto". E se não? se eu não tiver paciência para reescrevê-los, se o caderno se perder e quem o encontrar não me entenda sequer a caligrafia, se ninguém ligar nada ao caderno dum gajo que ficou conhecido como um apanhado da net?
Pelo sim pelo não escrevi o suficiente para virar outra vez de folha, ponto. Dá-me mesmo gozo. É a droga? (o João voltou, a bomba estava fechada. Triste terra esta, que condenas os mais criativos dos teus filhos a pacotes de bolachas de água e sal)

LoL

(estou no net-café, nas mesas cheias em volta de mim ninguém imagina que escrevo sobre quecas e estas coisas. Olé!)

Cópula

O acasalamento humano fascina. Quem o vive e o sonha com ternura, e quem dele faz obsessão e capa para taras à la carte. Penso que vai buscar esse fascínio à tremenda mistura de sensibilidade que invoca quando a memória o aborda com um sorriso, junto com o cavalgar selvagem do corpo encantado quando nele se soltam as nossas feras, os poros abertos e a resfolegarem por mais carne, posse e entrega - e que bem isso faz à alma...
Depois há toda a mística, os sonhos naturais e os alimentados. Tudo se cozinha em consenso, para ser servido em travessa de piéce de resistance quando se pensa num menu de boa-vida de referência. Há cem anos atrás a literatura erótica e o vouyerismo tinham 'espaço', hoje têm-no, e daqui a cem anos os que cá andarem também serão irredutíveis curiosos.
Ou seja: mesmo a queca mais mal dada, aquela em que se pensa que mais valia ter ido dormir ou ler um livro, internet ou televisão, é (será? seria?) olhada por terceiros com o que chamo de 'olho gordo', sequioso e ciumento. O artista pode estar insatisfeito com a sua obra, seu desempenho, que há sempre alguém mal fodido na plateia que está disposto a fazer lances loucos caso a tela vá a leilão.
Chama-se a isto um post sem jeito, masturbatório.

À volta da mística erótica

Nunca vivi uma história erótica como as dos livros - ultimamente "dos blogues"... nem da tradicional queca no carro me lembro de ter levado alguma até ao fim, pois só recordo ensaios, "ameaços", num ou outro momento felizes casos de preliminares, olé.
Às vezes, em que leio aventuras contadas na primeira pessoa, à volta disso e do meu fraco currículo de rabo ao léu estendo o divaganço e interrogo-me sobre as muitas outras coisas que não fiz e tantos fizeram. Com tal emoção que foram carimbos que os (as) levaram a deles falar anos e anos passados. E que eu não fiz.
Um beijo num elevador já dei, mas nunca dei um no metro tal e qual como se vê no cinema, de deixar a carruagem entusiasmada e com olhar embevecidamente condescente (ciumenta?) da boa onda, nunca fiz meio quarteirão com a mota em cavalinho e ainda não fugi dum restaurante sem pagar a conta como se aprende no cinema, mas 'soa-me' que será bem diferente cá por baixo.
Um beijo num elevador já dei e é isso que tenho de pensar, minha recordação, meu currículo, meu historial. Olhar o jornal do dia não como catálogo de sonhos nunca cumpridos e buracos na existência, mas como entretém de 'assim vai o mundo', olá vizinho afinal tu... etc e tal.
Nele, mundo, um número, um ponto tipo caganita minúscula, até um blogue, sou eu. Eu. Eu, que já dei um beijo num elevador.

sexta-feira, novembro 11, 2005

Sonhos

Roo-me de inveja quando leio a "Visão". Ou são crónicas que me deixam envergonhado e a suspirar, ou saber que é possível conseguir.
Antº Lobo Antunes escreve muito bem, mas mesmo muito bem. Gabo-lhe a elegância e a firmeza com que seduz o leitor, saltando do pormenor intimista para o momento de excepção que faz exclamar: "isso! é assim que se escreve!"; e os olhos já não descolam até chegar ao fim da última das linhas, ainda mais sede depois de tanto e tão bom. Uma lição de escrita em cada crónica.
E há o outro lado. Há uns bons vinte anos que gasta o que falta fazendo exclusivamente o que eu persigo fazer.

Lost

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Será que fui hippie? freak? tive os cabelos compridos e fumei muita ganza. Tenho esta foto com um colar de missangas e tudo.
Agora, onde estou? esqueci-me de quê quando fiz o meu caixote pessoal?
Esta porra do blogue é como tomar um ácido.

Está na altura. Até porque há um empurrão (aqui gostava de ter posto uma palavra-link que muito dissesse; mas não procurei nem tenho paciência para procurar no Google o que está debaixo dos olhos: ou sim, ou sopas, ou estou fodido - esforçei-me à procura mas é esta mesmo a palavra e não há motor de busca que me desminta)

Lembrei-me disto

Folheio um catálogo de telas, de réplicas de quadros bonitos.
O de Munch que foi roubado lá para cima, Scream, só deverá aparecer quando todos estivermos mortos. Os crimes esvaiem a sua carga dramática com o rolar das gerações, e o revelar da descoberta atenua o lembrar do seu porquê. Um dia falar-se-á disto, seja pelo Munch seja por outra coisa qualquer, manto de arte prescritória a suavizar olhares.
Que sejam plurais. Que linda é esta palavra que acabam de ler, eu, ladrão de tanto para continuar a ter tinta neste tinteiro que me permite escrever.

quinta-feira, novembro 10, 2005

O que é que se anda a cozinhar???

Com a chamada de atenção do jpt fui ler aqui.
O que é que esta maltinha anda a preparar? A super polícia mundial a delegar competências regionais? contra os 'ninos', marchar, marchar? tive um calafrio...

quarta-feira, novembro 09, 2005

Imperativos fiscais

.... mais uma vez reorganizada a tributação fiscal dos links*, com a criação de (mais) um imposto especial: desta vez o Moçambicano.
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* e esclarece-se, again: a tributação tem taxas proporcionais aos impostos que eu não pago ao Estado quando estou a ler blogues, portanto sem estar a trabalhar de forma fiscalmente tributável. Parecerá complicado mas não o é... se gasto 'muito tempo' com leituras do blogue 'a' ele leva um imposto alto; se gasto 'menos tempo' no blogue 'b', a sua taxa fiscal é obviamente mais suave.

Perfil de amante ideal

É professora de português, para a correcção dos erros; com fortes conhecimentos de informática, sabemos todos porquê.
Todo o demais ainda é individual, felizmente e viva a diversidade. Hoje há novas disciplinas curriculares nucleares pois não há gajo que se preze, mangusso ou não, que não tenha um blogue.
O que leva ao velho sonho de ter uma espanhola por conta ter hoje exigências outrora impensáveis, a quem delas, espanholas, então desfrutou. As meias de nylon 'já eram' nesta coisa de, cinquentão, pôr-me a pensar "... e se eu, um dia, assim ou assado?" - e a construir o puzzle da mítica imagem ideal.
É que, se sonho com carros, para além dum 'grande' motor eu recreio-me mais é nas linhas, o que me é mais importante; se sonho com uma amante, para além do sempre diferente e estimulante novo par de mamas sonho com outras qualidades, enunciados confortos que valerão biliões de mimos, carícias tais onde as faladas mamas estão por direito natural incluídas.
Em fim de perfil, incluo que é triste um gajo ter cinquenta anos e estar naquela idade em que se pensa no ou agora ou nunca mais, e, quando se põe a pensar nas vantagens dum 'avião particular', uma espanhola por conta, só vê que, fixe, fixe, mesmo fixe, era ela ser uma hacker que saiba carradas de gramática. Na segunda fila sento a minha surpresa, e já saudade.
Estão a passar-se coisas estranhas e temo um tempo em que se viva meio século sem, sequer, uma ideia-um sorriso acerca duma espanhola informática.

terça-feira, novembro 08, 2005

Já repararam?

Estou numa 'festa' da vida real, a tal de que todos sentimos um bocadinho de culpas e seus complexos, por reconhecermos que foi sacrificada à virtual, esta; mas não prescindo de dela me evadir, e vir aqui dizer que agito os braços, penso em boiar, etc, etc e até nado, mas venho aqui à net como se dela dependesse não me afogar.
Misturo os sons que por aqui voam com as vossas conversas de blogue, misturo e baralho os dois ambientes, tanta conversa, uhhhhhhhh multidões silêncios os olhos ainda competem com os ouvidos, e, em finito finito vou fechar a internet por hoje. Sou um púdico encapotado e decidimos avançar para os Portos, com garbo: de copo em riste e lunetas postas às datas. Adeus, que não durmo antes de me ir ainda a uma bejeca.
Cala-te, internet. Cheers! Allez enfants de la patrie, alleeezzzzz et alleeeeezzzzzz!!!...

O clik

O clik acontece, e isto não é bem de liga barra desliga botão. O clik aparece quando lhe cabe mas há que procurá-lo. Escrever, escrever, escrever muito, sempre à coca dele soar, voarem os dedos sem fim e sem fito, e cada clik reescrevendo-se nas letras que escolhe no teclado, acumuladas, ordenadas, conhecidas.
O problema não é bem o interruptor, mas a existência de paredes que no-lo ponham à mão de forma a esta ter músculo para lhe chegar, e escrevê-lo.

Vocês nem acreditam!

Eu conheço um gajo que tem uma fotografia da picha dele no telemóvel, tal como eu terei o bilhete de identidade no bolso.
Interrogado, serviu-se nova rodada face à argumentação invocada com a cara mais desavergonhada que conheço: é uma versão dum 'emoticon.
Allez, la France e la patrieeeee, alleeezz e até já.

Documentário: "E Assim vai o Mundo..."

O 'Jornal do Incrível' junto com uma versão pós-hippy do '24 horas'. Um serão inesquecível, mais um desde que o João e a Bebé têm aparecido por cá. Hoje foram exterminados os ridículos níveis duma certa 'Antiquary' e sua vizinha 'Black Label', e decantou-se uma C.R. & F pois a rolha não sobreviveu às mazelas da idade.
Soa. Soa a vida, palavras no ar, tantas e tantas vezes sem senso nem lógica, mas palavras soadas e não escritas, trocadas com copos na mão. Abençoada garrafafeira, que para tais dias estavas guardada.

segunda-feira, novembro 07, 2005

Sinal ortográfico de dois pontos (:)

A adenda ao post anterior (que cheguei a pensar retirar, mas optei por explicá-la neste) não indicia mais que desconsolo e cansaço, males periódicos que me orgulham pois se o preço é sofrer por não perder a sensibilidade social, só me cumpre ser estóico e deixar a má cara para a sua escrita.
O idealismo, principalmente o chamado 'juvenil', vale essencialmente como formativo, não pela superior mais-valia das damas então defendidas, das maravilhosas e perfeitas teses elucobradas tantas vezes com cândida ingenuidade. O princípio formativo, o motor de arranque já accionado e, assim, capaz de ser re-ligado 'outro' dia, outra idade e época, é esse o seu valor. Entenda-se tal como na formação académica dita clássica, em que há carradas de conhecimentos que se adquirem sem a miníma ideia de utilidade, sendo que a diferença é que eles entraram, com boa ou má cara eles entraram e andam por cá esquecidos até ao 'tal' dia.
Hoje sei e não duvido que as vidas fora nosso universo virão um dia aos nossos olhos não em formato de lindas meninas em mini-saia ou em pose de figurantes duma ópera-rock, e que o dito universo não é uma espécie de aquário com um olho gigantesco a espreitá-lo, tipo big brother. Acrescente-se o socialismo científico e a psicanálise de café, o mundo dividido exclusivamente em bons e maus. Envelheci, e o meio ambiente existe desde que acordo até a minha luz fugir.
Mas... e é este mas que me lixa: porque quando hoje olho o futuro gosto de imaginá-lo como ideal numa perfeita harmonia, muitas mini-saias e todos felizes. E não ando a consegui-lo, daí deriva a tristeza, principalmente por causa da cara de parvo no precavido caso de se concretizar a tal hipótese do aquário.

Às vezes apetece-me dizer...

... que tenho azar, por viver num mundo assim. E que não vale a pena, assim não vale a pena viver em comunhão com o mundo.
Lutas sem causas, agressões gratuitas, cada um vigiando o seu próximo com medo de ser mordido.
Extremos que se eriçam, extremando-se cada vez mais; nenhum mostra vontade de perder tal qualidade, e porfiam na sedimentação musculada.
Até os sonhos, essa maré boa que tão boas memórias gera. Onde andam? quem se esquece de os fomentar? quem os coarcta? quem permitiu que se institucionalize na sociedade, nas famílias, esse conceito paralítico de que sonhar não cria riqueza nem alimenta?
É tão estúpida a ideia, que lhe sorrio: tinha hipótese de ser feliz se vivesse no alto duma montanha, numa ilha deserta, num oásis perdido. Longe.
(PS ainda em tempo: se o flower power tivesse triunfado, como seria hoje o mundo? só como hipótese académica pensem uns minutos nisso. Pensem. Pensem. Pensem por favor no tanto de simples e puro que ficou perdido no nosso caminho)

És um cardo ou uma rosa?

Via essa agência noticiosa das asnices do país que é O Jumento cheguei a um site invulgar, o OrganicHTML.
Introduzido o link obtém-se a sua imagem vegetal: "A página Organic HTML gera formas naturais (plantas, flores, etc.) elaboradas a partir dos estilos CSS da página indicada e das cores usadas" (sic, in Jumento).
É curioso... Experimentei com várias e os resultados foram... surpreendentes?

domingo, novembro 06, 2005

Fiasco

Vai daí guardamos a viola no saco, e adiamos para outro dia (ainda bebi duas latitas, uma à saúde do João que ontem fez anos)

Restaurante-bar En'Clave

Daqui a três horas e meia, aqui, vou ler este texto:
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"Quando me disseram que o mote era literatura africana, confesso que hesitei pois muito de sábio haverá a dizer sobre a arte da vírgula à sombra do cajueiro.

Não sou um académico que do tema realize oração grata dando-vos o seu saber, nem nas minhas raízes tenho ancestralidade que me transmitisse a rica tradição do conto oral africano, seu húmus genético.

Da literatura, das diversas literaturas, conheço delas o que me dão e me agrada como leitor, e o conselho e forma que, como aprendiz de escritor, também nelas garimpo para o meu alinhavar de letras, que persigo emocionalmente audaz.

Sou um leitor compulsivo, atento não só ao conteúdo que me recreia intelectualmente, mas também voyeur de formas e estilos que invejo, e que ambiciono para estes meios-quilo de carne própria que são os textos, para o seu criador.

Há algo que me perturba quando se fala nesta ou naquela literatura étnica, seja na sua vertente poética ou na da narrativa.

É o receio de não lhes encontrar cheiros e sons específicos, e as palavras deslizarem para esse grande oceano da literatura chamada ‘universal’, que permite encher páginas de burlescos floreados e sagazes viagens ao íntimo, sem contar do canto do vento que cicia namoros às ramagens, ou do cheiro bom da terra, quando nela cai o pranto dos céus.

Ora, penso que quando se fala duma ‘literatura africana’ tratar-se-á do seu oposto, e, mais que o odor pessoal da tinta do escritor, das frases escorrerá a magia dum continente que é criança sofrida e dengosa mas também amante malicioso e sensual, letras em palete de emoções exclusivas.

Sabores, sons, cheiros; África está prenhe deles e a sua literatura conta-o.

Como já verbalizei, eu, Carlos Gil, sou um mero aprendiz desta feitiçaria das letras encadeadas, esta droga voraz que escraviza fatalmente quem lhe prova o sabor.

Daí que não tenho argumentação que enriqueça o tema, ‘literaturas africanas’, nem possuo em espólio texto exemplar às qualidades específicas sugeridas.

Rebuscando e virando a arca do avesso, do meu livro ‘Xicuembo’ extraio o conto que passo a ler-vos, versão revista, apelando aos vossos indulgentes favores para nele ouvirem o marulhar do mar Índico, quando ele se apaixona"

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A capulana e o mar (versão revista)
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A capulana enrolada quase no rabo, num nó ágil que desnuda segredos que as ondas beijam com lascívia. O vulto dobrado, lenço na cabeça, uma blusa de chita e a capulana, destaca-se no mar agriculturado pela noite, prado de ondas e sabores salgados que rompe, manso, contra a areia quente.

As mãos seguem os olhos, argutos, que procuram búzios, conchas, os tesouros que as ondas dão à areia em fecundação que a faz brilhar ao sol, quando o dia descobre o que a noite e as ondas deixaram na praia para a seduzir.

Em volta dos joelhos a água remoinha e borbulha, os pés enterram-se devagar e vão mudando o apoio ao sabor das mãos que recolhem as jóias do mar, que delas se despoja finda a noite que o veste em prata, para dançar o eterno namoro à areia da praia que o abraça, dele sequiosa mas interesseira às prendas com que ele a seduz.

A capulana recebe o beijo e lá fica a sua marca, roço húmido que lava pernas e panos, o corpo dela e a sua capulana, híbrido adorno que se cola como temeroso da água que a molha beijando-a, sempre mais e mais enquanto as mãos recolhem os búzios e as conchas, cada uma tão diferente...

Por vezes o Sol no alto suspende-se e brilha com mais força, quando o vulto se ergue e a mão eleva um dos tesouros e, à sua luz e brilho, há olhos que riem no prazer da beleza que descobriram, riquezas do mar que a capulana guardará.

As conchas têm matizes radiantes e brilham mais intensamente contra o céu, que mergulha no verde das águas e não esconde a beleza poisada na areia. Fora da sua prisão de água, à luz que cai em ondas de calor, as conchas e os búzios cintilam de forma especial antes de mergulharem no segredo que o nó da capulana esconde.

O nó, lasso, vai cedendo ao peso do pequeno saco que a capulana dobrada forma, e é reposto enquanto as águas, a maré que vai e vem, torneia-lhe as pernas magras mas robustas. Ritual colector, riqueza que a capulana conhece e conserva.

A rapariga comprara a capulana nova faria agora dois meses, quando vendeu para o mercado a sorte dum dia às conchas que trouxeram um cesto de peixe, oferta dum pescador que ali aportara, o bojo da canoa cheio e muita vontade de partilha da sua fortuna com o vulto de capulana arregaçada, seu farol enquanto as ondas o puxavam para a areia e, ao longe, lambiam de leve os panos e a moça que colhia as conchas, como se de lagostas em ouro se tratasse.

Azul e com listas vermelhas, ao centro o mapa de mãe-África que lhe parecia enorme, tão grande como este mar que a molhava deixando-lhe rugas como se traçasse cadeias de montanhas onde aprendera que seriam terras de deserto, ocas de animais, verde, água, ocas desta África que ela conhecia e dava-lhe conchas e búzios.

A capulana gostava de ir ao mar, dobrada em volta dos seus tesouros, molhada pela água excitantemente salgada.

Desejava também a carícia da areia que as ondas alumiavam, as suaves ternuras e cócegas que as mãos dela lhe causavam, os dedos que faziam e refaziam o nó, ou quando a batiam e esfregavam para a limpar da areia.

Já seca ao calor, brilhavam o azul e o vermelho onde o contorno de África ganhava um tom especial sob luz que a aquecia após o beijo do seu amante, dono das conchas e outros tesouros que lhe dava, malicioso e sedutor, para a beijar na sofreguidão das ondas que se erguiam, roçando as nádegas e molhando a capulana. Os seus restos viviam na capulana, brilhante de molhada, enrugada no excesso de meiguice do abraço de paixão que recebera.

Romance que se repetia sempre que o vulto, dobrado, lenço na cabeça e blusa de chita, a capulana azul com listas vermelhas dobrada quase até às nádegas, recebia os beijos do mar, e as ondas gritavam o seu prazer quando a acariciavam e ela brilhava, as cores mais intensas que nunca o foram.

Consta na praia que, um dia, na areia quente, o pescador afortunado e a moça dos búzios e das conchas deram um beijo, mas dele não teve ciúmes o mar pois ele amava era a capulana.

Links locais

Criei um imposto especial, a "derrama autárquica". Nele são tributados os blogues locais que conheço. Na lista estão dois ou três blogues partidários, mas como a febre das eleições já passou e acredito que os autores não deixarão estagnar os blogues até nova caça ao voto, inclui-os na lista.

Sobre Cahora Bassa

Num Grupo MSN, o MOH - Moçambique Ontem e Hoje, o Zé Paulo colocou imagens de duas notícias de jornais moçambicanos sobre o recente acordo entre Portugal e Moçambique sobre a transmissão da propriedade da barragem de Cahora Bassa. A visão dos resultados pela imprensa do outro lado, sempre interessante de comparar com a nossa, pois um negócio tem sempre duas visões distintas, sabemo-lo: quem compra acha caro e quem vende acha barato.
Não consegui ler bem pois as imagens tinham saído diminuídas, mas sobre Cahora Bassa todos sabemos um pouco. Deixei a seguinte mensagem, que é a visão de quem não acompanhou além da rama mais visível o facto, mas sempre resmungando que "já há anos a mais que se fala nesta merda":
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"Perdoem-me por comentar sem ler ambas as notícias por completo, ainda vou fazer um copy e depois ampliar. Há uma coisa própria de cocuanas para a qual não há lentes que a resolvam.
Mas comento porque acho que não há quem, principalmente neste últimos dias mas também nos trinta anos anteriores, não tenha a informação suficiente sobre Cahora Bassa (ou Cabora Bassa, como a conheci quando ela passou a entrar nas conversas regulares) para, agora, não dar um suspiro de alívio ou fazer um esgar a esta solução, última, kaputt e mude-se de disco.

Um acordo económico que demora trinta anos a conseguir-se (pois não é só receber: quem paga tem de angariar os meios para isso, preferencialmente pela própria exploração) só podia ter um fim: o enterro com coveiro político. E, olhos nos olhos e fazendo contas reais e não ilusórias, celebrar um novo que seja exequível - e a curto prazo.

Sabe-se que a barragem até ao fim da guerra civil nunca trabalhou de forma eficiente. Sabe-se que tem um cliente enorme, que se tentou aproveitar do seu gigantismo e posição de quase monopólio como gerador de receitas, para impor preços que só aumentavam a ruína financeira existente, um vazio em que Portugal, maior accionista, esgotou recursos enormes para aligeirar o buraco. A África do Sul pagava um preço mínimo pelo fornecimento, e unilateralmente baixou-o para menos de metade. Sabiam que, ou era para eles, ou a barragem fechava de vez os geradores pois não havia consumidores suficientes para a sua produção mínima. Foi em 2002, e um nosso ministro da altura, que como representante do maior accionista - Estado português - encabeçava o conselho superior da empresa mista que faz a gestão - ordenou que se carregasse no botão e 'cortou-se a luz' ao mau cliente, abusador e mau pagante, prepotente e malicioso. O acordo foi rápido, e o preço ainda subiu um pouco para cima do triplo do anterior, antes da leonina decisão da AdS de fazer saldos na casa dos outros. Dois anos depois Cahora Bassa apresentou pela primeira vez na sua história lucros de exploração. Hoje, mais um ano cumprido, vê o seu contencioso oficialmente enterrado.

Havia o passivo acumulado, e o maior accionista - que também é o único credor - pretende vender pois o país-investidor está carente de fundos, e ele, Estado, não pode de ter no momento prioridades estratégicas de investimento para além das fronteiras onde, nesta altura, os seus investimentos públicos são postos em causa em voz alta: o TGV e o aeroporto da Ota (julgo que a 3ª travessia do Tejo não avançará até um destes dois monstros estar quase pronto). Portugal quer vender, precisa de dinheiro e de esquecer este pesadelo económico de quatro décadas que se chama Cahora Bassa.

O comprador natural é o Estado moçambicano. Por uma questão de identidade também. Aquela barragem é mais que uma obra de engenharia invulgar, o seu nome tem mais peso que os números que gera; sabemo-lo. O comprador alternativo seria o 'tal' principal cliente. Que é vizinho e poderoso, e aqui (sem eu saber ao certo se houve e qual foi a sua oferta pré-negocial), aqui tem de falar a política: é para isso que ela serve, para assumir decisões em que os números são só uma das partes envolvidas, não a única. Moçambique é, nesta leitura, o único verdadeiro cliente para a venda.

Há um acordo feito, que pelo que percebi tem dois anos para terminar. A exploração da barragem é hoje positiva, livre deste ónus que nunca veria fim pois o devedor nunca teria meios de pagar ao credor. Dá lucro, gera receitas suficientes para ser um tremendo impulso financeiro num orçamento estatal que será assustadoramente minúsculo - imaginando-o pelo tamanho do nosso e das dores de cabeça que ele nos dá. Por cá, e nestes anos de reiterado aviso de esforço colectivo, com ataques a direitos sociais que eram impensáveis há poucos anos atrás, e uma cassete que ninguém desliga, soando constantemente, avisando que a crise é para manter mais uns tempos, por cá esse dinheiro fresco será recebido de mãos abertas para meter carris high tech e cimentar pistas de aviação. Acho que foi um bom acordo para todos os embrulhados nesta história.

Que não seja novamente a AdS a ser a má da dita, é o que também desejo. Se é verdade que se pode queixar das constantes quebras de fornecimento na altura da guerra civil, também o que sempre pagou mal e tarde, abusou da sua condição de 'único' cliente e, já na parte final da saga Cahora Bassa, até tentou um putch interno cujo objectivo final sempre ficou no ar a dúvida sobre qual seria. Talvez se recorde, porém, de que nem sempre o prevaricador fica a ganhar.

Há ciclos na História a que assistimos ao seu nascimento e morte. A barragem de Cabora Bassa/Cahora Bassa tem peso em tantas leituras, política, económica, social, militar, que tem lugar na história dos dois países. Nós estamos a viver História, e para além disso, realisticamente, não foi um acordo nada mau para Moçambique e para Portugal"

sexta-feira, novembro 04, 2005

Confidência eleitoral

Há uma razão adicional para eu apoiar a candidatura de Manuel Alegre à Presidência. Tem pinta de mangusso, é cá dos meus.

Testemunhos que valem Tudo

Li esta declaração de apoio e emocionei-me. Pela minha reacção, que sou um puto e não sou candidato a nada, imagino a do poeta da voz forte, a voz forte e clara da esperança.
Já ganhaste, assim já ganhaste! Estás a dar-nos o que mais falta nos faz. Obrigado Manuel Alegre

Paris já está a arder?

Crónica adiada

Os compromissos editoriais são o que são e eu não sou ninguém. Esta introdução para dizer que no número que saiu hoje à rua do 'O Almeirinense', o texto que preparara para a minha coluna Letras do Índico teve de ser adiado para o próximo, pois o papel é caro e o espaço é curto, e há mais letras que justamente também reclamam por serem lidas.
Como aqui no blogue não existe esse problema (pelo contrário... quem me dera ter diariamente novidades para publicar...), aqui fica o texto, sendo certo a 99,99% que esta 'antecipação' em nada prejudicará as vendas da próxima edição do jornal cá da terrinha.
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O que o rio traz à margem

A cultura africana sempre enfeitiçou quem dela quis sentir o afago do seu abraço, seja nos traços vincados da sua escultura, no concerto de cores e formas dos seus pintores, na música que soa em ritmo inigualável, no cantar da vida e do seu luar ou no estremecer involuntário que nos percorre quando lemos a força dos seus poetas. África é brutal, até quando nos beija e essa carícia perdura para além do travo misterioso que os seus lábios deixam na memória. Alguma da melhor poesia que conheço tem lá o seu registo de nascimento ou de adopção por amor. São palavras-poema com cheiros que nos envolvem entranhando-se na pele, sabores com exotismos que perturbam como uma paixão. Há um prato cheio de emoções que nos é servido para degustar no sorver de África pelas mãos, pela voz e pelo olhar dos seus artistas.

África tem visitado Almeirim, terra onde se fundem o Norte e o Sul à ribeirinha das margens dum rio que, mesmo hoje em que empalidece minguante, exibe a secular beleza dos seus poderosos antanhos, água-mãe de tantos viveres. Almeirim bebeu dessa força e nele musculou o crescer, nesse rio de tradições e valores pescou um olhar que se alça mais longe, mais além dos salgueiros que o contornam. Tão longe foi o seu abraço que nele acolheu outros viveres, outras pessoas, de Norte a Sul encontrou à beira-rio a diversidade que rejuvenesce e revigora a identidade. Há trinta anos atrás vindos da África que dizia-se ser nossa mas que a razão expropriou, hoje doutras gerações e doutros lugares. Mas sempre África no seu sentir e viver, na simplicidade da sua alegria. Foi também assim, de braço dado com filhos d’África, ao lado do rio que lava e varre e irriga as margens, que Almeirim cresceu.

A seguir ao encontro de poetas africanos num net-café que em boa lembrança também vende olhares escritos e encadernados do mundo e de nós mesmos, sucede-se esta coluna onde o mar do Índico já beijou gulosamente uma maliciosa capulana, e já se sonha com mais… No cair-nos do Inverno como saberá bem refugiarmo-nos dos seus maus humores numa mostra de escultura e pintura moçambicana, encontrando nas suas formas e bailado de cores o húmus tropical que os rigores invernais fazem almejar… Sonhar é bom, mas o êxtase da sua realização só se consuma no prazer partilhado, ora pela boa cheia de África que transbordou do rio inundando almas e amores, mesmo àquelas que dela nunca sentiram antes o seu bafo, quente, sensual. Assim vos conto do meu sonho, um que diz que talvez em breve haja mais novidades em mostras de cultura africana.

Da minha janela olho os dias que esfriam neste Outono que renasce nevoeiros e assoma rigores, e os meus olhos sobem às nuvens ou às estrelas e evado-me ao Norte, em memória e em sonho regresso ao Sul, ao colo da mãe África. Quando as palavras-fascínio soam, as narinas abrem-se e inalo o seu cheiro quando um poeta me dá letras com o calor ritmado dum batuque, pintadas nas cores de fogo do seu pôr-do-sol. Não sublimo nem desvalorizo os encantos da lezíria. Nas rotinas que do rio conhecem mouchões e tradições leio pinceladas que afagam, pois décadas de enraizamento geram um frémito em mim quando ouço o linguarejar típico, o seu calão, os seus dizeres e cantares, e o remanso da minha idade olha com ternura este viver para lá da minha janela.

Mas por ela, janela, vem-me o cheiro sonhado da terra húmida, a memória alaga-se em recordações e vejo as crianças. As crianças africanas que vivem num viver esfarrapado de tanto, que no vazio desse tanto restou um imenso lugar ao seu sorrir, e sorriem como mais nenhumas crianças do mundo conseguem sorrir. África beija-nos a existência com estes exemplos de ternura, ora doce na inocência cristalina dum sorriso, ora no abraço cultural prenhe duma força revigorante, explosivo no traço e exuberante no seu olhar a cor.

Felizmente que o acréscimo de África a estas páginas e ao nosso quotidiano não se atina às comuns das televisões e jornais generalistas, onde as boas notícias alternam com um excesso das más. Hoje, neste século em que se acede ao turismo espacial mas que viver em África é ónus superior ao bónus natural que a natureza concede a quem a pisa, neste tempo de extremos África dói-nos. Nascer e viver nas faldas duma floresta tropical ou numa cidade africana, ou sê-lo e vivê-lo olhando o nosso rio percorrendo as vinhas e as hortas, as esquinas das nossas vilas e cidades, é a diferença que está para além da sorte da vil vida ou seu profundo azar. África dói-nos, chora-nos, por vezes há lágrimas que rolam quando o olhar se evade do conforto do umbigo-janela, e voando turisticamente na demanda de imagens belas e cheiros especiais regressa vergado, apoiado nessa prótese da realidade chamada esperança.

E nesta margem do rio que tudo lava e traz, olhando o cair da folha e as águas para além da minha janela, abro um livro e leio um poeta, africano e moçambicano e também europeu e português, tal como eu que não sou poeta mas tenho uma janela por onde vejo as nuvens e sonho o rio, por onde afago a terra que me acolhe. Mas há um músculo que bate mais forte quando leio assim:

NATURALIDADE
....................
Europeu, me dizem.
Eivam-me de literaturas e doutrina
europeias
e europeu me chamam.
.....
Não sei se o que escrevo tem a raíz de algum
pensamento europeu.
É provável... Não, é certo,
mas africano sou.
Pulsa-me o coração ao ritmo dolente
desta luz e deste quebranto.
Trago no sangue uma amplidão
de coordenadas geográficas e mar Índico.
Rosas não me dizem nada,
caso-me mais à agrura das micaias
e ao silêncio longo e roxo das tardes
com gritos de aves estranhas.
.....
Chamais-me europeu? Pronto, calo-me.
Mas dentro de mim há savanas de aridez
e planuras sem fim
com rios langues e sinuosos
uma fita de fumo vertical,
um negro e uma viola estalando.
...................
Rui Knopfli

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